A indústria dos combustíveis fósseis andou a enganar-nos durante décadas, lembra relatório

O relatório fala em campanhas de manipulação da opinião pública e de desinformação, envolvendo especialistas falsos, teorias da conspiração e falácias, e aponta alguns exemplos.

Foto de Roy Luck via Flickr

Um relatório publicado esta segunda-feira por investigadores das universidade de Harvard, George Mason e Bristol estabelece um paralelo entre as tabaqueiras e as petrolíferas no que toca à manipulação da opinião pública sobre os seus produtos, com o objectivo de evitar polémicas e políticas de regulações que pudessem prejudicar os seus lucros. O relatório surge num momento em que a ExxonMobil enfrenta a justiça norte-americana acusada de enganar os seus investidores quanto aos riscos para o negócio das regulações que estão a surgir por causa das alterações climáticas.

A gigante do petróleo e gás natural compareceu esta terça-feira em tribunal, em Nova Iorque, porque não terá sido clara com os seus investidores quanto aos custos que poderão resultar do novo enquadramento legislativo que visa a redução a emissão de gases com efeito de estufa.

Segundo o The Guardian, desde 2010, a ExxonMobil terá atribuído publicamente um determinado preço ao carbono para compensar os efeitos das regulações, mas em privado terá apresentado um outro valor, muito mais baixo, abrindo portas a investimentos pesados em termos de emissão de carbono como os realizados nas areias betuminosas de Alberta, no Canadá, que de outro modo iriam parecer muito menos rentáveis. Em causa está, assim, um esquema fraudulento de longa data, envolvendo a ExxonMobil e a sua fonte de financiamento.

O The Guardian escreve que esta situação da ExxonMobil representa a segunda vez que um caso climático vai a julgamento nos Estados Unidos, apesar de já terem existido outras acções judiciais naquele país com o intuito de responsabilizar as principais petrolíferas pela crise climática. A ExxonMobil tem sido um alvo recorrente de ambientalistas não só pelo impacto negativo da sua actividade no planeta, mas também por tê-lo desvalorizado publicamente ao longo de décadas.

O relatório, que referimos no início deste artigo, fala em campanhas de manipulação da opinião pública e de desinformação, envolvendo especialistas falsos, teorias da conspiração e falácias, e aponta alguns exemplos, como um anúncio de 2004 publicado no New York Times que podia ser lido como um editorial. O relatório não traduz algo propriamente novo – notícias e outros estudos já tinham tido traçado conclusões semelhantes –, mas é um contributo importante para se começar a perspectivar estas grandes indústrias de outra forma.

“Há 60 anos que a indústria de combustíveis fósseis conhece os possíveis perigos dos seus produtos para o aquecimento global. Mas, em vez de alertar o público ou fazer algo a respeito disso, orquestraram uma campanha massiva de negação e retrocesso, projetada para proteger os lucros”, comentou Geoffrey Supan, um dos investigadores que desenvolveu este relatório, divulgado pelo Los Angeles Times.

Citado pelo mesmo jornal, um porta-voz da ExxonMobil, referiu que a acção judicial em Nova Iorque é politicamente motivada e resultou de uma coordenação dos grupos anti-combustíveis fósseis. “A ExxonMobil acredita que os riscos das alterações climáticas justificam uma acção e que todos nós – empresas, governos e consumidores – precisaremos fazer progressos significativos”, acrescentou.