Os seis memorandos de Italo Calvino para os escritores deste milénio

Foi numa daquelas noites em que ia ficar a escrever, apenas para me aperceber que a minha a prosa era, na melhor das hipóteses, medíocre, que decidi ler os seis memorandos que Italo Calvino deixou aos escritores deste milénio.

Italo Calvino (foto via Standford University)

Numa era em que os media, cada vez mais rápidos e extensos, estão a triunfar, correndo o risco de reduzirem todas as comunicações a uma superfície simples e homogénea, a função da literatura é comunicar entre coisas que são diferentes simplesmente porque são diferentes, sem arrombar nem afiar as diferenças entre elas, mas seguindo a torção verdadeira da linguagem.

Foi numa daquelas noites em que ia ficar a escrever, apenas para me aperceber que a minha a prosa era, na melhor das hipóteses, medíocre, que decidi ler os seis memorandos que Italo Calvino deixou aos escritores deste milénio. Achei que valia a pena percorrê-los com um olhar atento, e, quando acabei, decidi partilhá-los com os leitores do Shifter.

Calvino escreveu estes memorandos depois de ter sido convidado para uma palestra sobre poesia em Harvard. Uma grande honra, tendo em conta que já tinha sido atribuída a TS Eliot, Jorge Luis Borges e Igor Stravinsky. Face ao convite, o objectivo de Calvino foi claro. Dar um conjunto de valores importantes para a literatura sobreviver ao avanço dos tempos. Infelizmente, Calvino faleceu antes de acabar o último ponto, o que explica só existirem cinco memorandos, em vez dos seis prometidos.

Após uma pesquisa por outras tentativas de um resumo de uma obra tão intensa, cheguei a vários pontos fortes em que os leitores tendem a concordar. Também decidi deixar citações da obra, traduzidos por mim, para que os possamos sentir na voz do próprio Calvino. Sem outras explicações por agora, passo a listá-los de seguida.

I – Leveza

“O meu método de trabalho envolve muitas vezes a subtração do peso. Eu tentei remover peso, às vezes das pessoas, às vezes de seres angelicais, às vezes de cidades; acima de tudo tentei remover peso da estrutura das histórias e da linguagem.”

Calvino, durante a sua juventude, escreveu histórias com os pés bem-assentes no chão – o realismo – e onde as personagens eram do seu mundo – a Itália dos anos 1940 –, tais como políticos, soldados ou operários. Esta ideia casa com a ideia do neorrealismo cinematográfico italiano, consagrado por filmes duros, onde a emoção é explorada de forma orgânica (podemos referir o filme Ladrões de Bicicleta como exemplo). Só que, passado algum tempo, Calvino cansou-se deste realismo. Achou que era difícil enclausurar os seus impulsos só para escrever num mundo mais próximo do real. Foi deste distanciamento, e de uma vontade de tornar a sua escrita mais leve, que o autor se apercebeu do quanto a prosa é pesada demais para algo imaterial.

É a partir daí que começa a tentar tirar o peso da sua escrita, numa leveza que o permitiu alcançar trabalhos como As Cidades Invisíveis, pondo os olhos no universo inteiro e libertando-se de regras que nos afundam, tais como o tempo e o espaço.

Como tentou transmitir-nos, a escrita é uma procura por leveza face ao peso que é a realidade. Os escritores tentam sempre pôr o seu mundo nas histórias e, para além de só os atrasar, é um peso irrealista de carregar. É por isso que Calvino nos relembra de tirarmos o que não importa da nossa escrita, permitindo assim acesso a um mundo fantástico, à magia que todos nós partilhamos.

É fácil imaginar o seguinte exemplo: se uma série de barcos estiverem ancorados numa baía, é natural que oscilem com as ondas. Mas vamos imaginar que destas ondas nasce uma ondulação capaz de partir as amarras destes barcos. Ainda assim, é provável que flutuem. E se, em vez de flutuarem, começarem a levitar? Uma levitação que resulta num céu cheio de barcos. Ao libertarmos estes barcos do seu peso real, criámos algo mágico, tornamos cada um deles extraordinário.

Será óbvio dizer que nem todos os escritores querem ser mágicos ou ilusionistas, mas o que Calvino deixa claro neste primeiro ponto é que todos os escritores devem saber o que é a magia. Escrita que se resume ao seu realismo corre o risco de nos passar ao lado e de ser esquecida com facilidade. O detalhe não é o nosso inimigo, mas o excesso de detalhe é. A célebre caçadeira de Chekhov só é memorável porque é disparada, senão estaria a mais na obra.

