A Europa dos fantasmas e o permanente ruído que nada acrescenta

“É o fim da integração europeia.”

Marine Le Pen no Parlamento Europeu em 2015 (foto de Parlamento Europeu via Flickr)

Eles avisaram durante meses: estas eleições europeias seriam o consumar de uma mudança de paradigma da política continental, ameaçando a sociedade como a conhecemos e mesmo os valores estruturais da nossa Europa, assentes em Democracias liberais, na solidariedade, liberdade de expressão ou na mobilidade sem fronteiras. Esta retórica valeu horas televisivas, páginas jornalísticas e uma bíblia de tweets, mas será que se consumou em votos? Sim e não.

Reino Unido

Se é verdade que o Brexit Party foi o partido mais votado (à semelhança do UKIP em 2014, mas ainda com mais lugares à custa dos Tories), também o é que os Liberais (+15! MEPs) tiveram o maior crescimento, acompanhados dos Verdes (+3). As forças assumidamente pró-Remain/pró-UE (excluindo os 2 tradicionais partidos), conseguiram 29 lugares, mais 20 do que em 2014.

Itália

A Itália é claramente o caso que neste ponto merece mais cuidado, com os partidos eucépticos a mais que duplicarem os seus lugares face a 2014. No entanto, face às sondagens e mesmo a 2014, o M5S ficou bem aquém do esperado (perdeu 3 MEPs) o que claramente favoreceu a Liga. O PD, de centro-esquerda, ficar em segundo lugar foi a surpresa da noite, mas claramente que muito do futuro da integração europeia passa por um combate político neste país.

França

Marine Le Pen. A candidata francesa será mais conhecida em Portugal que vários dos cabeças-de-lista portugueses, por todos os motivos, mas a realidade é a RN não conseguiu sequer melhorar o resultado face a 2014, perdendo 2 MEPs numa das fases politicamente mais frágeis de Macron. A França continua com uma maioria claramente pró-UE, só está claramente mais dispersa pelo crescimento generalizado dos Verdes, onde a França não foi excepção (duplicaram os assentos).

Espanha

O Vox é hoje um dos partidos que, pela proximidade geográfica, pelo receio que o fenómeno se mobilize em Portugal, mais facilmente entra na nossa discussão pública. Considerando que a Espanha tem 54 eurodeputados, quantos terá conseguido esta extrema-direita? 15? 20? 10? Três. Sim, três. Enorme vitória do PSOE e mesmo o Ciudadanos conseguiu crescer de 2 para 7 lugares.

Áustria

Depois de uma polémica a envolver o Vice-Chanceler austríaco e líder da extrema-direita FPÖ, Heinz-Christian Strache, foi com naturalidade que surgiu a queda do Governo e, quase simultaneamente, a derrota deste partido na Eleições Europeias com a perda de um dos anteriores quatro MEPs.

Portugal

Incessantes minutos (quase nunca políticos) foram dedicados a um novo fenómeno da política portuguesa. Um experimentalismo populista à direita que, no final de contas, valeu tantos votos como PCTP/MRPP, PURP e PTP somados.

O panorama europeu

Olhando para o crescimento do ENF (agora o grupo liderado por Salvini, EAPN), que ganha 37 eurodeputados para ficar com os 73 atuais, o crescimento é relevante, quase o dobro. No entanto, 22 destes novos 37 surgem da Itália, do próprio partido de Salvini.

Mas vamos aos números da extrema-direita:

2014-2019 = EFDD + ENF + ECR = 42 + 36 + 77 = 155/751

2019-2024 = EFDD + ex-ENF (agora EAPN) + ECR = 44 + 73 + 60 = 177/751

Variação Nos Países “Big 5”: (ECR+ENF+EFDD) =

Reino Unido (-11) +  França (-2) + Espanha (+0) + Itália (+20) + Alemanha (+4) = +11

Restantes 23:

Áustria -1 Eslovénia 0 Luxemburgo 0
Bélgica +1 Estónia +1 Malta 0
Bulgária 0 FInlândia 0 Países Baixos -1
Croácia +2 Grécia -1 Polónia +7
Chipre 0 Hungria 0 Portugal 0
República Checa +4 Irlanda 0 Roménia 0
Dinamarca -3 Letónia +1 Suécia +1
Eslováquia 0 Lituânia 0 Total: +11

A estes grupos poderão ainda juntar-se membros de outros partidos (como, por exemplo, o Vox) e de outros grupos políticos do Parlamento Europeu como os Não Inscritos onde por vezes se enquadram elementos de novos partidos ainda que possam partilhar bandeiras ideológicas.

Em conclusão

Obviamente, nunca será minha intenção normalizar as intenções de quem quer destruir aquilo que de melhor tem a Europa e a União Europeia, mas tenho de questionar a publicidade gratuita que se dá a quem: 1. nunca trouxe mais do que fatalismos e “soluções” simplistas à esfera mediática; 2. em alguns casos, nem têm mesmo resultados consistentes ao ponto de justificar a atenção. Naturalmente também, que nem todos os membros do ECR serão eurocéticos duros, da mesma forma que nem todos os membros do PPE são europeístas de centro-direita ou direita moderada (veja-se o caso conhecido do Fidesz). Mas falar em abstrato da ameaça populista e nacionalista fomenta o receio democrático e mesmo uma deslocação para a direita que alguns partidos moderados que nunca os beneficiou.  

Esta ameaça, que existe, não se vencerá com a implantação do medo generalizado ou com a multiplicação de fenómenos para gerar burburinho mediático. Onde não existe, que se ignore, onde existe, que se expliquem as propostas e destruam os soundbites populistas. Nem com um eleitorado mais mobilizado pela natureza do protesto a extrema-direita pode reclamar uma vitória generalizada nestas Eleições Europeias. Hoje, cada segundo mediático em volta do populismo eurocético serve mais para mediatizar o seu produto político do que para informar com seriedade e proporção. Se é verdade que nem só de tempo de antena vive a extrema-direita, também o é que hoje sobrevive à conta do que lhe dão.

Podemos agora discutir soluções e visões sem multiplicar o permanente ruído que nada acrescenta?

(Todos os dados provém de politico.eu)

Rui Guilherme Araújo