Streaming gratuito é maior ameaça que a pirataria? Em Itália diz-se que sim

Se é verdade que o tráfego em sites de pirataria ou mesmo em conversores de vídeo de YouTube para MP3 desceu significativamente, as ameaças à justa remuneração dos artistas permaneceram intactas.

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Mudam-se os tempos, mudam-se os hábitos. Esta é uma verdade quase absoluta e que, nos últimos anos, tem tido na internet o principal espaço da sua afirmação. As mudanças tecnológicas têm sido tantas e tão rápidas que os nossos hábitos vão andando à sua mercê, sem um pensamento crítico que realmente corrobore o valor e a validade daquilo para que mudamos.

Se no início deste milénio, os sites e serviços de pirataria ainda eram uma das formas primordiais para o utilizador médio da internet ouvir música e manter a sua biblioteca actualizada, na última década o chamado streaming operou uma revolução profunda, que, regra geral, todos acreditariam que pusesse fim ao problema da monetização dos artistas.

Assim, Spotify, Deezer ou Apple Music (não necessariamente ao mesmo tempo) foram ganhando força, oferecendo aos seus utilizadores um serviço de audição de música acessível e praticamente ilimitado, com o aval da indústria musical, que via na sua existência uma alternativa viável e legal ao mundo da pirataria. Contudo, os dados mais recentes recolhidos pela FIMI, federação industrial italiana responsável pela gestão de direitos e artistas, que tem associados como a Universal, Sony Music, Warner ou BMG, mostram que a questão pode não ser assim tão simples como se tinha pensado.

Em declarações ao site TorrentFreak, o responsável pela FIMI, Enzo Mazza, começou por congratular a Autorità per le Garanzie nelle Comunicazioni (AGCOM) pelos bons resultados no combate à pirataria através do bloqueio de domínios, semelhante ao que se faz em Portugal, para numa segunda fase revelar que a verdadeira dimensão do problema não ter sido resolvida.

Se é verdade que o tráfego em sites de pirataria ou mesmo em conversores de vídeo de YouTube para MP3 desceu significativamente, as ameaças à justa remuneração dos artistas permaneceram intactas. Apesar de praticamente oferecerem catálogos infinitos de música, os serviços de streaming têm nas suas opções premium os seus produtos de referência e o reflexo disso chega a sentir-se mesmo na remuneração dos artistas; a audição de um utilizador premium é mais valiosa que a de um utilizador. Assim, e perante exemplos como o de Itália, em que se estima que 90% das pessoas recorram a modalidades gratuitas para ouvir música, percebe-se onde se situa o problema.

Para Enzo Mazza, é preciso percebermos os traços culturais de cada país; sobre Itália diz-nos que é um país onde a cultura do gratuito está muito disseminada sendo difícil consciencializar as pessoas para modelos de subscrição.

Estas afirmações demonstram a dificuldade de mudar um paradigma online. Mesmo que os esforços por erradicar a pirataria tenham sido eficientes a cumprir o seu propósito, a política “proibicionista” foi incapaz de gerar uma solução verdadeiramente alternativa ou uma mudança cultural entre os ouvintes de música. Assim, os utilizadores não procuraram uma solução focados em remunerar os artistas ou conscientes de que a pirataria, para além de ser ilegal, pode ser vista como uma forma de desconsideração pelo artista; simplesmente procuraram uma forma legal de dar continuidade à sua prática de audição em modo gratuito que a avaliar pelas notícias, veio para ficar.

Actualização, 26/07/2019 às 18:52: Acrescentada nota sobre composição da federação FIMI.