Teatro: 5 questões a 4 encenadores sobre o estado da arte em Portugal

Encenadores de Teatro Praga, Teatro do Elétrico, SillySeason e Bruta responderam a cinco questões sobre o teatro nacional.

Da esquerda para a direita: André e. Teodósio, Ricardo Neves-Neves, Ivo Saraiva e Silva e João André

Juntámos quatro encenadores portugueses para nos responderem a cinco questões sobre o teatro nacional. Com uma nova temporada teatral prestes a começar, num ano de promessas eleitorais, com ou sem apoios artísticos, eis um retrato daquilo que é e daquilo que pode ser o teatro em Portugal.

Começamos pelos mais velhos, o Teatro Praga, que já cá moram desde 1995 e são uma identidade fortemente consolidada no teatro português. Com um pólo cultural, a Rua das Gaivotas 6, em Lisboa, o Teatro Praga é também impulsionador de novos projetos e de novas práticas artísticas, ao acolherem quem não se encontra, ou não deseja encontrar, nos programas culturais existentes. Em nome do Teatro Praga entrevistámos André e. Teodósio, ator, encenador e membro fundador da companhia.

Há ainda o Teatro do Elétrico. Fundado em 2008 pelas mãos do diretor artístico Ricardo Neves-Neves, e cujo destaque no nosso panorama teatral é inegável. Para além de serem uma das companhias com maior destaque nas grandes salas de espetáculo da capital, são também uma identidade relevante no desenvolvimento cultural de vários pontos do país, seja com digressões nacionais ou até com temporadas em teatros regionais.

Falemos também dos SillySeason, uma companhia de teatro com uma identidade muito marcada pela fusão de várias linguagens artísticas num só espetáculo. Juntaram-se em 2012 para poderem trabalhar as ideias teatrais que lhes interessavam explorar. Nas suas criações vídeo, som, texto, movimento e luzes juntam-se de maneira original sem qualquer hierarquia de elementos teatrais. Pelos SillySeason falámos com Ivo Saraiva e Silva, autor, ator e membro fundador da companhia.

Os caçulas deste grupo de quatro são a Bruta., uma companhia de teatro formada em 2017 por um grupo de alunos recém-formados pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Foram à conquista do seu próprio espaço e identidade teatral, juntaram-se, e hoje já com dois anos de existência consolidaram a sua presença e originalidade no meio teatral. A voz da Bruta. foi aqui representada pelo João André, ator, encenador e diretor artístico da companhia.

João André em cena na Bruta. (foto DR)

Em 2018, o primeiro-ministro António Costa anunciou repetidamente a promessa para 2019 do “maior orçamento de sempre para o sector da Cultura”, seguiram-se manifestações de trabalhadores do setor pela conquista de um por cento do Orçamento do Estado de 2019. Mas interessa-nos também saber, para além das questões monetárias e dos apoios artísticos, quais são os limites que podem existir na criação artística?

Ricardo Neves-Neves: “Quando essa questão é aplicada aos limites do humor percebes que o humor não tem limites. Quem tem limites são as pessoas, as que criam e as que recebem o humor. A arte é a mesma coisa. O limite da arte está em primeiro lugar no artista que o cria e depois no espetador ou no leitor que o recebe.”

João André referiu-nos que as limitações artísticas não podem partir, nunca, de limitações monetárias. “Talvez um dos maiores impedimentos criativos seja o orçamento ilimitado. Mas por outro lado, a questão monetária tem sempre de existir. Se eu tiver um bom orçamento para pagar bem à equipa com quem trabalho, eu sei que à partida vou ter um resultado artístico muito melhor, mas do ponto de vista criativo não serve para nada.”

