Vitória portuguesa, com certeza, na disputa pelo Leopardo de Ouro: Vitalina Varela e Pedro Costa distinguidos

A premiação foi realizada neste sábado, encerrando o festival, em paralelo à projeção hors-concours do drama japonês To The Ends of The Earth, de Kiyoshi Kurosawa.

Portugal tem mais um Leopardo de Ouro para chamar de seu: 32 anos depois da vitória de O Bobo, de José Álvaro Morais, em Locarno, o festival suíço volta a eleger uma produção de sangue lisboeta para receber seu prémio máximo, agora confiado a um ‘muso’ da autoralidade ibérica, Pedro Costa, e o seu Vitalina Varela.

Encarado como favorito desde que a seleção do evento foi anunciada, em julho, o drama sobre as inquietações existenciais e espirituais do povo das Fontainhas – visto sob a ótica de uma viúva cabo-verdiana que esperou 25 anos para poder renascer na Europa – foi aclamado pela crítica em sua primeira exibição. Vitalina, uma imigrante africana que empresta seu nome real ao título da longa-metragem, foi coroada com o troféu de melhor interpretação feminina pelo júri. Já ontem Vitalina tinha sido premiada pela crítica.

Presidido pela realizadora francesa Catherine Breillat, a equipa de jurados – formado pela cineasta alemã Valeska Grisebach, a produtora holandesa Ilse Hughan, o ator argentino Nahuel Pérez Biscayart, o crítico italiano Emiliano Morreale – consideraou o filme de Costa um acontecimento audiovisual com predicados que vão muito além do que qualquer prémio possa mesurar, sendo digno de pertencer ao Panteão do Cinema.

“O cinema se acanhou com medo de perder. Perda é algo muito próximo do encontro quando se trata de arte: perdemos para descobrir o que não conhecemos. Mas para o mercado, que quantifica ‘Tempo’ e ‘Espaço’, as medidas da descoberta só valem se puderem ser quantificadas, o que não vale para os meus irmãos cabo-verdianos lá das Fontainhas. Eles habitam um limbo sem História, aquela com H maiúsculo, pois aquela cultura na qual se encontram é mediada pelos colonizadores, fabricada pelos brancos que os escravizaram”, disse Costa numa conversa por telefone de 2015, quando ganhou o troféu Calunga de melhor realização no Cine PE, numa época em que editava um livro com suas pesquisas e ideias, chamado 100.000 Cigarros. “O meu cinema rodeia este mundo de loucos atrás de olhos lúcidos.”

Outros premiados

A coroação da língua portuguesa, omnipresente entre os 250 filmes do eventos, estendeu-se, na premiação, ao Brasil, com a vitória de um ameríndio, Regis Myrupu, na corrida pela láurea de melhor ator. Estreante nos ecrãs, foi premiado por seu tocante desempenho em A Febre, de Maya Da-Rin, que segue os passos de um vigia do porto de Manaus, de origem indígena, que entra num estado febril inexplicável ao mesmo tempo em que uma criatura ronda sua região. “Estou muito emocionado com esse prémio. Nós, povos indígenas, estamos a viver um momento muito difícil. Não só nós, mas também a nossa casa, a floresta, está sendo destruída. Então, um indígena recebendo um prémio como esse, mostra a nossa força e capacidade de atuarmos na sociedade não indígena, seja participando de um filme, seja como médicos ou advogados, sem que isso signifique a perda das nossas origens ou o esquecimento da nossa cultura”, afirma Regis em uma declaração compartilhada pela assessoria de imprensa do filme em solo brasileiro.

Vencedor da Palma de Ouro de 2019 com Parasite, que foi exibido em Locarno e vai ter uma exibição de gala em San Sebastián, na Espanha, a Coreia do Sul saiu do festival dos suíços com o Prémio Especial do Júri, confiado a Pa-go (Height of the Wave), de Park Jung-bum. Na trama, uma jovem com medo do mar é abusada pelo povo do vilarejo onde vive.

Egresso da dança, reconhecido no cinema por filmes que dividiram opiniões da crítica como Le Parc (2016), o francês de 38 anos Damien Manivel saiu de Locarno com o troféu de melhor direção por Les enfants d’Isadora. A trama aborda o périplo criativo de quatro bailarinas que recriam uma coreografia de luto de Isadora Duncan. Teve ainda menções honrosas especiais para os longas The Science of Fictions, da Indonésia, e para Maternal, de Maura Delpero, uma coprodução Itália e Argentina.

Texto de Rodrigo Gomes

(Nota: este texto foi originalmente publicado no c7nema, um dos mais antigos sites de informação, opinião e crítica de cinema em Portugal, tendo sido aqui reproduzido com a devida autorização.)