Santiago, Itália: Nanni Moretti não quis ser imparcial

Moretti mostra desde a alegria dos tempos de vitória de Allende, aos momentos de pavor, tortura e morte que se seguiram ao golpe militar.

Não sou imparcial“, diz Nanni Moretti a um militar encarcerado por homicídio e rapto nos tempos da ditadura de Augusto Pinochet neste Santiago, Itália, documentário que apesar de fugir ao cinema militante clássico invade os ecrãs com uma mensagem e montagem bastante claras quanto à posição do cineasta e a natureza do golpe de estado perpetrado no Chile a 11 de setembro de 1973.

Construído num misto de entrevistas com imagens de arquivo e muita documentação centrada no papel da embaixada de Itália em Santiago nessa Era (uma verdadeira “arca de noé” para os dissidentes políticos do regime de Salvador Allende), Santiago, Italia faz uma homenagem, não apenas às vítimas imediatas do golpe, os chilenos, mas igualmente aos dois jovens diplomatas italianos que abriram as portas da embaixada para refugiar todos os que tentavam escapar a esse novo regime ditatorial. Para Moretti, esses dois diplomatas – Piero de Masi e Roberto Toscano – foram um “exemplo de como os indivíduos podem fazer a diferença” na sociedade, especialmente tratando-se de duas pessoas da sua geração, da sua juventude.

Esta mesmo Itália, que agora expulsa e deixa os refugiados à deriva no Mediterrâneo (encontra-se subentendido no timing de lançamento deste documentário uma crítica ao regime atual), agiu na época com um grande sentido de humanismo, até porque se sentia no país, especialmente nos movimentos de esquerda, que aquele golpe era o fim de um sonho: pela primeira vez um governo de esquerda chegava ao governo através de eleições livres e não pelas armas, mas de nada valeu, pois Pinochet atropelou esse sonho.

São muitas as vozes que o italiano reúne em 80 minutos documentais que recorrem muitas vezes a imagens de arquivo. De jornalistas aos diplomatas, passando por muitas outras áreas, onde não faltam realizadores; Moretti recolhe depoimentos que vão desde a alegria dos tempos de vitória de Allende, aos momentos de pavor, tortura e morte que se seguiram ao golpe militar. Em comum em quase todas as vozes de quem conta as histórias percebe-se o sofrimento daqueles dias e o medo que se havia instalado. O cineasta Miguel Littín é um desses testemunhos, não tendo dúvidas que Allende foi assassinado, ao contrário de outros, que colocam a hipótese de ter cometido suicídio.

Littín é, aliás, um dos cineastas chilenos mais ativos a contar esse período negro da história do seu país, tendo viajado clandestinamente durante a ditadura e filmado centenas de horas de material documental (experiência relatada em livro por Gabriel Garcia Marquez), para além de, mais recentemente, ter assinado obras como Dawson – Isla 10, que aborda o encarceramento numa ilha remota dos mais próximos do regime de Salvador Allende, ou Allende en su Laberinto, sobre o golpe e a transformação do Palácio de La Moneda no último reduto da democracia chilena.

Mas como se entendeu no primeiro parágrafo, Moretti dá também tempo de antena aos golpistas, bem definidos por si como os vilões: dois militares do regime Pinochet com posições, visões e experiências diferentes sobre as razões do golpe militar. Não são testemunhos suficientes – nem o tempo dedicado – para poder entender com maior profundidade as suas intenções reais e um fio condutor do pensamento que explique as suas ações, mas como Moretti disse, ele não está aqui para imparcialidades. Mas quem está?

Crítica de Jorge Pereira

(Nota: este texto foi originalmente publicado no c7nema, um dos mais antigos sites de informação, opinião e crítica de cinema em Portugal, tendo sido aqui reproduzido com a devida autorização.)