Os líderes mais poderosos do mundo entram num bar…

OK, é certo que o G20 não se passa num bar mas, se se passasse, este bem podia ser o título para ilustrar o seu encontro.

Foto de Alan Santos/Palácio do Planalto via Flickr

OK, é certo que o G20 não se passa num bar mas, se se passasse, este bem podia ser o título para ilustrar o seu encontro. O G20 reúne desde 1999 os 20 principais líderes do mundo e a quantidade de histórias que de lá resultam justificariam perfeitamente a utilização da expressão que inicia centenas de anedotas do património nacional. Também é certo que o que por lá se passa, num olhar objectivo, tem pouca graça mas podemos concordar que a política internacional por estes dias anda especialmente criativa. A prova disso é que as histórias sobre o G20 começaram ainda antes do G20, tal não era a agenda dos acontecimentos.

Comitiva de Bolsonaro transportava 39 kg de cocaína

Foi a caminho de Osaka, onde este ano se realizava a reunião magna dos principais líderes mundiais, que de um dos aviões da comitiva em que seguia Jair Messias Bolsonaro foram apreendidos 39 kg de cocaína. A droga estava na posse de um dos militares de reserva que acompanhava o Presidente brasileiro num outro voo e foi detectada em Sevilha, pelo controlo de bagagem. O voo em questão faria escala em Sevilha para garantir prontidão em caso de necessidade de acção em Lisboa, onde Bolsonaro pararia. O caso pode não ter relações directas com o Presidente brasileiro mas mancha a viagem para um dos encontros mais mediáticos a nível mundial.

Putin

Um dos grandes atrativos destes encontros é, tal como todos os reencontros em grupo, a possibilidade de mesmo quem não se dá, ter de se encontrar. No G20 isso é mais do que tradição, é obrigação e um dos objectivos do encontro; com tantos reunidos num espaço tão pequeno sucedem-se as reuniões atrás de reuniões entre Primeiros-Ministros consagrados. Putin é sempre um dos mais requisitados e de que nos chegam notícias. O seu encontro com Trump foi um dos pontos fortes da agenda e pareceu uma verdadeira anedota – o Presidente norte-americano mandou bocas aos jornalistas e ainda disse a Putin para ‘não interferir nas eleições norte-americanas’ em tom notoriamente irónico. Já no encontro com Theresa May, a toada foi outra com a cara cerrada da (ainda) Primeira-Ministra britânica a ficar como ícone do momento, apesar de o assunto ter passado pelo mesmo: May avisou Putin de que as relações entre o resto do mundo e a Rússia dependem de que esta pare de usar a sua capacidade para condicionar e influenciar eleições.

Todavia, apesar dos encontros sonantes, foi a solo que Putin deixou a principal marca neste congresso, dizendo algo que facilmente se adivinha do seu ideário. Putin diz que a ‘ideia liberal’ está obsoleta, afirmando que os valores consagrados no pós-guerra de respeito pelas democracias, os direitos humanos e o multiculturalismo estão ultrapassados. Para demonstrar o seu ponto, criticou Merkel por ter permitido a entrada de refugiados sírios no seu país e elogiou Trump pela construção do muro — nada de novo, portanto.

Pequeno-almoço saudita

No último G20, as imagens do desprezo ao Presidente saudita Bin Salman foram um dos principais materiais para meme na ressaca do certame. Desta vez, e num encontro marcado pelas recentes revelações das Nações Unidas que pedem que MBS (como é conhecido) seja investigado pela ligação à morte do jornalista Kashoggi, as relações foram diferentes. Trump e Bin Salman protagonizaram mais um momento peculiar, reunindo-se à mesa do pequeno-almoço e ignorando o assunto indigesto que os liga – para todos os efeitos Kashoggi é cidadão norte-americano. Trump preferiu elogiar o seu congénere saudita, dar-lhes os parabéns por a sua liderança ser ‘como uma revolução, no sentido positivo’, por ter consagrado o direito à condução das mulheres e ajudar no combate aos terroristas; ignorou, para além da morte de Kashoggi, as perseguições constantes a dissidentes políticos, mulheres activistas, intelectuais e outros que tentam fazer da Arábia Saudita um país plural.

