10 Anos é Muito Tempo: Humbug, a reivenção dos Monkeys

Ao longo dos anos tem passado a impressão que Humbug é o disco dos Monkeys que melhor envelheceu. Afinal de contas, nós também fomos envelhecendo, só que, aparentemente, mais devagar que os AM.

 
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Há dois momentos pouco consensuais na carreira dos Arctic Monkeys (AM). A edição de Tranquility Base Hotel + Casino, de 2018, e a de Humbug, disco que celebra agora uma década. A polarização está obviamente relacionada com a reivenção sonora (e não só) inerente a estes dois momentos.

Tranquility Base Hotel sucede a trilogia de discos americanizados que tem início precisamente com este Humbug. E este Humbug sucede os dois primeiros álbuns super vitaminados e britânicos, muito na linha daquele que é o contexto do arranque de carreira dos Monkeys: miúdos e frenéticos. Recorde-se o concerto de promoção a Favourite Worst Nightmare no Coliseu dos Recreios, em 2007, por exemplo, vertiginoso e com duas dezenas de canções, de “The View From the Afternoon” a “A Certain Romance”. No dia seguinte, algures na internet reclamava-se, no mínimo, por uma “505”, com o objetivo de respirar.

Humbug e a maturidade dos jovens já na casa dos 20 e poucos anos trouxeram essa capacidade aos AM, a da gestão do espectáculo como um conjunto de momentos e não uma só canção. Há um tempo para tudo, embora quase nunca o compreendamos na altura certa, se tivermos o presente como altura certa. Neste caso, a altura fixa-se em 2009 e o disco nem a crítica consegue unir. Pelo menos, da forma unânime como com os dois primeiros títulos. E a culpa da eventual sobrevalorização desses discos era do NME, diziam. Contas feitas, o terceiro disco dos AM parece ter ganho adeptos com o tempo e é essencial para perceber como é que a banda, ao contrário dos conterrâneos contemporâneos, sobreviveram. Referimo-nos aos Franz Ferdinand, Kaiser Chiefs, Bloc Party, Maximo Park e uma data de outros ainda menos fáceis de lembrar.

Humbug é diferente do que tinham feito até aí em tudo. É mais pausado, sim, mas também mais negro e dá início a uma fase mais cerebral da banda. É o momento em que parecem ter consciência que ganharam uma voz e já se podem deixar a timidez de parte e explorar a faceta de heróis, tal como os Strokes o eram para eles em 2005. Heróis da guitarra (basta ouvir e ver “Crying Lightning”), mas também ao vivo: depois de Humbug, Alex Turner começa progressivamente a dar nas vistas nos discursos de vitória, nos espetáculos ao vivo, nas fotos promocionais. A puberdade a que lhes associámos terminou, livraram-se das borbulhas, já podem deixar crescer os cabelos e isso fica melhor a uns do que a outros. A toada mais negra e pausada permite sublinhar ainda mais as letras que antes, por melhores que fossem, pareciam estar ali só para acompanhar a música, essa que era a parte mais importante do som da banda. Aliás, a evolução do som dos AM vai sempre no sentido de dar mais e mais destaque às palavras.

Ao longo dos anos tem passado a impressão que Humbug é o disco dos Monkeys que melhor envelheceu. Afinal de contas, nós também fomos envelhecendo, só que, aparentemente, mais devagar que os AM. É olhar daqui a nove anos para Tranquility Base Hotel.

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