O que levavas para uma ilha? O Walk&Talk leva o melhor da arte contemporânea

Festival decorre no próximo fim-de-semana na ilha de São Miguel.

Instalação de Teresa Braula Reis - Walk & Talk 2017

Se tivéssemos de começar por resumir o Walk&Talk numa ideia que qualquer pessoa conseguisse perceber e recorrêssemos para isso à tradição oral portuguesa, facilmente nos lembraríamos do famoso ‘água mole em pedra dura tanto bate até que fura’; o festival que se realiza numa ilha de origem vulcânica e paisagem rochosa, no meio da imensidão do oceano atlântico, onde não se passa (quase) nada, tornou-se numa referência no mapeamento da arte contemporânea em Portugal, provando que com persistência e consistência se deixa marca em qualquer espaço.

Tudo começou em 2011 – já lá vão nove edições em oito anos – e desde então que pela ilha de São Miguel passaram mais de duas centenas de artistas de várias partes do mundo e ascendências disciplinares para se sujeitaram ao desafio de criar ou expôr num local único e, de certa forma, alternativo, fora do circuito urbano e da normativização estética das cidades e das suas infraestruturas expositivas como museus e galerias. Dividido em dois circuitos, o Walk&Talk cria no espaço público – em certos casos quase selvagem – momentos artísticos inusitados, e no universo social da ilha momentos de partilha e intercâmbio entre as diversas culturas dos que por ali passam. Chamam-lhes ‘Circuitos’ da Ilha e das Exposições, respectivamente, mas ao contrário do significaria chamar-lhes ‘paralelos’, são linhas divisórias que se tocam e cruzam propositadamente – num espaço onde a natureza predomina, procura promover-se a naturalidade dos cruzamentos entre diversos universos.

O Circuito de Exposições é este ano, pela primeira vez, organizado com o curador convidado Sérgio Fazenda Rodrigues, enquanto que a programação do Circuito Ilha (anterior “Circuito de Arte Pública”) ficou a cargo do colectivo de curadores The Decorators. A intersecção dos circuitos volta a ser o Largo de São João, em Ponta Delgada, onde se instalará temporariamente o Pavilhão do Festival, este ano desenvolvido pelo colectivo Artworks & GA Estudio, em forma de capote açoriano, materializando a mistura de que vamos falando.

Entre os projectos do Circuito Ilha, destaca-se o artista Prem Sahib, que vai desafiar a ideia de identidade definida, de classificação e categorização, convidando as pessoas que se vão cruzar com o seu projecto, instalado entre o centro de Ponta Delgada e duas outras localidades da ilha, a reflectir sobre o que pode ser entendido como queer; a oportunidade de mergulhar, literalmente, na piscina do Parque Terra Nostra para assistir à exibição do filme inédito Mistérios Negros, de Pedro Lino, projectado no parque e musicado com uma performance ao vivo; ou o menu criado pela a artista Inês Neto dos Santos em colaboração com dois chefs dos Açores que será servida sobre uma mesa desenhada pelos The Decorators para o parque das Furnas, onde os participantes da serão convidados a saborear “arte”.

Já o Circuito de Exposições, reúne diversas propostas artísticas, algumas das quais fruto de residências ao longo do último ano, em diversos espaços culturais da ilha como a Torre Sineira, o Museu Carlos Machado, o Instituto Cultural de Ponta Delgada ou o 4º andar do SolMar; entre as escolhas para este ano estão Maria Trabulo, Rita GT, Miguel C. Tavares & José Alberto Gomes, Andreia Santana, Diana Vidrascu, Mónica Miranda e Gonçalo Preto — entrevistado recentemente pelo Shifter.

Para além de tudo isto e a ‘colar’ todas os acontecimentos localizados, o festival contempla uma série de conversas, palestras, concertos e performances de artistas nacionais e internacionais que se aproveita do espírito intimista criado pelo isolamento da ilha para aproximar público, artistas e outros intervenientes no mundo das artes.

O festival é organizado pela associação cultural Anda&Fala, que tendo no festival o seu principal projecto o usa como alavanca para projectos como o Periférica – Brainstorming Culture and Geographies, o RARA – Residência de Artesanato da Região dos Açores e o PARES – Programa de Apoio à Actividade Artística nos Açores, que procuram acentuar a aposta da cultura na região insolar, criando circuitos alternativos sólidos e oportunidades diferenciadas para a promoção da arte.