André e. Teodósio: “Vivemos um momento ímpar de atividade dos equipamentos da cidade e do Estado, ainda que aguardemos a nomeação de alguns Diretores Artísticos, como por exemplo no caso do Teatro São Carlos, e da abertura de algumas estruturas, como o recente Teatro do Bairro Alto. E é também verdade que para entrar nas programações destes equipamentos é preciso estar sujeito a uma escolha programática. Contudo, existem também uma serie de estruturas sobreviventes que têm vindo cada vez mais a abrir as suas portas: o Cão Solteiro, o Fórum Dança, o Alkantara, a Latoaria, a Zona Não Vigiada, e a própria Rua das Gaivotas 6 com o Pólo Cultural das Gaivotas. Não obstante, não devemos deixar de exigir maior dotação orçamental para os apoios à cultura, maior proteção nos direitos laborais, maior dedicação na resolução da alteração de regimes laborais e espaciais na cidade.”

Ivo Saraiva e Silva vai para além dos limites espácio-temporais e realça a finitude que a própria realização de um objeto artístico num lugar específico possa ter, seja “numa ocasião particular com condições que não podemos controlar ou até pelos limites físicos e biológicos do corpo do intérprete”.

Uma peça da SillySeason (foto de Alipio Padilha/DR)

Deixamos de lado as questões orçamentais e os limites que possam ou não existir na criação artística, e centramo-nos no público de teatro. Que público é esse? Quem é que, afinal, consome teatro em Portugal? E será também o público um limite à criação?

Em resposta a esta questão, João André confessa que levar as pessoas a ver teatro é “cansativo mas necessário. Continuo a ver maioritariamente as mesmas pessoas nos teatros mas, ainda assim, acho que está melhor”. O ator protagonizou este ano uma série digital – O Resto da Tua Vida com o humorista Carlos Coutinho Vilhena, série essa que aborda, inclusivamente, a temática da ausência de público no teatro. “Há pouco tempo estava eu no Teatro São Luís a ver um espetáculo do Teatro Praga quando duas irmãs me vêm congratular pela série e confessar-me que a mesma as tinha consciencializado a irem mais ao teatro. Fiquei feliz por sabê-lo, e com a sensação de dever cumprido. Estamos longe de estar bem, mas acredito que estamos no bom caminho. Mas claro que grande parte deste trabalho não depende de nós artistas mas sim dos municípios bem como dos agentes culturais.”

Para Ivo Saraiva e Silva o público de teatro está à espera de ser estimulado culturalmente e, para isso, torna-se “necessária a criação de uma necessidade cultural que verse uma rotina de consumo da arte. Parece-me que isso não passa por nós, artistas, mas cabe aos agentes culturais, aos municípios, às estruturas que gerem esta relação entre cultura e o seu público, e vice-versa, de forma a vingar uma necessidade nas pessoas que as levem aos teatros, às galerias, ao cinema, a espaços não convencionais, e a contactarem ativamente com estes locais”.

André e. Teodósio: “Vivendo num país que tem uma tradição teatral menos canónica quando comparada com outros países europeus, podemos dizer que vivemos libertos de um espartilho como talvez outras disciplinas não consigam. Mas digo isto enquanto criador. Julgo que o que se nota mais é que se trata de um público que ou tem algum conforto financeiro e social ou faz o esforço para ir ver. Ir ao teatro ainda é uma atividade bastante classista.”

Ricardo Neves-Neves confessou-nos que treze anos de trabalho profissional não são suficientes para descrever aquilo que é, ou não, o público português. “Ainda assim, a sensação que eu tenho é que agora o público vai mais ao teatro, mas acho que é o resultado das temporadas curtas que, além de prejudicarem seriamente os espetáculos, também criam uma relação diferente com o público. Temporadas curtas não geram curiosidade, as pessoas não falam sobre um espetáculo que daqui a três dias vai acabar e o assunto esgota rapidamente. O público global é capaz de ter diminuído, mas o público que se calhar vai uma vez por semana aumentou. Mas parece que as pessoas são sempre as mesmas.”

