Cigarros electrónicos: alternativa de cessação ou o perigo da ilusão?

A actual polémica em redor dos cigarros electrónicos permite-nos agora chamar a atenção da população em geral para o porquê da introdução destes dispositivos no mercado.

Foto de Ciprian Tudor via Unsplash

Nas últimas semanas têm sido muitas as notícias lançadas sobre a utilização de cigarros electrónicos. Desde Junho deste ano que se tem registado um aumento crescente de doentes nos cuidados de saúde com doenças respiratórias agudas, aparentemente não infecciosas, e com a característica comum dos seus portadores serem utilizadores de cigarros electrónicos. Este facto tem assustado as autoridades de saúde a nível mundial. Os doentes apresentam-se nos cuidados de saúde com sintomas como falta de ar, tosse, dor no peito, cansaço, vómitos, diarreia, perda de peso e febre.

Nos Estados Unidos da América já se registaram 450 casos de doenças pulmonares agudas “potencialmente relacionadas” com a utilização destes dispositivos, seis deles mortais. A FDA (“Food and Drug Administration”), o CDC (“Centers for Disease Control and Prevention”) e as restantes autoridades de saúde já estão a investigar esta situação. E apesar das investigações ainda não serem conclusivas, o presidente norte-americano Donald Trump, já anunciou na passada semana que estes cigarros electrónicos com sabores serão retirados do mercado.

Após a divulgação destes dados, a Direcção Geral de Saúde lançou o alerta também em Portugal, e a Sociedade Portuguesa de Pneumologia já se manifestou aconselhando que a prática de fumar cigarros electrónicos deve ser evitada, especialmente em grupos mais vulneráveis como crianças, adolescentes, adultos jovens, grávidas, idosos e doentes respiratórios crónicos.

Muitos utilizadores de cigarros electrónicos, nomeadamente jovens, iniciam a prática com sabores alternativos (manga, chocolate, menta, entre outros) e depois passam para a utilização de produtos como oe trahidrocanabinol (THC), uma substância psicoactiva presente na canábis.

A causa da doença ainda é desconhecida, mas os doentes afectados reportaram a utilização de vários produtos e substâncias incluindo os que contêm THC, nicotina, canábis, canabidiol e canabinóides sintéticos. Quase todos os dispositivos electrónicos apresentam também níveis muito elevados de óleo de vitamina E, o que também pode estar relacionado com esta doença.

Para se tornar inalável, a nicotina ou o THC devem ser misturados com solventes ou óleos, que dissolvem e libertam as substâncias activas. Os solventes ou óleos são aquecidos e tornam-se vapor, mas podem sobrar alguns resíduos quando o líquido arrefece. Está actualmente a ser estudado se a inalação destes resíduos pode causar problemas respiratórios e infecções nos pulmões.

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Dispositivos de cessação ou de manutenção?

A actual polémica em redor dos cigarros electrónicos permite-nos agora chamar a atenção da população em geral para o porquê da introdução destes dispositivos no mercado. Muitas pessoas acreditam que os cigarros electrónicos foram colocados no mercado pela indústria tabaqueira por serem menos prejudiciais para a saúde, ou mesmo para ajudarem alguns fumadores no processo de cessação tabágica. Mas verdade é que ainda não existem estudos robustos que indiquem que os cigarros electrónicos são menos prejudiciais para a saúde e eficazes para deixar de fumar, antes pelo contrário.

Se avaliarmos com mais pormenor esta questão, percebemos que a indústria tabaqueira ao introduzir estes dispositivos no mercado mascarou de forma muito audaz o seu principal objectivo de atrasar ao máximo qualquer intenção de abandono do tabaco, alargando assim a vida de um já consumidor, em vez de captar novos clientes num mercado já saturado.

Existem alguns estudos realizados em 2018 que demonstram que cerca de 60-90% dos utilizadores de cigarros electrónicos continuam a fumar, não existindo uma verdadeira troca dos cigarros tradicionais por estes dispositivos, mas sim uma utilização em simultâneo. Para além disso, a maioria dos utilizadores aproveitam estes novos dispositivos para aumentarem o seu vício, utilizando-os em locais onde actualmente já é proibido fumar os cigarros tradicionais.

