FaceApp: a aplicação do momento recolhe dados dos utilizadores, e as outras não?

No fundo, é preciso termos consciência de que de uma forma geral “não há almoços grátis” e que, por isso, quando algo é gratuito e também divertido, temos de proceder com cuidado.

A aplicação já existe desde 2017 e, por algum motivo, tornou-se agora viral por cá. Falamos do FaceApp, uma aplicação que permite fazer o upload de uma fotografia do nosso rosto e aplicar-lhe um filtro de envelhecimento para vermos como poderemos ficar daqui a uns anos. Há mais filtros que o FaceApp oferece, incluindo mudar a cor dos olhos ou trocar de sexo, mas é o do envelhecimento que tem feito furor por estes dias nas redes sociais.

O frenesim parece ter chegado através do Brasil. Foto puxa foto – um utilizador publica, outro vai atrás, descarrega a app e experimenta. Com a ajuda dos chamados ‘influenciadores’ e ‘figuras públicas’, de repente, nasce um viral e a comunicação social, sempre atenta a estes faits divers, escreve sobre o tema e amplia ainda mais a tendência; quem ainda não sabia da aplicação, fica a saber. Não dá para dizer com certeza como é que a “moda” do FaceApp começou, mas terá sido como descrevemos.

Acontece que agora, depois de casos como o do Cambridge Analytica em 2018 nos terem alertado para o perigo de dar os nossos dados assim sem mais nem menos, a imprensa não se limitou a falar do viral, alertando para os perigos de usar uma aplicação de autores semi-desconhecidos assim de forma leviana. Uma pesquisa rápida na web permite encontrar uma série de artigos nos principais órgãos nacionais que alertam para a recolha de dados pessoais de quem usa o FaceApp para a “foto da moda”.

Nada de novo

Mas se esse alerta é importante, convém não darmos uma de “descobrimos que as apps têm termos e condições pela primeira vez em 2019”. No fundo, é preciso termos consciência de que de uma forma geral “não há almoços grátis” e que, por isso, quando algo é gratuito e também divertido, temos de proceder com cuidado. Quase sempre esse tipo de aplicações recolhe informação sobre nós, muitas vezes para treinar algoritmos de inteligência artificial. Convém informarmo-nos antes de instalar uma app que não conhecemos sobre a mesma no seu site oficial, fazer uma pesquisa na web e/ou eventualmente lermos os ‘termos e condições’.

Artista imprimiu os termos e condições que provavelmente nunca leste

O FaceApp não é caso único. Facebook, Instagram, Twitter, Google (e todos os seus serviços…), LinkedIn, Snapchat, WhatsApp… praticamente todos os serviços online que usamos recolhem dados pessoais dos seus utilizadores, para fins comerciais, para objectivos estatísticos, ou para ambos. No Instagram e Snapchat, por exemplo, existem máscaras faciais semelhantes às do FaceApp. O Facebook tem tecnologia de reconhecimento facial no seu site, para, por exemplo, notificar um utilizador quando alguém carrega uma foto sua ou detectar uma conta fraudulenta a querer fazer-se passar por alguém. Além disso, como lembrava um especialista num artigo de 2017, a partir do momento em que temos as nossas fotografias online, incorremos em riscos de privacidade semelhantes aos de poderemos correr usando o FaceApp – até porque outras pessoas podem utilizar as nossas fotos em aplicações que desconhecemos.

A avaliar pela análise das ‘letrinhas pequeninas’, o FaceApp não é diferente de tantas outras aplicações que recolhem dados pessoais e que aplicam políticas de privacidade subtis, que protegem mais os seus negócios – em amadurecimento – que os utilizadores. Certos pontos apontados agora pelas notícias são prática comum mesmo em websites, como o registo de visitas, página de entrada/saída, etc. Acima de tudo, é preciso procedermos sempre com precaução na web e, se quisermos utilizar uma destas aplicações pelos resultados práticos que nos dá, temos de estar conscientes de que estamos “por nossa conta e risco”. Convém termos também alerta de que pode haver coisas que as aplicações fazem e não nos dizem, como foi o caso igualmente alarmante mas menos divulgado envolvendo uma empresa norte-americana.

Treinaram reconhecimento facial com as fotos que os utilizadores carregavam

Ai, os russos…

Uma coisa é certa: não deve ser pelo FaceApp ter origem russa que deveremos ter receio. Não podemos embarcar cegamente numa espécie de russofobia, nem que seja porque há claro um domínio da internet que interessa aos EUA manter (todas as tecnológicas que mencionámos antes neste artigo são americanas). A narrativa norte-americana, como a de outros países, é enviesada. Que tem a Rússia? E porque não os mesmos receios em relação a serviços made in EUA? Consultar os termos e condições das aplicações em que partilhamos informação deve ser um hábito.

Em 2016, uma aplicação russa chamada Prisma tornou populares os filtros artísticos, permitindo dar a fotografias banais captadas com o telemóvel um estilo cubista ou de ‘ Art Nouveau‘. Nos EUA, o Facebook copiou pouco depois estes filtros e trouxe-os para o seu ecossistema. O FaceApp foi criado em 2017 por uma empresa chamada Wireless Lab, cujo CEO é Yaroslav Goncharov, ex-funcionário da Yandex, uma espécie de “Google russa”. Numa entrevista em 2017, Yaroslav garantiu ao The Verge que as imagens são guardadas nos servidores da empresa para poupar largura de banda quando um utilizador decide aplicar diferentes filtros à mesma imagem, mas que são apagadas pouco tempo depois, referindo na altura referindo que a app recolhia tantos dados como outras aplicações semelhantes.