Se a internet fosse um país, seria o 6º mais poluente

E agora há um manifesto para que nos lembremos disso.

Foto de Google/DR

Nos últimos anos, com a crescente digitalização de todo o mundo e o surgimento das preocupações ambientais, nas assinaturas dos e-mails começámos a ver mensagens de apelo à consciência ecológica que nos diziam para não imprimir o documento a menos que fosse de extrema necessidade. Esta tendência surgiu paralelamente à quase total digitalização de tudo o que eram físico e impresso em papel, baseada no senso comum de que se é digital tem logicamente menos impacto ambiental.

À primeira vista, esta lógica parece óbvia mas ainda assim devemos ter em consideração que o processamento digital está longe de ser totalmente sustentável ou eficiente – é difícil encontrar estudos científicos que comparem os custos ambientais de uma e outra realidade em sectores específicos e é preciso olhar para as redes que as sustentam. 

O papel e a sua componente física representam visivelmente, para qualquer pessoa, um custo material, já o digital esconde na sua interface toda a rede de custos que o possibilita, tornando-se num opaco consumidor de energia em locais específicos e distantes do seu utilizador. Para se ter uma ideia deste impacto, veja-se que os centros de dados já consomem cerca de 2% da energia produzida no planeta e que se prevê que esta percentagem suba até 2030.

Em causa, está a de constante ligação para manter a internet online, a necessidade de refrigeração do ar para que tudo se mantenha estável a que se juntam, do lado do utilizador, a energia consumida nos carregamentos dos aparelhos electrónicos ou na ligação dos routers à electricidade. Tudo isto forma o que se chama consumo em rede ou em inglês network consumption, o global acumulado de energia gasta de que raramente nos apercebemos mas que está cada vez mais estudado — um estudo de 2013 revelava que o utilizador médio do iPhone consumia 361 Quilowatt-hora por ano, enquanto que um frigorífico se ficava pelos 322 Quilowatt-hora no mesmo período.

Outros dados se podem acrescentar a esta ilustração associados a outras tecnologias; a criptomoeda Bitcoin, por exemplo, seria o 64º mais consumidor de energia se fosse um país.

Face a esta realidade, conhecida da maioria dos especialistas em tecnologia, urge a necessidade de se criar uma internet mais sustentável. São públicos os planos de grandes empresas para começarem a correr os seus servidores em energia renovável mas esta preocupação dificilmente chega ao utilizador finalmente para quem mais um tweet, mais uma mensagem ou mais um download não tem custo nenhum. Mesmo para designers, programadores e outras pessoas da cadeia criativa da internet esta questão é geralmente secundária e foi por isso que a empresa de web design britânica Wholegraindigital decidiu juntar outros profissionais da área para criar o Sustainable Web Manifesto.

O manifesto, em forma de web-site, é o primeiro passo para a concretização do objectivo de consciencializar quem produz para a internet, e contempla 5 valores chave que devem ser tidos em conta na criação:

  • Limpo: os serviços criados e utilizados devem ser alimentados por energias renováveis;
  • Eficiente: os produtos e serviços devem utilizar o mínimo de energia e recursos possíveis;
  • Aberto: os produtos e serviços devem ser acessíveis, permitir a troca de informação e deixar os utilizadores controlar os seus dados;
  • Honesto: os produtos e serviços não devem enganar nem explorar os utilizadores através do design ou conteúdo;
  • Regenerativo: os produtos e serviços devem suportar uma economia que nutra as pessoas e o planeta.

Para além desta sinopse, o grupo espera agora criar e indexar outras ideias, mais práticas, sobre como todos podemos tornar a internet num lugar mais sustentável. Um ponto importante nesta equação é que esse resultado não depende apenas dos produtores mas sim da relação que estabelecem com os seus utilizadores. Quando falamos de vício em redes sociais e de aplicações que nos prendem para além dos limites do razoável também estamos a falar de um consumo desmedido de energia e, por conseguinte, de recursos do Planeta Terra, sem que sequer nos apercebamos.