No reino mágico da literatura há sempre novos caminhos para serem explorados. Tudo pode ser olhado de infinitas perspetivas, com diferentes lógicas e métodos frescos. E tudo isto pode ser escrito de forma universal. Um escritor pode encarar a leveza no seu trabalho para dizer algo que é verdade agora, mas é melhor ainda quando procura uma verdade que perdure. A leveza pode ajudar.

II – Rapidez

“Rapidez de estilo e pensamento significam, acima de tudo, agilidade, mobilidade e facilidade, tudo características que vão bem com uma escrita onde é natural divergir, saltar de um assunto para outro, perder o fio condutor centenas de vezes e ainda assim encontrá-lo após cem novos nós.”

Quando Calvino se refere a velocidade, ele está a referir-se à habilidade de um escritor em controlar a velocidade da sua história. Afinal, o tempo anda sempre de mãos dadas com a tarefa de um escritor. Deve ser possível manipulá-lo, desafia-lo, demonstrá-lo e, até, de uma perspectiva macro, reflectir sobre ele. Isso é possível com a ajuda do ritmo, de sequências, de padrões. O melhor escritor é aquele que deve ser capaz de descrever um segundo ou um milhar de anos com a mesma magia.

Esquecermo-nos disto, do tempo como aliado de uma história, é perder uma ferramenta poderosa de um arsenal prosaico. E não é só no conteúdo que o tempo deve ser manipulado, a forma também é moldável. Frases curtas são mais breves de se ler do que longos parágrafos – quase sentimos os olhos do leitor a deslizarem nelas. As próprias sílabas e palavras escolhidas têm o poder de moldar o tempo.

A rapidez de que fala Calvino também se debruça sobre a velocidade a que a palavra escrita pode navegar. Não podemos esquecer a velocidade de comunicação que a escrita permitiu, mesmo quando este tópico é sobre manipulação da sensação de velocidade. Afinal, a própria escrita já foi em tempos tecnologia de ponta, está só a ser ela própria quando acelera ou entra em modo de câmara lenta.

Só que da invenção da imprensa até agora, perdemos etapas de rigor, passamos a escrever e a clicar logo publicar. Escrevermos rapidamente não invalida que a própria escrita demore algum tempo a maturar. Calvino alerta para a importância deste tempo também – o tempo que a própria obra exige.

Isto não invalida que a inspiração não chegue rápido, mas um produto literário de grande qualidade exige uma busca paciente pelas melhores palavras, pelos ritmos e cadências certas. Uma obra é o resultado deste pente-fino onde até o tempo pode ser manipulado. É possível casar som e conceitos, é ideal que isso aconteça no tempo certo.

Na nossa vida sentimos o tempo correr uma velocidade vertiginosa, ou a dobrar sobre ele próprio em caso de tédio – como Dali tão bem nos mostrou nos seus relógios que derretem. É obrigatório para Calvino que a escrita seja uma das ferramentas onde o podemos controlar. O seu mote pessoal para isto é uma antiga frase em Latim: “Festina lente.” Apressa-te, devagar.

III – Exactidão

“Na minha mente, exactidão significa três características acima de quaisquer outras:
– Um plano bem-definido e bem-calculado para o trabalho em questão;
– A evocação de imagens incisivas e memoráveis, com clareza;
– Uma linguagem tão precisa quanto possível tanto na escolha das palavras, como na expressão das subtilezas do pensamento e da imaginação.”

O processo de escrita passa tanto pela sua redacção, como pela sua edição. É estranho enfrentar esta conclusão, mas faz sentido. Um processo exaustivo de revisão faz maravilhas por um projecto e pode deixa-lo mais perto da verdade a que pretendia chegar. Não é por acaso que optamos por preferenciar certas linhas de um enredo ou gostar mais de algumas personagens do que de outras. Até aquela escrita que parece mais caótica (lembro-me de Pynchon, o meu favorito), está suportada por uma prosa esclarecida e assente numa estrutura lógica.

Para Calvino, o fascínio da exactidão está na ilustração fiel que fazia da dificuldade que era usar as palavras para o seu efeito em pleno. Explica-nos que até quando descrevemos especificidades e generalizações, podemos ser precisos. Para quem já ouviu falar em chão do texto, é possível perceber que a própria gíria, ou até o tom, pode servir para comunicar uma determinada energia no texto ou ajudar-nos a mantermo-nos no tópico em questão. É fácil resumir. A boa escrita foge do aleatório, debruça-se sobre os seus assuntos e enfrenta o precipício para o poder descrever.

