Onde e como está Assange? Novidades num caso com tanto de político como de judicial

O simbolismo da prisão de Assange faz com que seja, mais do que um simples preso, uma person of interest num complexo xadrez político e social transversal a quase todo o mundo.

Um protesto em defesa de Assange em 2010, em Amesterdão (foto de Carolina Georgatou via Flickr, CC BY-ND 2.0)

Passaram-se mais de dois meses desde que Julian Assange foi preso pelas autoridades britânicas numa operação de especial complexidade, enquanto ainda se encontrava na embaixada do Equador, em Londres; desde então, pouco ou nada se tem sabido sobre o australiano. As possibilidades são poucas e as dúvidas recaem, por um lado sobre a sua condição física e mental e, por outro, sobre o que lhe sucederá nas mãos da justiça britânica.

Em relação a esse último ponto, existem duas fortes possibilidades que agora são ecoadas, contraditoriamente, por Alan Duncan,  Ministro de Estado para Europa e Américas britânico, agora demissionário, e Mike Pompeo, Secretário de Estado dos EUA.

As primeiras notícias, da semana passada, davam conta da primeira das hipóteses: Duncan reafirmava perante a imprensa o acordo estabelecido entre as autoridades do Reino Unido e o Estado equatoriano, que havia estabelecido como condição para a prisão de Assange que este não fosse extraditado para um país onde arriscasse pena de morte. Esta semana surgiram declarações de Pompeo, que ouvido pelo jornal equatoriano El Universo apontou a direcção contrária, dando garantias de que o processo de extradição de Assange estaria em progresso.

Numa afirmação que pode ter tanto de certo, como de simbólica ou premonitória, Pompeo revelou a sua convicção de que o certo seria Assange enfrentar a justiça norte-americana, justificando essa posição com o alegado dano provocado pelas revelações do hacker no portal Wikileaks. Os Estados Unidos acusam Assange de espionagem, enquanto Julian se defende aludindo à liberdade de imprensa que lhe é conferido pelo estatuto de jornalista — em causa estão os milhares de documentos disponibilizados pela Wikileaks, nos quais foram reveladas informações secretas sobre as acções do exército norte-americano em teatro de guerra, nomeadamente as práticas de tortura no Afeganistão.

Como está Assange?

O simbolismo da prisão de Assange faz com que seja, mais do que um simples preso, uma person of interest num complexo xadrez político e social transversal a quase todo o mundo. A sua prisão e possibilidade de extradição são tanto um caso de justiça como um caso político, numa zona cinzenta onde as leis mal chegam e a política interfere.

Nesse sentido, várias tem sido as personalidades públicas, individuais e em representação institucional, que têm falado sobre ou com Assange. Pamela Anderson, Ai Weiwei e Nils Melzer, Relator Especial das Nações Unidas para a Tortura, foram alguns dos nomes que por lá passaram fazendo chegar mensagens até ao exterior. Anderson e Weiwei revelaram que a saúde de Assange se tem deteriorado ao longo da prisão e que o homem de apenas 47 anos está visivelmente abatido; por seu turno, Nils Melzer, criticou o grupo de estados democráticos interessados no processo por se juntarem “em gang” para isolar e demonizar Julian Assange. Melzer acrescentou ainda, ao comunicado prestado após a visita, as suas preocupações em caso e extradição; o relator das Nações Unidas teme que caso isso suceda não sejam respeitados direitos básicos como o da liberdade de expressão ou do direito a um julgamento justo e imparcial.

Segundo o mesmo comunicado, o estado de saúde de Assange é tão débil que não lhe permite sequer estar presente em videoconferência nas audições a que tem sido sujeito; já nesta questão, Melzer voltou a sublinhar a necessidade e direito a um julgamento justo e uma defesa consolidada de todos os arguidos, mostrando-se preocupado com o pouco tempo que Julian e os seus advogados têm para acertar estratégias de defesa. Caso seja extraditado para os EUA, Assange arrisca uma pena de prisão de até 175 anos, que pode valer-lhe a prisão perpétua ou até a pena de morte.

