Numa época como a atual, marcada pela polarização das posições e pela ascensão dos extremos, raras são as causas mobilizadoras que permitem uma união de esforços que seja eficaz e compensadora.

Os “grandes perigos” da atualidade estão identificados, mas ainda muito pouco se conseguiu para os debelar com suficiente rapidez: a crise climática exige respostas que abalam o atual sistema de interesses e a organização das indústrias e do capital; a crise dos populismos parece imparável e conquista novos territórios, à boleia das fake news; a crise da inteligência artificial acompanha-se de inúmeras dificuldades de regulação e de ponderação ética, à qual a sociedade civil parece, por enquanto, alheia.

Acontece que estas crises – a que frequentemente gosto de chamar as “novas crises” –, não podem ser analisadas de forma dissociada das “velhas crises”: as desigualdades sociais, as iniquidades de acesso aos cuidados de saúde e educação, os dilemas do mercado de trabalho que marginaliza os seus trabalhadores (“colaboradores”, na novilíngua) e lhes retira progressivamente os justos direitos, e a promoção da cultura como pilar das sociedades evoluídas. Tudo isto, claro, embalado numa óptica de “sociedade de consumo” que despersonaliza, deslaça e desintegra aquilo a que antigamente chamaríamos “a comunidade”.

O maior problema em tudo isto, como sempre acontece, é o futuro. Esse grande monstro impiedoso que chega sem pedir licença e para o qual nunca parecemos preparados. E o futuro é dos que virão depois de nós. As crianças que hoje nascem estarão condenadas a uma vida substancialmente diferente daquela que vivemos, e é uma responsabilidade fundamental garantir-lhes o direito a uma sociedade e um planeta habitáveis e condizentes com uma vida livre, justa e feliz.

Talvez possamos encontrar aí um assunto em que todos estejamos de acordo: independentemente da etnia, do credo religioso, da nacionalidade ou da orientação sexual, as crianças de hoje, os homens e mulheres de amanhã, merecem a oportunidade de viver num planeta que lhes permita uma vida confortável.

Tendo isso em mente, e constatando a evidente intersecção entre todos os grandes problemas globais, parece claro que as estruturas decisórias devem promover uma visão de governança ampla, multinível e abrangente, com equipas multidisciplinares capacitadas para construir um grande plano de desenvolvimento como garantia de futuro.

“Desenvolvimento” será a palavra-chave para trazer o Futuro para o debate. Os UN Sustainable Development Goals são dessa preocupação uma das mais relevantes armas e bandeiras, e da sua implementação resultaram já progressos importantes.

Muito existe, porém, a trabalhar nestas dinâmicas: a big picture está ausente dos debates nacionais e locais, a pequena política é um entretenimento rápido para quem comenta com animação a última polémica, e é da pequena política que nasce a inação, a corrupção, o populismo. Uma pequena política que pouco faz de bem e que, quando algo de positivo produz, não tem interesse ou competência para o comunicar e divulgar.

O que podemos fazer, então, para mudar isto? É uma questão impossível com um número infinito de respostas possíveis. Tentarei construir um raciocínio que seja o esboço de uma proposta (e falharei tentando):

  1. Um processo democrático mais rico. As instituições públicas que governam os bens comuns têm de ser mais transparentes, democráticas e responsabilizáveis pelas decisões tomadas. A corrupção alimenta-se da opacidade e dos equívocos, pelo que um regime de transparência permitirá combater algumas ideias populistas. Os partidos políticos são atores fundamentais, mas insuficientes para esta mudança, pelo menos no seu presente modo de funcionamento: a cidadania tem de entrar pelas     portas das sedes partidárias e exigir uma representatividade das suas sensibilidades e causas.
  2. Para problemas globais, soluções globais. A política europeia e internacional tem de ser reforçada. O grau de democraticidade das instituições deve ser ampliado, promovendo a participação e a representatividade.
  3. A Educação como arma. O acesso à educação deve ser garantido a todos os seres humanos no planeta, independentemente da sua idade ou nacionalidade. Novos modelos de aprendizagem e transmissão de conhecimentos devem ser geridos de modo a adaptar o saber à crescente velocidade da informação: uma cultura de promoção do raciocínio lógico, da análise e interpretação de informação, de entendimento do método científico como fonte essencial do conhecimento formal. Estas mudanças aumentariam a participação cidadã e corrigiriam os erros de pensamento que estão na base da pseudociência e da ignorância.
  4. A Saúde em todo o lado. Urge trazer a saúde para fora dos hospitais e dos centros de saúde, para o meio da rua, dos edifícios públicos, das grandes construções. Uma sociedade que se empenhe na promoção da saúde das crianças, que permita aos pais o acesso à melhor informação e às condições socioeconómicas para que nenhuma criança passe fome, nenhuma criança seja vítima de decisões nutricionais erradas ou abusivas, nenhuma criança veja limitadas as suas potencialidades de desenvolvimento cognitivo, social e humano.
  5. A Ecologia como pressuposto. A crise climática não pode ser apenas um problema a enfrentar. As preocupações com a conservação das espécies, com a diminuição das emissões de carbono, com a redução do consumo de plásticos e outras fontes poluidoras devem estar na base de um novo modelo de desenvolvimento que submeta os pressupostos económicos às restrições dos pressupostos ecológicos (como o “Green New Deal” que o partido LIVRE propõe para estas eleições europeias).
  6. Uma Cultura para a tolerância. A promoção da cultura, das artes e das humanidades como alavanca para novas gerações mais informadas acerca da diversidade, ultrapassando as velhas barreiras das fronteiras nacionais e dos preconceitos enraizados, e permitindo retirar da História as lições que evitarão a repetição dos velhos erros da humanidade.
  7. A celebração da Diversidade. A abertura a pessoas de diferentes orientações sexuais, nacionalidades, etnias e religiões, numa aliança global que integre, respeite e promova a expressão livre e despreocupada da individualidade, é o passo necessário para que todos os seres humanos sejam mais felizes na sua vivência particular e se libertem para abraçar a vivência comunitária e coletiva, longe das velhas frustrações, preocupações e discriminações que aprisionaram durante demasiado tempo tantas e tantos bons ativos das nossas sociedades. Exemplo disso é a emancipação feminina, que trará ao mundo o completo usufruto das qualidades e competências de metade da população mundial.

Tudo isto são propostas para construir um pacto unificador das nossas sociedades. Imensos são os obstáculos a enfrentar, mas se for essa a verdadeira vontade da maioria dos cidadãos do mundo, mais tarde ou mais cedo lá chegaremos.

Para isso, tenhamos a coragem de nos afirmar em cada momento: nas nossas famílias, nos nossos empregos, na nossa vida coletiva, nas eleições e fora delas, na rua ou em casa, em frente a um computador, como aqui procurei fazer.