Fim de ciclo na Grécia: Syriza de volta à oposição, conservadores de volta ao poder

O líder do Syriza disse num discurso com transmissão televisiva que Kyriakos Mitsotakis, o próximo Primeiro-Ministro grego, encontrará um país sem qualquer relação com aquele que Tsipras herdara em 2015, à beira da falência e com desemprego nos 28%, salientando por exemplo que agora a Grécia goza de taxas de juro historicamente baixas.

Kyriakos Mitsotakis, o novo Primeiro-Ministro grego (foto de EPP via Flickr)
 

Se há partido que nos últimos anos se tornou numa espécie de símbolo para os tempos que a União Europeia foi vivendo, esse partido foi o Syriza. Encabecado por Alex Tsipras, secundado, a princípio, por Yannis Varoufakis, o pequeno partido grego vindo da ala esquerda foi protagonista de algumas das mais debatidas reuniões na cúpula da burocracia europeísta e desafiador do poder instituído num braço de ferro que acabaria por perder. Depois de em 2015 ter surpreendentemente chegado ao poder, completando uma trajectória ascendente que se iniciara em 2012, o Syriza teve este domingo a sua primeira grande derrota nas urnas, que se começara a adivinhar na derrota política de há quatro anos.

As eleições gerais em terras helénicas do último fim-de-semana devolveram o poder ao partido Nova Democracia, que em Janeiro de 2015 tinha sido arredado eleitoralmente como penalização pela entrada da Grécia na crise e por suspeitas envolvimento em casos de corrupção, e fecham o ciclo de perto de uma década sem Governos de maioria absoluta.

Desde 2012 até 2019 os gregos expressaram nas urnas a sua rejeição ao partidos políticos mais tradicionalistas — à direita, o Nova Democracia (ND) e, à esquerda, o partido socialista grego, PASOK — mas nestas eleições os sinais são inversos. Para se medir a inversão de ciclo marcada por estas eleições, é preciso perceber que o último partido a ter maioria absoluta tinha sido o PASOK, entretanto reduzido a um lugar na coligação Movimento Para A Mudança, que obteve nestas eleições o terceiro lugar, a uma distância assinalável de ND e Syriza.

O Nova Democracia chega à posição maioritária de formação de Governo conquistando um total de 158 assentos parlamentares, uma maioria absoluta no universo de 300 lugares, quase o dobro do número de assentos conquistados pelo Syriza, 86, e mais 136 lugares do que o terceiro, Movimento Para A Mudança, com apenas 22.

O resultado é visto em todos os quadrantes como uma forte penalização para o Syriza; apesar de nos últimos quatro anos, o Governo de Tsipras ter conseguido uma performance política com alguns pontos positivos, como a descida do desemprego de 28 para 19% ou a saída pacífica do programa de assistência financeira iniciado em 2010, o partido falhou às suas ambiciosas promessas pelo que acabou penalizado. Recorde-se que a chegada do Syriza ao poder surgiu num contesto de confronto com as políticas da União Europeia; o partido foi promotor do referendo em que 61% dos gregos votaram contra as condições impostas pela troika composta por União Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional; o partido ficara em 2º em 2012, surpreendera nas eleições europeias de 2014, ficando à frente do partido no poder, Nova Democracia, e ganhara as legislativas em 2015 num resultado político que foi interpretado como um voto de confiança dos gregos num governo que marchasse contra a União.

Em declarações após o reconhecimento dos resultados, Tsipras congratulou o seu opositor e sublinhou os pontos positivos do seu governo apesar da derrota. O líder do Syriza disse num discurso com transmissão televisiva que Kyriakos Mitsotakis, o próximo Primeiro-Ministro grego, encontrará um país sem qualquer relação com aquele que Tsipras herdara em 2015, à beira da falência e com desemprego nos 28%, salientando por exemplo que agora a Grécia goza de taxas de juro historicamente baixas. De resto, em reacção à vitória do Nova Democracia e na expectativa de um Governo mais virado para as empresas e os investidores, o mercado reforçou a tendência de baixo juros para a Grécia atingido um novo mínimo histórico de 2%.

Estas eleições ficaram marcadas por outros acontecimentos que revelam a mudança de perfil político na Grécia, dos 6 partidos mais votados apenas 3 eram repetentes em eleições. As eleições de 2019 marcaram a estreia da coligação Movimento Para A Mudança, como solução de centro-esquerda, do partido MeRA25, de Yannis Varoufakis, mais à esquerda, e da Solução Grega, outro partido de direita fundado em 2016 pelo antigo deputado Kyriakos Velopoulos.

Gostaste do que leste? Quanto vale conteúdo como este?

Trabalhamos todos os dias para te trazer artigos, ensaios e opiniões, rigorosos, informativos e aprofundados; se gostas do que fazemos, apoia-nos com o teu contributo.