Porque aderimos a esta greve às redes sociais?

Por respeito para com o público, por esperança, se quisermos, num espaço digital, mais rico e intelectualmente nutritivo, rejeitemos em conjunto toda a fast food mediática e recusemo-nos a ser seus produtores, a ser cúmplices de modelos de negócio nefastos.

No princípio desta semana Larry Sanger, filósofo, co-fundador da Wikipédia, lançou a Declaração da Independência Digital e apelou a todos os internautas que durante os dias 4 e 5 de Julho boicotassem as redes sociais, deixando de as utilizar ou utilizando-as com uma postura subversiva para espalhar a mensagem contra as redes. Em nós, equipa de gestão do Shifter, a mensagem não podia fazer mais eco e a adesão à greve não podia ser mais natural — afinal de contas, a declaração de Larry Sanger contemplava muitos dos pontos sobre os quais aqui temos escrito e, enquanto medium que vive no online temos uma visão particular do ambiente digital, bem como da sua evolução, que temos por dever partilhar.

Na declaração, Larry apela a uma consciencialização para a necessidade de re-organização do universo digital que não se baseie na venda de informações pessoais ou perfis publicitários dos utilizadores mas antes na melhoria e diferenciação de experiências alavancadas por outros modelos de negócio, focadas em reforçar os direitos humanos – como a privacidade, segurança e a liberdade de expressão – e não em restringi-los em prol do lucro.

“Durante anos aprovámos e até celebrámos empresas enquanto elas lucravam pela nossa comunicação e trabalho sem nos compensar. Mas recentemente foi-se tornando abundantemente claro que uma motivação insensível, secreta, controladora e explorada guia as redes centralizadas da internet e as empresas por trás delas.”

Sanger critica a forma como socialmente fomos aceitando acriticamente as redes sociais e, quase sem nos apercebermos, elas se tornaram exploradoras do espaço público online como se de um colonizador se tratassem. Simulam suprir-nos necessidades enquanto lucram pela exploração dos nossos dados pessoais e do tempo que perdemos em scrolls infinitos e nas 200 vezes que por dia consultamos o nosso telemóvel convencidos da importância de cada notificação. Enquanto isso acumulam-se casos polémicos como o da Cambridge Analytica; sucedem-se as tendências tóxicas para o ambiente social como as fake news, fruto de campanhas de desinformação, os grupos de radicalização e a ingerência internacional em eleições locais; e, por outro lado, degrada-se a saúde mental dos utilizadores, vicia-se uma próxima geração e cria-se uma sociedade inteiramente dependente da mediação feita por empresas quase exclusivamente norte-americanas e detidas, também quase exclusivamente, pelo homem-tipo do percentil mais abastado do sistema capitalista.

“Eles requerem a aceitação de termos de utilização do serviço, que são praticamente impossíveis de perceber pelos utilizadores comuns e são objectivamente vagos, para lhes permitir defender legalmente as suas práticas exploradoras.”

“Eles fizeram data-mining em dados sobre o conteúdo e o comportamento dos utilizadores de forma sofisticada e perturbadora, sabendo por vezes mais do que os utilizadores sabem sobre eles próprios; e lucraram com esta informação pessoal que mantiveram secreta.”

Na Declaração da Independência Digital, Larry Sanger, alerta-nos para alguns dos vectores mais tóxicos que se desenvolvem na obscuridade provocada e promovida pelas redes centralizadas; nas entrelinhas é possível percebermos a crítica a um sistema que evolui explorando a ignorância dos seus utilizadores – se pensarmos, muitas das maleitas associadas às redes seriam evitáveis caso os utilizadores conhecessem a fundo as suas dinâmicas, percebessem minimamente os seus algoritmos e estivessem alerta para as suas vulnerabilidades. Em face desta ignorância, o poder fica todo do lado de quem detém e controla as redes, longe da crítica que se torna impossível de articular por quem não percebe ao certo aquilo com que está a lidar, e de quem por deter igual poder se consegue aliar a estas empresas.

Assim, mais do que um simples desincentivo à utilização destas plataformas, a greve, ou boicote, às redes sociais deve ser vista como um incentivo a uma utilização racional e calculista das mesmas, quer por parte de utilizadores, quer por parte de empresas. Rejeitar o sensacionalismo e o populismo privilegiado pelas plataformas sociais, que no fundo só procuram gerar interações para manter as pessoas nas suas plataformas, elucidar os demais sobre os malefícios da convivência social mediada por algoritmos, alertar para a superficialização das interações e para a perda de espírito crítico inerente a tudo isto é mais do que uma opção, é um dever para quem vê na internet e no mundo digital um espaço público com um potencial tremendo.

Este exercício nem sempre é fácil, e os seus frutos não são tão imediatos – as redes sociais beneficiam páginas e perfis que perpetuem o seu modelo de negócio, nunca que o questionem – mas é, sem sombra de dúvidas, o caminho certo a seguir, em sentido contrário ao de um mundo centralizado em que a atenção é transformada numa moeda de troca com um valor ínfimo.

Por respeito para com o público, por esperança, se quisermos, num espaço digital, mais rico e intelectualmente nutritivo, rejeitemos em conjunto toda a fast food mediática e recusemo-nos a ser seus produtores, a ser cúmplices de modelos de negócio nefastos. Sem hipocrisias, nem radicalismos, com sensatez, ponderação, rigor e profundidade, fazendo com que cada clique valha a pena e com que cada minuto da experiência digital seja tão compensadora para o detentor do site/propriedade como para o utilizador que dele usufrui.