Estudo diz que viver no estrangeiro é a melhor forma de te encontrares

E a prova empírica de uma portuguesa que fugiu para o outro lado do mundo.

Importa começar por dizer que este texto está a ser escrito por alguém que se mudou para a Austrália há mais de seis meses, precisamente para se encontrar. Por mais clichê que isso possa soar. É que quando a vida não te corre bem e a culpa até é tua mas não sabes o que fazer, mudar de vida é a solução mais literal e, talvez por isso, pareça a mais fácil simples. E uma “solução” não é uma resolução, mas no meio de todas as incertezas que tinha quando tomei esta decisão, uma coisa era certa, sair de Portugal, de minha casa e do colo das minhas pessoas, ia pelo menos dar-me outra perspectiva do mundo e, com isso, esperava eu, da vida.

Era isso que toda a gente que já tinha passado pelo mesmo me dizia. A maioria das pessoas que emigra, mesmo que temporariamente, pode atestar por experiência própria, que é uma óptima oportunidade de ficares a conhecer-te melhor. Agora isso deixou de ser só aquele senso comum que debitamos num café com amigos e passou a ter alguma base científica com um estudo académico do Professor Hajo Adam, da Rice University em Houston, no Texas, que explica porque é que isso acontece.

Na sua meta-análise explorou seis estudos que examinaram o chamado “self-concept clarity” de vários sujeitos – que, em Psicologia em Português se chama “Escala de Autoimagem”, uma escala usada para medir quão bem as pessoas se conhecem a si mesmas. A escala inclui uma série de doze declarações, como por exemplo: “as minhas crenças sobre mim chocam muitas vezes umas com as outras” ou “passo muito tempo a pensar sobre que tipo de pessoa sou”.

Adam descobriu que essa escala de claridade da autoimagem era particularmente alta nas pessoas que viviam noutro país que não o seu. Teorizou que, livres das restrições e expectativas associadas às suas próprias culturas, os expatriados têm mais oportunidades de descobrir o que é para eles mais importante. Por exemplo, o próprio Hajo Adam, que é originário da Alemanha, descobriu o quanto era importante para si ser pontual durante o tempo que morou em França, onde é costume chegar atrasado às festas. “Passar repetidamente por essas experiências obriga-nos a contemplar os nossos valores”, disse ele.

Digo eu, de forma simplista, que às vezes é preciso mudarmo-nos para o estrangeiro para entender não só o que é importante para nós, mas para valorizar hábitos de casa que não apreciamos como devíamos. Seja ter saudades que o super-mercado só feche às 22 horas quando vives numa cidade em que tudo (tudo mesmo) fecha às 16h. Seja sentir falta do calor dos portugueses que tão facilmente se dão a conhecer, quando vives num país onde todos são na generalidade muito simpáticos, mas demoram a dar confiança. Pessoalmente, enfrentar um mercado de trabalho que só procura e comunica com os seus candidatos por e-mail ou plataformas online, fez-me perceber como prefiro ter oportunidade de mostrar e explicar ao vivo porque é que deviam contratar-me. Partilhar casa com pessoas que não conheço fez-me ser uma verdadeira rainha da limpeza. Não ter dinheiro faz-me usar o que tenho para o que realmente interessa, o que, para alguém que já usou idas às compras como terapia, é um grande passo.

O estudo de Adam concluiu ainda que o que torna a experiência de expat tão esclarecedora não é o número de países em que as pessoas vivem, mas o tempo que lá vivem. Em declarações ao Quartz, o Professor referiu que “é melhor viver 10 anos num país do que dois anos em cinco.” Isso porque nos primeiros tempos num novo país ou cidade, acabas por te enterrar em questões práticas. “Nas primeiras semanas, pensas onde vais morar, como procurar um médico, mas depois de te estabeleceres, tens mais tempo para te concentrares.”

Outro estudo de 2010, também realizado por Adam, refere que viver no estrangeiro e interagir com muitas culturas diferentes torna as pessoas mais criativas. Esta também é óbvia, não é, mas têm aqui o sustento teórico. Para mim, a prova empírica chegou quando comecei a ver histórias à minha volta em todo o lado. Voltei a interessar-me a sério por fotografia, para as contar. Aumentei a minha coleção de canetas e aguarelas porque vi cores novas. Mas melhor que tudo isso, voltei a escrever todos os dias. Para mim, sobre mim, até sobre coisas que antes evitava porque vê-las no papel era difícil. Sobre o que me rodeia. Para o Shifter, sobre tudo. Viver num país que fala outra língua fez-me valorizar a minha como nunca. Fez-me perceber que, como jornalista e alguém cujo currículo e portfólio assenta tão especificamente na língua materna, encontrar trabalho na minha área não é fácil. Que saber escrever em português não faz com que saiba fazê-lo em inglês. E por isso tive de ser criativa a procurar trabalho noutras áreas e, depois, criativa a tentar desempenhá-lo.

Não deixa de ser irónico que tenha sido um ditado tão português – “se estás mal, muda-te” – a trazer-me ao estrangeiro. Uma mudança é sempre um processo muito pessoal e, por isso, a forma como cada um de nós a concretiza pode tomar várias formas. O meu plano chegou a ser 4 planos diferentes, antes de se ter tornado um passo que foi tudo menos planeado.

Ainda não me encontrei, continuo perdida algures entre algumas conclusões que tirei por aqui, outras que acredito estarem à minha espera em Portugal e aquelas às quais provavelmente nunca vou chegar. Viver fora é, entre muitas outras coisas, uma oportunidade egoísta de terapia. Está longe de ser uma promessa de respostas certas, aliás, tem tantas mais-valias além da da auto-descoberta que não vale a pena perder o tempo todo nessa busca. Tudo é ganho. Como disse Adam, “viver longe de casa pode ajudar-te a ficar mais próximo de ti mesmo”. É um empurrão. Porque encontrarmo-nos a sério é um processo, que provavelmente não terá melhor continuação que o gozo de alguma dessa clareza em casa, seja ela onde for.