A história da saída de Jony Ive da Apple torna-se mais clara e completa

Adorado e estimado por Jobs, Jony Ive não terá encontrado na Apple de Cook a mesma filosofia orientada pelo design. Desanimado, saiu.

Jony Ive num vídeo promocional da Apple (screenshot via Apple)

O comunicado da Apple a anunciar a saída de Jony Ive foi lançado na quinta-feira passada e causou algum estrondo no mundo tecnológico. A Apple escrevia que Ive vai sair no final do ano para criar o seu estúdio de design, ressalvando que, “enquanto persegue projectos pessoais, Ive continuará na sua nova empresa a trabalhar com a Apple de perto e numa série de projectos”. A nota prosseguia com uma citação do CEO, Tim Cook: “A Apple vai continuar a beneficiar do talento de Jony trabalhando directamente com ele em projectos exclusivos, e através do trabalho contínuo da equipa de design brilhante e apaixonada que ele construiu.”

Ou seja, enquanto Jony Ive estará a trabalhar no seu novo estúdio de design, chamado LoveFrom, juntamente com outro aclamado designer, Marc Newson, estará também a trabalhar para a Apple, uma vez que a ‘maçã tecnológica’ será um dos seus principais clientes. E a Apple, claro, tentou deixar isso bem expresso no seu comunicado: tecnicamente, Ive sai da Apple mas, na prática, o seu legado permanece na empresa através da equipa que lá orientou e da colaboração pontual em alguns produtos que deverá ocorrer futuramente entre a Apple e a LoveFrom.

A era de Jobs

Podes reconhecer Jony Ive dos vídeos onde fala de novos produtos com aquela sua voz característica, ou da parafernália de memes que foram partilhados por causa desses vídeos. Mas Ive foi muito do que isso. Desde 1992, quando entrou para a Apple, desenhou alguns dos produtos mais icónicos da marca, como o primeiro iMac em 1998, o iPod em 2001, o primeiro iPhone em 2007 ou o Apple Watch em 2015. Ive não trabalhou apenas em hardware, também deu cor e forma a software, nomeadamente o icónico redesign do iOS em 2013 (iOS 7); concebeu o Apple Park, a actual sede da Apple em forma de “nave espacial”, e definiu o aspecto das lojas da tecnológica. Os desenhos de Ive têm por base filosofias como “a forma acompanha a função” e “menos é mais”. No documentário Objectified (2009) , o conceituado designer industrial alemão Dieter Rams diz que a Apple é das poucas empresas existentes hoje que projectam produtos de acordo com os seus dez princípios de bom design – um elogio evidente ao trabalho de designer da maçã que muitas vezes é acusado de copiar o icónico Rams e os seus designs para a marca Braun.

O primeiro iPhone, páginas do livro Design by Apple in California, editado em 2016 (imagem via Apple)

Até agora no cargo de Director de Design, Ive chegou à Apple em 1992; não teve um início fácil na empresa e esteve mesmo para desistir (leia-se: demitir-se) algumas vezes. Foi o apoio de Steve Jobs, que regressou à Apple em 1997 e que viu talento em Ive, fez com que o designer londrino se mantivesse por perto. Juntos, começaram a desenvolver uma relação mais pessoal e a colaborar estreitamente em alguns produtos de hardware. Ive subiu, então, na Apple; foi-lhe dado o cargo de Vice-Presidente Sénior de Design Industrial, passou a liderar a sua equipa de design, recebeu um escritório próprio, com uma ligação directa ao escritório de Jobs, e um salário chorudo, claro. O falecido CEO da Apple disse ao seu biógrafo, Walter Isaacson: “Ele não é apenas um designer. É por isso que trabalha directamente para mim. Ele tem mais poder operacional que qualquer outra pessoa na Apple excepto eu.”

Ive e Cook juntos no lançamento da nova linha de iPhones, em Setembro de 2018 (foto via Apple)

A era de Cook

Mas Tim Cook não pensará da mesma forma. Uma peça do Wall Street Journal (WSJ) publicada esta semana e outra da Bloomberg que saiu na semana passada, perto do comunicado da Apple, pintam uma empresa que outrora colocava o design em primeiro lugar em tudo mas que agora está cada vez mais preocupada com o lado operacional do negócio. Os artigos falam em frustração de Ive e da sua equipa, que terá começado a seguir ao lançamento do Apple Watch; alguns membros centrais dessa equipa desertaram da empresa nos últimos anos.

De acordo com o WSJ, Jony Ive sentiu-se “desanimado” com Tim Cook, um homem operacional, por “mostrar pouco interesse no processo de desenvolvimento de produto”. O jornal relata ainda desentendimentos de Ive com “alguns líderes da Apple” em relação ao Apple Watch – Ive queria posicioná-lo como um acessório de moda e não como uma extensão do iPhone, e o produto que chegou ao mercado terá sido um compromisso entre as duas partes; o WSJ avança ainda que a Apple só vendeu um quarto dos relógios que tinha previsto vender no primeiro ano e que “milhares” da versão dourada, de 17 mil dólares, ficaram por vender. Numa entrevista à New Yorker em Fevereiro de 2015, Jony Ive disse na altura estar “profundamente, profundamente cansado” e que o lançamento do Watch foi “o mais difícil” desde que se juntou á Apple.

Depois do lançamento do relógio, Jony Ive passou a Director de Design (ou ‘Chief Design Officer’ na terminologia inglesa) e afastou-se de algumas responsabilidades; o acompanhamento diário da equipa de design da Apple passou para as mãos de um par de executivos, Alan Dye e Richard Howarth. Ive passou a aparecer na sede da Apple apenas duas vezes por semana, como conta a Bloomberg. Jony Ive voltou a pegar na equipa no final de 2017, re-assumindo algumas das tarefas de liderança que antes tinha; mas nos últimos anos, as aparições públicas de Ive – já por si um homem discreto e de poucas entrevistas – foram muito poucas; os vídeos nos quais antes estava constantemente a aparecer para explicar os produtos passaram a ser produzidos só com a sua voz e assinatura (o vídeo mais recente foi a apresentar o novo Mac Pro).

E agora?

A Bloomberg coloca a saída de Jony Ive e de outros elementos da equipa de design como o “anúncio de uma nova era”: “Os dias em que a Apple poderia entregar de forma confiável uma nova categoria de produto – um económico leitor de música, um lustroso tablet, um elegante smartphone – foram diminuindo com o passar dos anos. A empresa concentrou-se mais recentemente em iterações à sua linha existente. Agora, a empresa precisa de outro sucesso, mas este exigirá inovação tecnológica fundamental, não apenas a genialidade de Ive e da sua equipa em termos de design.”

Com a saída de Jony Ive, o design da Apple ficará à responsabilidade de Evans Hankey, Vice-Presidente de Design Industrial, e de Alan Dye, Vice-Presidente de Design de Interfaces Humanas, que irão reportar ao Director de Operações, Jeff Williams – que, de acordo com a Apple, “liderou o desenvolvimento do Apple Watch desde o início e passará mais tempo a trabalhar com a equipa de design no seu estúdio”.

Acarinhado por uns, controverso para outros, Jony Ive sai da Apple a deixar o mundo da tecnologia a preocupar-se com design, mas a deixar também um legado de produtos irreparáveis. Mas, afinal, quando vale um Jony Ive? A avaliar pelo mercado, 9 mil milhões de dólares, 1,4% do valor da Apple — esta foi a queda na valorização da Apple horas depois do anúncio da sua saída