Lili Hinstin: “O perigo é a ida ao cinema estar a tornar-se um evento”

A nova diretora artística do festival de Locarno falou ao C7nema sobre o papel estético e ético da seleção da 72ª edição e da luta pelo Leopardo de Ouro, que começou nesta quarta-feira, repleto de filmes portugueses

Lili Hinstin / Direitos Reservados Locarno Film Festival

Porção suíça do G7 dos maiores festivais de cinema do mundo (ao lado de Cannes, Veneza, Berlim, Toronto, Roterdão e San Sebastián), Locarno reservou espaço nobre para a Língua Portuguesa na sua 72ª edição, que começou esta quarta-feira e segue até dia 17 de agosto, sob a direção artística da curadora e produtora parisiense Lili Hinstin.

Com atenção redobrada para a ampliação do planisfério de mulheres realizadoras, a seleção montada por Lili – vinda do comando do Cinéma du Réel e do Entrevues Belfort – escolheu como atracção de abertura o drama italiano Magari, da realizadora Ginevra Elkann.

Na seleção competitiva, entram cineastas de prestígio como a dupla búlgara Mina Mileva e Vesela Kazakova (em concurso com Cat in the Wall); a brasileira Maya Da-Rin (com A Febre), os portugueses Pedro Costa (‘popstar’ autoral, com Vitalina Varela), Basil da Cunha (O Fim do Mundo) e João Nicolau (com Technoboss), e o japonês Kôji Fukada, indicado ao evento com Yokogao. Outro dos concorrentes, de origem americana, que saiu cheio de prémios do Festival de Sundance, em janeiro: The Last Black Man in San Francisco, de Joe Talbot, que conta com Danny Glover no elenco.

Existe ainda uma dupla dose de Brasil na seleção de curtas-metragens “Pardi di Domani”, com a animação Carne, de Camila Kater (que traz Helena Ignez no elenco) e Chão de Rua, de Tomás Von Der Osten. Swinguerra, o exercício narrativo de 23 minutos, resultado parceria de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca, está presente na secção “Moving Ahead”.

No grupo das retrospetivas, a seleção de 47 produções ligadas à representação das populações negras, chamada “Shades of Black”, dá espaço para Abolição, de Zózimo Bulbul (1988), para Amor Maldito, de Adélia Sampaio (1984). Relembra ainda o legado de Spike Lee com uma exibição de Do The Right Thing (Não dês Broncapt; Faça a coisa certabr (1989).

O polémico Era uma vez em… Hollywood, de Quentin Tarantino, também terá direito a uma sessão de gala no final. Já a sessão de encerramento será o drama To the End of the Earth, do mestre nipónico do terror: Kiyoshi Kurosawa.

No pacote das celebridades, Joseph Gordon-Levitt, galã romântico, visto em (500) Dias com Summer (2019), vai passar pela cidade suíça para apresentar o thriller 7500, sobre um avião sequestrado por terroristas, realizado por Patrick Vollrath. Já a vencedora de dois Óscares, a actriz Hilary Swank, será a homenageada do ano.

Na entrevista que se segue, Lili falou ao C7nema sobre os potenciais debates que essa leva de filmes pode abrir, ao espelhar dilemas políticos da realidade.

O que é que um evento como Locarno simboliza nestes tempos da cultura do streaming, em que as séries de TV se tornam cada vez mais numa forma de expressão dominante no audiovisual?

Todo o gesto estético é político e a triagem que fizemos para este ano, de diferentes gestos, contempla discussões fundamentais para o mundo hoje, como o combate ao racismo e à misoginia, sem levantar bandeiras. O Leopardo de Ouro é um troféu que celebra a tradição do cinema arthouse, autoral: ele é um emblema de reconhecimento do risco, dado a cineastas que se arriscam na sua liberdade. Existe, nessa cultura das séries, um espaço de peso para a palavra. Estamos a falar de um tipo de dramaturgia bem próxima do que existia na rádio: a expressão pela palavra. É como se fosse, ainda, um eco da literatura. É uma expressão audiovisual palavrosa. Mas isso não quer dizer que todo o cineasta autoral, que filma para o cinema, faça do silêncio o seu veio de expressão. Não se pode opor o cinema de autor à tradição da palavra, do diálogo. Há excelentes filmes de Straub, por exemplo, que são muito falados.

Lili Hinstin / Direitos Reservados Locarno Film Festival

 

Mas existe espaço para o risco nessas narrativas de streaming? O quanto o sucesso delas sinaliza a fragilidade da atividade cinematográfica em circuito? Roma é um exemplo de risco?

De certa forma, um exercício como Roma é um risco muito básico: vai pelo caminho do preto & branco, fala de questões afetivas… Há quem aponte True Detective nesse lugar da renovação da linguagem das séries, pela sua narrativa em flashback. Mas o flashback é um código gramatical antigo no cinema, não é algo novo em termos cinemáticos. Há algo de potente na série Atlanta, com Donald Glover. Atualmente, as pessoas temem que essa narrativa das séries, de TV ou streaming, ameace o futuro do cinema. Mas essa é uma discussão antiga, é um pânico à moda antiga. Não se esqueça de que, nos anos 1960, quando a televisão entrou nas casas de toda a gente, acreditava-se que a TV fosse extinguir a atividade cinematográfica. E, justamente naquela década, vimos surgir uma geração de realizadores que apostou na experimentação. Godard, por exemplo, encontrou na TV um espaço de expressão para sua estética mais experimental. Não foi destruidor para o cinema. Pelo contrário. E vejo isso agora. Há narrativas destes novos tempos que são adequadas para serem consumidas em iPhones, como se a gente consumisse uma narrativa de rádio. Mas quando se pensa em Cinema, sobretudo o de autor, a dimensão agigantada do ecrã ainda faz toda a diferença. E é algo que se celebra em Locarno. O perigo que corremos no cinema agora é outro.

Qual?

O perigo é o facto do cinema estar a tornar-se um “evento”, como aconteceu com a ópera. As pessoas encaram o consumo coletivo do cinema, na sala de exibição, com plateia, como se fosse um evento. O trabalho de um curador e de um programador de festival é entender essa transformação e cultivar a experiência coletiva da surpresa que é ver um filme de autor no grande ecrã, coletivamente.

O que podemos esperar de mais inusitado da seleção deste ano, que valoriza de maneira singular a produção de Portugal?

Surpresa é aquilo que todos os festivais de cinema esperam alcançar. Este ano, sinto que as plateias de Locarno vão-se surpreender com a maneira como as mulheres cineastas falam sobre a sexualidade.

Qual é o gesto estético que justifica a homenagem a uma atriz como Hilary Swank, fora a efeméride óbvia de a actriz estar a completar 30 anos de carreira em 2019?

A trajetória de Hilary é a tradução de sucesso do conceito de liberdade de escolhas no contexto indústria do cinema. Estamos diante de uma actriz que transgrediu todas as amarras normativas de beleza e de condução de carreira em Hollywood, tendo conquistado dois Óscares para si, apesar disso, pelo seu talento. É uma actriz que representa o inconformismo em relação às regras do mercado, optando sempre por filmes que têm impacto socialmente.

Artigo publicado originalmente em C7nema.

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