Parasite: Bong Joon-Ho reinventa a visão sobre a classe desempregada

Depois de Snowpiercer: Expresso do Amanhã e Okja, Bong Joon-hoo regressa com Parasite.

Foto via Neon/DR

Apesar da tradição de muito do cinema de Bong Joon-hoo, Parasite não é nenhum filme de inserido no campo da ficção científica ou do cinema de género. Aliás, como o próprio realizador faz questão de referir, este é um trabalho que não se revê nas etiquetas de categorização.

Mas o “parasita” do título é outro, nenhuma criatura de mundos adversos ou longínquos nem afins, apenas uma perspetiva de classes sociais, neste caso aqueles que somente subsistem como podem numa sociedade cada vez mais desigual. E estes “insetos”, como são encarados por outros, sonham com vidas prósperas rodeadas de luxo e acima de tudo um sentido de segurança social e financeira. Bong Joon-Ho em conformidade com um congénere nipónico, Hirokazu Koreeda, reinventa a visão para com a classe desempregada – os subsídio-dependentes – mas ao contrário da melosidade e da emoção contida do mestre da terra do sol nascente, o sul-coreano proporciona-nos uma salada de frutas que recorre aos mais diferentes temperos para metaforizar essa dita luta de classes.

Foto via Neon/DR

Nunca reduzindo-se ao retrato verité como muitos dos artesãos do Novo Cinema Chinês, nem a uma encenação desses atos, Parasite afronta-se nos tiques do heist movie (cinema de golpes) para prosseguir num TGV de elementos em prol de um twist, não como manda uma certa tendência americana de perpetuar o espanto, mas ao longo da narrativa. Como tal, é cinema de curva e contracurva, uma autêntica fábula de horror inserida nas ligações de uma família disfuncional que acaba por ser funcional perante uma artificial distopia.

Quanto à chamada luta entre castas humanas, estas já foram desbravada em filmes anteriores na carreira de Joon-Ho, nomeadamente nos caminhos-de-ferro de Snowpiercer, onde a abordava sobre os ditames de um “socialismo” embusteiro; em Parasite, por sua vez, o confronto é somente uma ferramenta politizada ao servido da sua intriga, que aufere a sua emocionalidade por parte do gesto dos seus atores (um novo capítulo na saga de colaboração entre o realizador e o ator Kang-ho Song).

Foto via Neon/DR

Bong Joon-Ho vem claramente demonstrar a força do cinema sul-coreano na sua mais aperfeiçoada “cartada”, a solidificação da trama sem o “parasitismo” dos códigos de indústrias globais. É a narrativa novamente a soar como enzima, face aos apelos de criatividade num panorama de saturação que nos conduz à escassez de ideias. É essa vontade criativa no seu “storytelling” pela qual este cinema vinga ainda hoje, até mesmo, no pseudo-formalismo de Hong sang-soo, que após a retirada da sua “defesa inteletualizada” demonstra vigor no seu conto e reconto.

Todavia, Parasite, para além da estratégia ofensiva de prevalência do virtuosismo, é uma obra de uma extrema astúcia sem nunca envergar pelo eruditismo palavroso (hoje visto como um sinónimo automático de inteligência para muitos órgãos críticos). Tudo isto sob os acordes das fantasias dos mais carenciados. Poucos cineastas conseguem isso com tal matéria-prima.

Foto via Neon/DR

Texto de Hugo Gomes

(Nota: este texto foi originalmente publicado no c7nema, um dos mais antigos sites de informação, opinião e crítica de cinema em Portugal, tendo sido aqui reproduzido com a devida autorização.)

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