O facto de se poder consumir nicotina em ambientes interditos, mais do que ajudar a motivar os fumadores a passarem para os cigarros electrónicos ou a deixarem mesmo de fumar, reduz os níveis de abandono do tabaco.

De resto, esta realidade já levou mesmo o CEO da empresa Juul (uma marca de cigarros electrónicos que se apresenta como única e diferente) a desaconselhar a utilização do seu produto a quem não tem uma relação com a nicotina, chamando à atenção para potenciais perigos para a saúde.

As principais técnicas de cessação tabágica, decompõem o vício do tabaco em dois grandes pilares: o chamado “vício de mão” e o vício químico. Na verdade, grande parte dos actuais fumadores apresenta o “vício de mão” como o principal obstáculo à cessação tabágica, ou seja, sente prazer por todo o ritual que envolve o fumar um cigarro, o facto de fazer uma pausa, de sair para a rua durante alguns minutos com outros colegas de trabalho, o segurar no cigarro… Por outro lado, os fumadores mais antigos e com maior carga tabágica já apresentam concomitantemente o vício químico muito marcado também, com o próprio organismo dependente de uma substância aditiva como é a nicotina.

As actuais estratégias de cessação tabágica têm como principal objectivo ajudar o fumador a largar de forma sequencial estes dois vícios. Qualquer fumador ao substituir inicialmente os cigarros por pastilhas, gomas ou adesivos, tenta combater primeiro o “vício de mão” e, apenas quando este está ultrapassado, é que começa a diminuir os níveis de nicotina libertados por estes produtos, combatendo assim o vício químico.

O cigarro electrónico, ao “alimentar” este “vício de mão”, está a contribuir para aumentar a epidemia do tabaco, atraindo os fumadores que querem deixar de fumar, mas reduzindo a probabilidade de o conseguirem. Sem dúvida alguma que o cigarro electrónico não é uma porta de saída do tabaco, podendo ser uma estratégia de manutenção ou até uma porta de entrada.

Nos últimos anos, tem-se registado um número cada vez maior de jovens que estão a aderir aos cigarros electrónicos. Vários estudos afirmam que estes jovens desenvolvem uma adição à nicotina com a utilização de cigarros electrónicos, o que facilita o seu início no consumo de tabaco. Esta realidade é extremamente preocupante uma vez que no ano de 2014, já se registaram em vários países mais jovens consumidores de cigarros electrónicos do que cigarros tradicionais.

Podemos portanto perceber que os cigarros electrónicos são, nem mais nem menos, do que a adaptação da indústria tabaqueira à redução crescente de fumadores e à regulamentação de espaços sem fumo, dificultando o abandono, favorecendo o início e levando a nicotina a espaços onde já não podia estar.

E os cigarros tradicionais?

Esta polémica também nos leva a reflectir um pouco mais sobre a actual venda livre de tabaco no mercado. Há várias décadas que sabemos com certeza e clareza que o tabaco aumenta de forma muito significativa a prevalência de vários cancros como é o caso do cancro do pulmão, da bexiga, da laringe, entre outros, sendo uma das principais causas de mortalidade da sociedade actual. Para além disso, conhecemos ainda a existência de uma doença extremamente incapacitante e redutora da qualidade de vida, que provém quase exclusivamente do consumo de tabaco, a Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica, também conhecida como DPOC.

Porque será que em tão pouco tempo são lançadas regras de suspensão de venda de dispositivos cujo malefício ainda não está totalmente percebido nem estudado, e demoramos tanto tempo para criar regras de suspensão de um produto que há várias décadas é conhecido como “assassino”? De modo algum, esta reflexão pretende apoiar qualquer tipo de injustiça que a indústria possa ver associada a esta suspensão de cigarros electrónicos, mas antes pôr-nos a pensar acerca dos malefícios estudados e cientificamente comprovados do tabaco e o porquê da sua manutenção no mercado.

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