O Macaco Bêbado Foi À Ópera: uma crítica ao ensaio de Afonso Cruz

Afonso Cruz não sabe escrever mal. Somente oscila entre o bom e muito bom.
 O Macaco Bêbado Foi À Ópera – Da Embriaguez À Civilização é um bom ensaio.

Homem de muitos instrumentos, Afonso Cruz parece não desafinar. Desta vez o autor nascido na Figueira da Foz publica na colecção “Retratos da Fundação” (Fundação Francisco Manuel dos Santos) um ensaio sobre álcool. Mais especificamente sobre a presença do álcool na vida do ser humano. O Macaco Bêbado Foi À Ópera – Da Embriaguez À Civilização tem mais virtudes do que defeitos. Uma mais-valia entre as virtudes é a visão de Afonso Cruz.

A exegese vai desde os astros aos fungos, passando pelo crescimento do cérebro e do rabo do macaco (com influência na sexualidade humana). O ângulo de abordagem faz jus ao título do livro. A estranheza refresca os neurónios mais saturados. É uma marca de autor. Afonso Cruz olha para o mundo de forma diferente, a escrita reflecte as suas ideias, e tudo é bem mais bonito nas suas palavras. Neste livro encontramos ecos de obras tão diferentes como Jesus Cristo Bebia Cerveja,  e até mesmo – devido às idiossincrasias humanas – do livro infantil A Contradição Humana.

O cheiro de fruto maduro, carregado de açúcar, fez com que o macaco descesse à terra, pousasse os pés no solo, e começasse à procura de mais frutos. A recompensa valia o perigo. Foi o primeiro passo para milénios mais tarde o macaco ir à ópera. Mas tudo começa muito antes. Segundo Patrick E. Govern, em Uncorking the Past: the Quest for Wine, Beer, and Other Alcoholic Beverages, existem gigantescas nuvens de metanol, etanol e álcool vinílico no espaço interestelar e sistemas estelares envolventes. Uma dessas nuvens – bem próxima da Via Láctea – é Sagitário B2, que contém álcool para encher garrafas de vodka com peso cinco vezes maior do que todos os planetas do Sistema Solar, afirma Nicholas P. Money em The Rise of Yeast: How the Sugar Fungus Shaped Civilization.

Desde a composição do universo até às construções sociais, Afonso Cruz vai ancorando teorias em diversos autores. A principal é a já mencionada “drunken monkey theory”. O macaco desceu das árvores à procura de açúcar [nos frutos] para ter mais energia. Essa energia possibilitou ter um cérebro maior e com mais plasticidade. A inteligência foi lentamente aumentando. Mas não só de açúcar se tratou. Os frutos demasiado maduros estão em fermentação, criam etanol.

“Resumindo: o macaco desce da árvore porque lhe cheira a álcool e isso significa açúcar, energia, calorias, consequentemente um cérebro maior, e muitos milénios depois a possibilidade de ir à ópera.”

Daqui o autor dá um salto ideológico e temporal carente de uma respiração mais calma, profunda, mas inadequada para o formato proposto nesta colecção. Do impulso biológico para a construção ideológica há um avanço abrupto. O consumo de calorias foi aumentando ao longo da evolução até ao exagero. A acumulação de gordura é “o primeiro mecanismo biológico da ganância”. O desenvolvimento resultou em mecanismos mais complexos.

Segundo Afonso Cruz, a pulsão simples foi-se manifestando em formas diferentes. A acumulação de energia como a lenha, carvão petróleo, ou energia eléctrica e nuclear correspondem ao desejo de açúcar, ou seja, de energia. A acumulação de prata, ouro, jóias e propriedades dizem respeito à gordura, que pode vir a ser transformada em energia. A base é biológica, mas a consequência é política. A acumulação pode ser benéfica (colecção de livros, de arte), ou trazer consequências nefastas. O ser humano cai num ciclo vicioso de ganância, apropriação, escravidão, capitalismo.

“O crescimento económico contínuo é a insaciabilidade do macaco bêbado.”

Antes de ópera e do capitalismo, o macaco bêbado passou pela agricultura de subsistência. A civilização suméria, que ficou conhecida como a civilização do pão e da cerveja, considerava que o ser humano só assim poderia ser considerado após comer pão e beber cerveja. Esta bebida, a que o autor se dedica a produzir, era consumida como alimento, com fins medicinais, em ritos religiosos e para se alcançar um “estado semimágico de consciência”, vulgo bebedeira.

Uma vez que era mais fácil fazer cerveja do que cozer pão (não é preciso forno para a cerveja), é bastante provável que a cerveja tenha surgido primeiro. Afonso Cruz partilha as ideias de Nicholas P. Money, em The Rise of Yeast, quando este sublinha:

“A afirmação de que a civilização foi provocada pelo nosso amor ao álcool tem por base a teoria de que o cultivo de cereais e a sedentarização visaram promover matéria-prima para a cerveja. Esta ideia foi originalmente proposta na década de 1950 e contrapunha a hipótese ‘o pão veio primeiro como deflagrador civilizacional’.”

Passados milénios, a bebida alcoólica mudou de perfil. Depois de sustentar passou a fornecer abundância de calorias a uma sociedade cada vez mais sedentária. A energia tornou-se em gordura. Acresce o facto de a bebida estar já longe de ser parte importante da “roda dos alimentos”. Tornou-se produto altamente consumível em lógica de mercado e de lucro. Da alimentação passou a ser parte importante da socialização. Antes do “estado semimágico” o ser humano chega à jovialidade e espontaneidade. A bebida suaviza o filtro social e alimenta a criatividade. Quantos estados de apatia terão sido rasgados com a força do álcool? Basta um bar.

“O álcool poder ser a porta de entrada para a necessária demência, temporária como convém.”


Aristóteles, em Fragmentos, distingue a embriaguez do consumo ligeiro de álcool. Para o filósofo grego, beber não é condenável desde que haja abstinência de disparatar como faz o bêbado.

Abordando o tema desde o universo até à construção cultural e artística, em que o “macaco” é interveniente, Afonso Cruz refresca os conhecimentos do leitor com um ensaio sobre o álcool. Um ensaio com qualidades e defeitos. Um tema tão vasto pede um ensaio com as características diferentes da colecção em que se insere. O autor precisaria de mais espaço para desenvolver fundamentos e diluir a divisão entre assuntos. Ou de adaptar melhor o tema ao formato.

Afonso Cruz não sabe escrever mal. Somente oscila entre o bom e muito bom.
 O Macaco Bêbado Foi À Ópera – Da Embriaguez À Civilização é um bom ensaio.

Texto de Mário Rufino