Quando pré-reservas uma musica no Spotify, há quem reserve informação sobre ti

De acordo com uma investigação do jornalista Micah Singleton, da Billboard, o Spotify permite que as editoras recolham informação pessoal desnecessária dos utilizadores da plataforma quando estes aderem às campanhas de ‘pre-save’ das editoras.

Foto de Sara Kurfess via Unsplash

Não há dúvidas de que o Spotify revolucionou a industria musical pós-iTunes e gerou novos hábitos de consumo online, com repercussões offline. Mas “quando a esmola é muita o povo, deve desconfiar”; ou seja: quando a música parece de borla, algo havemos de estar a pagar.

Podemos entrar pelo caminho de que uma assinatura de Spotify significa que estamos a alugar música e que, se o serviço desaparecer ou determinado disco deixar de estar disponível na plataforma, lá se vai a biblioteca que julgávamos nossa. Mas o caminho deste artigo é outro: ao usarmos o Spotify não só estamos a dar uma panóplia de dados à empresa sueca, como podemos estar a dá-los às grandes editoras. Sem darmos conta.

As editoras podem, desde 2017, criar campanhas de ‘pre-save’ no Spotify, que são, no fundo, a “versão streaming” das iniciativas ‘pre-order’ a que nos habituámos a ver em lojas estilo iTunes. Fazendo ‘pre-save’ do novo single de um artista, um utilizador vai poder encontrar essa música, mal ela saia, adicionada à sua biblioteca pessoal no Spotify. Assim, pode ser dos primeiros a ouvi-la e, para as editoras, isso pode impulsionar as audições da faixa na primeira semana, levando-a aos tops. Mas em jogo está bem mais que burburinho em torno de novos lançamentos.

De acordo com uma investigação do jornalista Micah Singleton, da Billboard, o Spotify permite que as editoras recolham informação pessoal desnecessária dos utilizadores da plataforma quando estes aderem às campanhas de ‘pre-save’. Antes de avançarmos no artigo, é preciso clarificar que o ‘pre-save’ é uma opção que está disponível para as editoras através da API do Spotify, não é uma funcionalidade da aplicação do Spotify; ou seja, as editoras desenvolvem pequenas apps externas que integram com o Spotify e nas quais incluem o botão ‘pre-save’.

Imagem via Billboard

A peça da Billboard mostra um exemplo de uma dessas aplicações criadas pela Sony Music Entertainment e que pede acesso ao endereço de e-mail dos utilizadores, àquilo que ouviram e guardaram na biblioteca, às playlists que criaram ou subscreveram, aos artistas que seguem e ao que estão a ouvir naquele momento. Pede também autorização para poder alterar quem o utilizar segue, adicionar ou remover músicas da sua biblioteca, criar, editar ou seguir playlists e inclusive controlar os outros dispositivos onde o utilizador ouve Spotify. Aplicações da Warner Music Group e da Universal Music de ‘pre-save’ fazem pedidos semelhantes.

Imagem via Billboard

As editoras não pedem, através das respectivas apps, sempre as mesmas permissões; varia de campanha para campanha mas, de um modo geral, pedem 10 permissões a mais, conforme comprovou a Billboard. Para um utilizador ‘pré-guardar’ um single no seu Spotify, em boa verdade a app da editora apenas precisa de autorização para adicionar músicas à biblioteca do ouvinte. A Billboard diz que não são apenas as grandes editoras a pedir informação excessiva – também artistas independentes o fazem, por exemplo, em conjunto com empresas de marketing digital.

Apesar de os utilizadores verem uma janela das permissões que determinada app pede antes de darem autorização a essa app, o Spotify podia ser mais cauteloso em relação aos dados que terceiros podem obter dos assinantes do seu serviço, bem como ao que podem fazer com eles. Como relembra o TechCrunch, em 2018, o caso da Cambridge Analytica e do Facebook teve tudo a ver com terceiros conseguirem recolher dados pessoais de utilizadores através de APIs e de aplicações desenvolvidas com essas APIs.

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Segundo a Billboard, outros serviços de streaming de música, como o Apple Music, não partilham com ninguém qualquer informação pessoal dos seus subscritores; uma política que está em linha com a abordagem à privacidade que a Apple aplica em todos os seus produtos.