As novas acusações

Fora do olhar de Assange, há mais de dois meses numa prisão britânica e a cumprir pena de um ano por não ter pago a fiança da sua primeira, prosseguem as investigações (judiciais e jornalísticas) sobre a sua ligação ao Kremlin. Depois de o jornalista Luke Harding ter lançado a suspeita de ligações de Assange a Trump, num artigo do The Guardian publicado há vários meses, recentemente foi a vez de a CNN afirmar que tem em sua posse informações que confirmam a ligação entre o hacker australiano e a inteligência russa.

A CNN, canal norte-americano, baseia as suas notícias num relatório pedido pelas autoridades equatorianas a uma empresa privada de segurança, a espanhola UC Global. Em causa estão, alegadas, sucessivas reuniões de várias horas com “hackers de classe-mundial” que terão ido até à embaixada equatoriana levar até Assange documentos secretos. Para além disso, o relatório dá conta ainda de que Assange terá comprado aparelho informático que lhe garantisse melhor ligação à internet para, alegadamente, ter capacidade de gerir as publicações no portal Wikileaks.

O relatório agora obtido pela CNN reporta aos sete anos que Julian Assange passou confinado à embaixada equatoriana sob a vigilância simultânea de três empresas de segurança; em foco está, sobretudo, a altura anterior às eleições que levaram Trump ao poder. Depois de três anos de investigações e de Robert Mueller lançar suspeita sobre alegadas influências russas ao trabalho de Assange, surgem agora estas notícias sobre visitas misteriosas e encontros às escondidas, mesmo na embaixada – a CNN falava da utilização da casa-de-banho feminina onde não existia câmara de vigilância e do recurso a geradores de ruído para evitar a captação de áudio.

No mês de Junho de 2016, altura em que foram libertados publicamente e-mails que denunciavam o favorecimento de Clinton no seio do Partido Democrata e que valeram a demissão da Secretária-Geral do partido, Debbie Wasserman Schultz, Assange terá recebido o dobro das visitas dos meses posteriores, pelo que se suspeita da possibilidade de entre estas figurarem os responsáveis pelo roubo do material — segundo suspeitas dos EUA, hackers que actuam sobre os heterónimos Guccifer 2.0 e DCLeaks e que podem ter ligações à inteligência russa. É sobre esse período que se procuram evidências e sobre ele que Assange garante e reitera a sua inocência, dizendo que teria publicado material sobre Trump caso tivesse tido acesso e que os documentos obtidos sobre o Partido Democrata não vieram de nenhuma fonte institucional ou com ligações a um Estado.

Também o segundo pacote de e-mails sobre o Partido Democrata, roubado da caixa de John Podesta, está a ser investigado. Segundo a CNN, a presença do conceituado hacker alemão Müller-Maguhn na embaixada com Assange, ajudando-o a instalar novos cabos de rede, pode ser visto como um indício da acção do australiano na revelação que ocorrera mais tarde, a 3 de Outubro. Müller-Maguhn é um dos membros fundadores do Chaos Computer Club, um conceituado evento que junta hackers todos os anos na Alemanha, e amigo próximo de Assange.

Foi em reação a estes acontecimentos e depois de fontes do Governo dos EUA terem ameaçado a administração do Equador de sofrer consequências por permitir a Assange gerir as publicações — embora nessa altura ainda não houvesse provas ou sequer investigação — que, no dia 15 de Outubro de 2016, a ligação do australiano à internet foi completamente cortada, assim permanecendo até depois das eleições, já em 2017. A CNN acrescenta à sua peça imagens captadas pelas câmaras de vigilância nesse período e que mostram homens a carregar caixas tapadas e com as caras sob disfarce.

Este é mais um capítulo de uma história que promete mais desenvolvimentos, todos eles difíceis de contextualizar e analisar. Uma daquelas narrativas para que Umberto Eco pede cepticismo perante uma acção com consequências políticas tão assinaláveis. As próximas semanas deverão responder à questão ‘para onde vai Assange’, sobre a sua extradição ou não para os Estados Unidos, mas quanto ao desígnio final, por que será ou não julgado, esse deverá demorar mais tempo num caso que ficará, com certeza, para sempre na história como um dos julgamentos mais politizados da história recente da humanidade.