Ricardo Neves-Neves, do Teatro Eléctrico (foto de Filipe Ferreira/DR)

Mas se, aparentemente, o público não aumenta, se as salas de teatro não esgotam tão facilmente como uma sala de concertos ou uma sala de cinema – Será então necessário que haja uma cidadania teatral? E o que é que pode ser feito para que ela exista? De que forma podemos educar e chegar às camadas mais jovens da população?

André e. Teodósio: “Estamos a falar de um problema estrutural que tanto é idadista como capacitista, racista, etc. Não há um resposta concreta porque as iniciativas têm de ser diversas. Julgo que programas como o Estar Em Casa, que acontece bianualmente no São Luiz, em que a entrada é gratuita para toda a gente, em que temos atividades para todas as idades, num espaço de acessibilidade fácil, e em que tentamos ter todo o tipo de representação e abordar muitos tópicos, podem ser uma boa forma de exercício coletivo de cidadania.”

Ivo Saraiva e Silva: “Uma cidadania teatral constrói-se com hábitos culturais. Uma rotina cultural permite um léxico diversificado de referências em cada espetador que o leva a observar o mundo de formas diversas, ao mesmo tempo que fomenta um espírito crítico próprio. E isto é muito importante tanto para o espetador adulto como para o jovem ou para a criança. E a escola e os pais são muito importantes nesta matéria, na concretização de ações culturais, no incentivo à leitura e ao diálogo. Mas não podemos ser condescendentes nem infantilizá-los, antes incutir-lhes uma sensibilidade particular para o sonho e uma responsabilidade sob a opinião própria, porque a responsabilidade inaugura a cidadania.”

João André: “Educação é igual a cultura e é nas camadas mais novas que temos de insistir. Mais uma vez não parte de nós artistas mas sim do Estado. A necessidade de existir teatro nas escolas não é para que as crianças sejam artistas quando crescerem (óbvio que pode despertar uma aptidão para tal). É sim porque todas elas serão decididamente espectadoras. Como tal, têm de o saber ser. Seja no comportamento dentro de uma sala de espetáculos, seja na rotina de ir ver um espetáculo de teatro, dança, música, etc.”

Ricardo Neves-Neves: “O teatro vale por si e não como uma aplicação determinada sobre um programa curricular. As pessoas que levam apenas os alunos a ver peças relacionadas com o programa curricular, é porque acham que o teatro só deve ser visto quando é diretamente aplicado sobre qualquer coisa. A experiência de ir ao teatro não é só a ligação com aquele texto, é um conjunto de normas que tu segues de comportamento, até sociais. Há coisas que tu levas para a vida que não estão relacionadas com um programa curricular. Eu sei perfeitamente que hoje sou uma melhor pessoa porque tive contacto com vários objetos artísticos (não estou a dizer que sou boa pessoa). Sou melhor do que seria se não tivesse tido acesso ao teatro e ao cinema, se não tivesse ido a exposições e se nunca tivesse lido um livro. Seria diferente, certamente, mas duvido que fosse melhor.”

Uma peça do Teatro Eléctrico (foto de Alipio Padilha/DR)

Do programa curricular fazem parte Gil Vicente, Luís de Sttau Monteiro e Almeida Garrett, mas se existe, de facto, uma necessidade de cidadania teatral e se os hábitos de leitura de peças de teatro são uma prática pouco comum, por onde podemos começar? Qual o nome de uma peça de teatro que deva ser lida?

André e. Teodósio: “’Teatro não é literatura’ já dizia Osório Mateus. José Maria Vieira Mendes volta a ativar esta citação no seu livro Uma Coisa Não É Outra Coisa. Acho que esse livro é fundamental para conseguirmos, finalmente, entrar numa outra ideia de teatro enquanto Arte e não enquanto animação cultural antropológica de um texto. É essa a ‘peça’ que sugiro. Essa e todos os outros livros dele.”