Foto de Alan Santos/Palácio do Planalto via Flickr

No fundo, como escreve o New York Times, Trump deu um sinal claro de que se importa mais com a amizade dos sauditas do que com a morte de Kashoggi, algo que tem de ser lido no contexto de política internacional onde outros casos, como o de Skrippal ou o do abate do drone, fizeram escalar tensões políticas e retórica belicista.

Trump e os negócios da China

Outro dos temas que já se adivinhava que iria acabar por marcar o G20 era a famosa trade war entre China e Estados Unidos. Com Donald Trump à frente dos comandos norte-americanos a imprevisibilidade tem um sido uns ditâmes e neste caso não foi exceção. Antes de chegar ao summit, Trump mandou farpas a alguns dos aliados dos EUA, como o Japão, a Alemanha e a India, aproveitando para se posicionar politicamente à entrada para as reuniões que viria a ter — por exemplo, horas antes de reunir com Shinzō Abe, Primeiro-Ministro do Japão, Trump queixou-se de que se os Estados Unidos entrassem em conflicto, os japoneses ficariam a ver tudo na sua televisão Sony, numa afirmação que se pode perceber como exigente de uma postura mais participativa dos nipónicos.

De volta ao G20, Trump e Xi Jinping acordaram reiniciar as conversações e levantar as restrições ao comércio entre empresas dos dois países, depois de sete semanas de guerra aberta financeira que teve como um dos principais feridos a tecnológica chinesa Huawei. Apesar da retoma das conversações, contudo, não se espera que este assunto fique por aqui; é provável que os impostos sobre a importação voltem a atacar de um lado e de outro, e que cada uma das economias se comece a preparar para esse cenário – reforçando a sua capacidade interna. Por exemplo, depois do susto é bem provável que a Huawei acelere o desenvolvimento de componentes e software em solo chinês para que possa garantir a sua sobrevivência sem mácula, mesmo que não possa negociar com empresas norte-americanas; outro ponto importante e pouco falado que importa recordar aqui é que a China produz ligas metálicas raras no mundo e fundamentais para a defesa norte-americanano fundo, são pormenores como este que marcam avanços e recuos numa relação entre inimigos simbióticos.

Não há acordo sobre o Planeta Terra

Outros dos pontos fundamentais em debate no G20 era o estado do Planeta Terra, ou não estivéssemos nós num momento de crise climática. Apesar da importância do tema, sobre isto não há muito a dizer. Os grandes líderes continuam a empurrar o assunto com a barriga, literalmente. Os Estados Unidos reiteraram que não querem voltar ao Acordo de Paris e aos restantes não restaram muitas opções se não encolher os ombros e repetir as promessas. Não houve medidas ou acordos concretos nesta disciplina, apenas se ouviu mais do mesmo pela voz de Shinzo Abe que garantiu que todos os líderes partilham a ideia de que temos de fazer algo por um mundo melhor – a questão aqui é: melhor como?

Foto de Alan Santos/Palácio do Planalto via Flickr

Outras novas

Também a União Europeia aproveitou o encontro para fazer novos parceiros; o acordo entre a UE e o Mercosur – organização intergovernamental composta por Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai – chegou a bom porto depois de décadas de negociações e Macron foi um dos porta-voz desse momento, dizendo que o acordo de Livre Comércio corresponde às exigências francesas. Também com o Vietnam, num encontro lateral celebrado um dia depois, a UE celebrou um acordo de livre-comércio que levou Junker a assinalar que durante o seu mandato celebrou 15 do mesmo género.

Depois do G20 em Osaka, Trump aproveitou para dar uma volta nas proximidades e ser mais uma vez imprevisível. Desta feita, tornou-se no primeiro Presidente norte-americano a pisar o solo da Coreia do Norte. Trump seguiu do Japão para a vizinha e sua aliada Coreia do Sul, seguindo até à famosa Zona Desmilitarizada entre as duas coreias onde se reuniu com Kim Jong-Un com quem acordou voltar às negociações de forma a evitar confrontos.