Uma app, o jejum e o juízo: a tua saúde não se rege por uma aplicação

Este artigo não pretende censurar quem utiliza/utilizou aplicações móveis semelhantes, mas sim alertar para as imprecisões de base que se verificam, e para a subvalorização do impacto que períodos de jejum sem orientação de um profissional de saúde podem causar.

No final de 2018, a International Telecommunication Union reportava que o número de subscrições de acesso à internet móvel abrangia 90% da população. Habitualmente lemos que tal disponibilidade móvel, aliado à utilização de smartphones, ajuda no acesso rápido e extenso a informação, e contribui para uma sociedade global de informação mais inclusiva. Contudo, a facilidade com que obtemos informação pode também potenciar a ânsia habitual em obter soluções rápidas para questões de elevada complexidade, e isso não é diferente quando falamos de Saúde, talvez particularmente de Nutrição.

Temos assistido a um crescendo do número de apps relacionadas com o estado de saúde, por exemplo, para monitorizar a atividade física, a toma de fármacos, e a ingestão alimentar. Relativamente à perda de peso, cada vez mais tem aparecido aplicações que promovem a perda de peso através de uma das metodologias que tem recebido mais atenção mediática: o jejum intermitente.

O jejum intermitente define-se habitualmente por “um período em que voluntariamente há abstinência alimentar ou ingestão de alimentos isentos em calorias, intervalado com períodos de ingestão energética normal”. Uma simples pesquisa num qualquer motor de busca apresenta-nos imensas opções de apps com propósitos semelhantes, como por exemplo a BodyFast, FastHabit, Myfast, Track Your Fast, Vora, Zero, entre outras. Neste artigo procuro analisar uma das aplicações mais procuradas do género, a BodyFast, e discutir as possíveis implicações de uma aplicação no telemóvel condicionar a ingestão energética de um indivíduo.

A BodyFast é uma aplicação para monitorizar e adotar vários períodos de jejum, a partir de planos de jejum pré-definidos, ou através das orientações de um coach que comunica através da aplicação. A utilização livre da app ocorre por um período limitado de dias, e é depois exigida subscrição ao utilizador. No entanto, logo após o download são percetíveis várias incoerências e imprecisões.

O primeiro contacto com a app revela que a definição de jejum intermitente apresentada pela BodyFast é bastante diferente da definição biomédica de jejum apresentada anteriormente neste artigo, e que se resume a “Não fazes algumas refeições ou jejuas durante um dia inteiro”. Duvido que o utilizador fique esclarecido, principalmente se nunca se tiver deparado com o conceito de jejum intermitente.

Os períodos de tempo em que o indivíduo não come são definidos por um “Coach”, mas sem revelar se é um profissional de saúde ou não. Provavelmente não. A alternativa proposta é a escolha de planos predefinidos na aplicação, o que também é bastante diferente do prisma de terapêutica individualizada que se procura no processo de perda de peso.

Navegar pela informação apresentada pela BodyFast permite também a imersão em inusitadas falácias do apelo à autoridade, desde Paracelso até ao “Nobel da Medicina de 2016”, Yoshinori Ohsumi, cujo trabalho se referiu a mecanismos de autofagia em células de levedura. É uma extrapolação insensata garantir que resultados em leveduras demonstram benefícios do jejum em humanos. Apesar de ao longo da apresentação da app não ser apresentada qualquer referência a estudos científicos, é garantido que “estudos apontam para efeitos positivos” do jejum em várias doenças. Curiosamente, a app informa que é desaconselhado o seu uso por pessoas com doenças crónicas. Isto implica então que o seu uso seja desaconselhado em indivíduos com obesidade, visto que é uma doença crónica. Certo?

Faço uma última observação às alegações feitas pela BodyFast. É declarado que após o início dos programas de jejum, o corpo passará a entrar “em modo de desintoxicação, aprende a queimar gordura novamente”. É importante realçar que no caso de um indivíduo saudável, órgãos como o fígado e rins não desligam o “modo de desintoxicação”. O que parece verdadeiramente tóxico é a propagação de desinformação e o impacto que pode ter em indivíduos mais suscetíveis. Quanto à ideia de “queimar gordura”, não é garantido que iniciar este programa conduza à perda de peso, uma vez que não está garantida a restrição calórica necessária para tal. Se um individuo estiver 16 horas em jejum, mas depois se alimentar ad libitum e não houver défice energético, não vai haver perda de peso garantida. O que não significa que o jejum intermitente não possa ser uma estratégia legitimamente utilizada na perda de peso, mas quando conduzida humanamente e com base em evidência.

O modo de atuação da BodyFast é discutível e irresponsável: quer pela apresentação de informação imprecisa, quer pela metodologia simplista e possivelmente perigosa.

Este artigo não pretende censurar quem utiliza/utilizou aplicações móveis semelhantes, mas sim alertar para as imprecisões de base que se verificam, e para a subvalorização do impacto que períodos de jejum sem orientação de um profissional de saúde podem causar. É necessário alertar para o aparecimento perigoso de aplicações com que recheamos o nosso telemóvel, tablet ou computador. A sua app pode saber a que horas fez a sua última refeição, o seu peso e altura, qual o seu objetivo de perda de peso…mas não sabe se sofre de alguma patologia, de co morbilidades associadas ao peso, se o seu estilo de vida é compatível com o jejum, ou se pode estar mais vulnerável ao desenvolvimento de doenças do comportamento alimentar com o início deste “programa”. Importa levar a alimentação a sério, e não devemos ser brandos quando é encarada com leviandade.

Texto de Helena Trigueiro