Ivo Saraiva e Silva destaca também José Maria Vieira Mendes como um autor muito importante para o pensamento teatral corrente, no desafio de novas dramaturgias, novos prismas cénicos e, segundo o membro dos SillySeason, com uma ironia precisa e bem doseada. “Proponho uma peça da sua última compilação, um texto chamado ‘Padam-Padam’ – uma peça catástrofe. Foi uma peça que ele escreveu para o Teatro Praga em 2009 e trabalha a estrutura narrativa, distorcendo-a, criando-lhe possibilidades, ao mesmo tempo que nos conta a história pura e dura de uma família que vive a alegoria da caverna.”

Ivo Saraiva e Silva (foto de SillySeason/DR)

João André: “O ano passado a Bruta fez um espetáculo chamado a ‘Ilha’, com a junção de dois textos do Ricardo Neves-Neves que acho brilhantes e aconselho vivamente a sua leitura: ‘Ilha do Desporto’ e ‘Ilha do Futuro’, de Ricardo Neves-Neves.”

Ricardo Neves-Neves: “Jardiel Poncela é muito divertido de ler. É um autor espanhol percursor do teatro do absurdo que durante a Guerra Civil espanhola arranjava sempre maneira de meter, no meio das suas peças, pelo menos uma frase em que falava de Portugal. É um autor que um dia irei certamente encenar.”

Agora, em Setembro começa um novo ano letivo, regressamos ao trabalho, regressamos à escola. Começam novos programas televisivos, começam os debates para as eleições legislativas, começa a Taça de Portugal, mas começa também uma nova temporada teatral. O que é que pode ser revelado para a temporada 2019/2020?

André e. Teodósio: “O Teatro Praga começa com diversas digressões: a 13 de Setembro o ‘Antes’ no Auditório Municipal de Vila Nova de Gaia; o ‘Romeu e Julieta’ a 12 de Outubro na Póvoa do Varzim e depois a 18 de Outubro em Santarém; de seguida o também recente ‘Worst of’ no Teatro Rivoli de 29 e 30 de Outubro. A Rua das Gaivotas 6, agora com a direção de Pedro Barreiro, vai começar o seu novo curso com uma proposta muito diferente daquilo que estava a ser até ao momento mas que vai ser maravilhosa.”

André e. Teodósio e a equipa do Teatro Praga (foto de Estelle Valente/DR)

Ricardo Neves-Neves: “No Teatro do Eléctrico começamos com três espetáculos dirigidos para a juventude e os três em simultâneo. O ‘Dito Por Não Dito’ que é um espetáculo feito em escolas e para uma turma de cada vez, numa sala de aulas, num registo muito próximo entre os atores e o público. Vamos fazer em Loulé o ‘Catamaran’, um texto da Ana Lázaro, e de momento estou a escrever uma peça que vai estrear no dia 16 de Fevereiro no Teatro São Luiz, o texto chama-se ‘A Reconquista de Olivença’. Vai ser uma brincadeira a partir da questão histórica da conquista de Olivença juntamente com um lado fantasioso.”

Ivo Saraiva e Silva: “Os SillySeason começam a temporada com o espetáculo ‘Testamento em Três Atos’, que estreámos no final do ano passado. Mas a primeira grande estreia desta temporada será “Dolls”, uma peça feita exclusivamente para a televisão, mas que terá uma versão para teatro. É, para já, um teatro-tv ou um tv-teatro (ou teleteatro, como é comummente designado), coproduzido entre os SillySeason e a RTP, e totalmente escrito e encenado por mim, a partir de uma peça lindíssima, a ‘Casa de Bonecas’ de Henrik Ibsen. Isto tudo a par de diversas oficinas, performances e instalações que povoarão a nossa temporada em diversos locais convencionais e não convencionais.”

João André: “Para a temporada de 2019/20, a Bruta vai iniciar um novo projeto online, que ainda não podemos desvendar. Em Dezembro vamos repor o nosso último espetáculo ‘Ensaio de uma Odisseia’ no Auditório Municipal Amélia Rey Colaço, em Algés, e em Fevereiro vamos estrear um novo espetáculo que contará com uma tour nacional.”

Texto de Joana Fernandes