Norilsk: “a cidade de ficção científica” filmada sob o olhar dos serviços secretos

Documentário sobre a gelada Norilsk aqueceu o público no Arquiteturas Film Festival.

O cenário – que pelo ocidente diríamos distópico – parece saído de um filme de ficção científica, mas a vida em Norilsk é bem real. Fundada em 1935 como um Gulag, Norilsk é uma cidade russa situada cerca de 240 km ao norte do Círculo Polar Ártico. Aí habitam mais de 130 mil pessoas, todas elas ligadas direta ou indiretamente à única produção que aí se pratica: a mineração de níquel e a sua industrialização. Aqui extrai-se cerca de 75% de toda a produção mundial de paládio e a população tem de lidar com uma temperatura média anual de −10°C, e temperaturas que em alguns casos atingem os −60°C. Com 250–270 dias do ano com neve e tempestades em 110 a 130 dias anuais, a cidade dormitório e fabril é uma das dez mais poluídas do mundo, mas isso não impede as pessoas de se banharem nos riachos.

Isso mesmo é demonstrado no bem conseguido “documento histórico” que é Melting Souls (Norilsk, L’Étreinte de Glace), um documentário de François-Xavier Destors que acompanha – como pode – o dia a dia de alguns dos habitantes do local (empregados fabris, uma cabeleireira, um eletricista/músico amador, etc), presos entre o sonho de um dia saírem do local e o comodismo enraizado de quem nunca saiu do seu casulo. Há imagens extremamente paradoxais e a busca da arte (Pole dancers, criação de música eletrónica, até Parkour, uma banda filarmónica a tocar o tema de Ghostbusters) no meio da laboração quase mecanizada.

Mas o que levou Destors a este local inóspito? Porque razão quis ele filmar esta cidade e as suas gentes? E como o conseguiu, já que os estrangeiros estão proibidos de visitar esta região autónoma, mas ainda assim ligada à Rússia? As respostas surgiram da boca do próprio realizador na sessão de abertura do Arquiteturas Film Festival, na qual ele explicou porque decidiu abandonar o Ruanda, onde vivia há 8 anos e trabalhava em diversos projetos com sobreviventes do genocídio de 1994 (nos quais se inclui o livro Images d’Après,Cinéma et Genocide au Rwanda).

O seu desejo de continuar a explorar e estudar crimes contra a humanidade levou-o a investigar antigos Gulags da União Soviética, conduzindo-o até Norilsk, um local que o próprio define como “um verdadeiro cenário de ficção científica, que lhe lembrava obras de Tarkovski, como Stalker. Como pode esta gente viver aqui?”, foi a primeira questão que colocou.

Nesta altura, a ideia era filmar a cidade, tirar fotografias, tudo de forma tranquila, mas Destors enganou-se e nunca antecipou as dificuldades que iria encontrar para o conseguir. “A cidade é proibida a estrangeiros, por isso tive de negociar com os serviços secretos e levou-me quatro anos a conseguir ter acesso à cidade. Eles tinham medo que eu fosse um espião industrial, mas finalmente consegui em 2015 e passei lá um mês. Tinha um visto de dentista, não podia ir lá como jornalista. (…) Quando cheguei lá, percebi que mais que a História [do Gulag], a sobrevivência era a chave. Só havia um sobrevivente desses tempos e as memórias disso estavam completamente enterradas.”

Lidar com os serviços secretos

Depois da negociação com os serviços secretos russos, estes mantiveram-se sempre muito perto da produção. O próprio reconheceu que não falando russo, chegou a pedir ajuda a uma habitante local para as interações com outras pessoas, mas acabaria por descobrir que essa pessoa fazia ela mesmo parte dos serviços secretos: “Ela orientava-me mal, por isso livrei-me dela e assumir o controlo, correndo os meus próprios riscos.” Ele mesmo tem dúvidas se algumas das pessoas que surgem no seu documentário não seriam mesmo agentes ao serviço das autoridades. O sentimento de paranóia é natural num homem que depois do documentário foi proibido de entrar novamente na cidade ou até de o exibir.

Quem também passou por muitos riscos, naturalmente, foram os homens e mulheres entrevistados pelo realizador neste seu percurso. “Todas as personagens foram ameaçadas pelos serviços secretos. Alguns perderam mesmo os seus empregos, as vagas nas escolas para os filhos. Eu cheguei a ser detido”, explica. “Foi toda uma série de histórias e eventos loucos que me remeteram aos tempos da URSS. Para as minhas personagens era muito difícil falarem comigo de forma aberta e franca. Mas a ideia também não era só mostrar os pontos negativos da cidade, como a poluição extrema (as fábricas da cidade poluem num dia o que França polui num mês), mas entender a relação destas pessoas com o espaço. Eu queria a cidade como a personagem principal e construir o seu retrato orgânico. (…) Consegui visitar o local duas vezes. A primeira vez em 2015, sozinho, onde estive um mês; a segunda, quando filmei o filme todo, em 2017, durante 2 semanas e meia. (…) Nunca pude filmar em espaços públicos, ou governamentais, como escolas. Tinha de me manter longe deles pelo menos 30 passos […] Muitas vezes, para falar com as pessoas íamos para os pilares de construção dos edifícios. Como o terreno é gelado, as fundações dos edifícios assentam neles. Assim, íamos para ao pé desses pilares e enviamos mensagens uns aos outros, porque não queríamos falar. Havia microfones em todo o lado, pessoas a tirarem fotografias. Foi muito difícil manter as personagens no projeto. (…) Mas por exemplo, e queria filmar um casamento e fui a um cabeleireiro procurar pessoas e a senhora que lá trabalhava transformou-se numa personagem.”

Ainda assim, o realizador conseguiu filmar algumas sequências numa fábrica, isto após convencer uma série de oficiais que queria fazer um filme “poético sobre a cidade”, conseguindo assim visitar esses espaços, embora sempre acompanhado para não filmar nada “inadequado”. Entre fábricas e mineração, Destors lembra que em estradas à superfície devem existir cerca de 100 km e uma única saída. Já nas escavações das minas, que nunca pôde visitar, encontramos “milhares de quilómetros entre túneis”.

Ficar ou sair da cidade?

O grande foco de Destors, como anteriormente já tinha referido, era a relação de amor-ódio de quem vive nela com o espaço. Quase todos falam no sonho ou desejo de sair, mas ao mesmo tempo não fazem praticamente nada para que isso aconteça, como que entregando-se a um destino, a um fado. “São percursos circulares”, explicou o cineasta, acrescentando que as pessoas estão sempre a tentar escapar, mas acabam sempre por regressar. “O próprio filme tem esse ritmo e forma.”

Texto de Jorge Pereira

(Nota: este texto foi originalmente publicado no c7nema, um dos mais antigos sites de informação, opinião e crítica de cinema em Portugal, tendo sido aqui reproduzido com a devida autorização.)