Para que isso aconteça, certos passos devem ser dados de antemão. Calvino conta a parábola chinesa em que o rei pergunta a um artista para lhe desenhar um caranguejo. O artista diz que vai precisar de cinco anos, doze criados e uma casa de campo. Quando chega ao fim desses cinco anos, pede-lhe novos cinco anos – e o rei decide aceitar. Só no fim dos dez anos, quando o rei lhe pede, por fim, o caranguejo, é que o artista se levanta e o vai desenhar. Num só movimento de pincel, desenha o caranguejo perfeito. Apesar de ser possível ler vários significados nesta anedota, acredito que Calvino nos está a dizer que temos de viver a nossa vida com intensidade para termos algo para escrever. É preciso encontrarmos a imagem perfeita antes de a traduzirmos por palavras.

IV – Visibilidade

“Se incluo a visibilidade na minha lista de valores a serem salvos, é para deixar um alerta do perigo que seria perdermos uma capacidade humana básica: o poder de trazer visões à mente, mesmo de olhos fechados, de erguer formas e cores a partir das letras pretas na página branca, e de pensar em termos de imagens.”

Imaginem o que Calvino pensaria do agora, se já achava o seu tempo completamente carregado de imagens? Para ele, o excesso visual, assim como a obsessão por ele, retira força à palavra. É por isso que é tão importante para os escritores recriarem os conteúdos da sua mente em imagens únicas – textos que conseguimos visualizar.

Para criar imagens de sucesso, os escritores têm de ser capazes de 1) converter os visuais, a que só eles têm acesso na sua mente, em palavras e 2) garantir, ao mesmo tempo, que estas palavras ajudam o leitor a visualizar de imediato cada cena, cada personagem e cada detalhe importante o suficiente para ser escrito – como se estivesse mesmo lá, ao contrário de apenas escrito numa página.

É um processo decisivo, esta alquimia entre ideia, imagem e palavra. Muitas vezes começa com uma imagem solitária em que conseguimos sentir um significado. Talvez pelo processo descrito, lembrei-me do Coelacanto do Herberto Helder – “peixe quase fabuloso que até há poucos anos se julgava desaparecido da terra” de que Herberto nos fala Passos Em Volta. Calvino descreve este progresso como algo que é obrigatoriamente doloroso, mas onde vamos de imagem em imagem à procura de analogias e significados. É assim que um visual se torna conceptual.

Em jeito de conclusão, esta visibilidade é uma questão de trazer as imagens, pela qual estamos obcecados, para o processo de criação literária. Podemos encará-lo como um balanço entre verdade e arte. Afinal, a grande literatura é aquela que consegue tornar visível algo em que nunca tínhamos reparado, mas para a qual devíamos olhar. É por isso que se desvia do superficial e chama a atenção para o que sente ser necessário. É preciso olhar o mundo para ser capaz de o fazer.

V – Multiplicidade

“A literatura só se mantém viva se lhe dermos objectivos impossíveis de atingir, bem para lá da esperança de os alcançar… O grande desafio da literatura é ser capaz de entrançar diferentes tipos de conhecimento, assim como os seus “códigos” distantes, numa visão multifacetada do mundo.”

A ambição que certos escritores demonstram quando se atiram a trabalhos gigantes – como Proust, Pynchon, James Joyce fizeram – pode parecer insana. Mas é esta ambição louca da literatura que a caracteriza como arte. Os escritores estão a tentar mostrar-nos um mundo, é natural que isso exija muitas páginas, preenchidas com detalhe, ligações únicas, uma realidade concretizada. É por isso que Calvino considera a ambição desmesurada como uma característica da literatura – é esta forma de estar que lhe dá a sua função indispensável.

Quando pensamos nos livros que mais gostamos, vamos perceber que se passam em universos completamente distantes uns dos outros – no meu caso, posso gostar de pós-modernismo nova-iorquino de Pynchon, tal como gosto dos contos passados no Alentejo da Teresa Veiga. Só que os grandes livros superam o seu próprio universo e tornam-se algo mais próximo de nós. Nem a nova-iorque de Pynchon é a verdadeira Nova Iorque, nem os contos da Teresa Veiga se ficam por um universo regional a sul do Tejo. Esta capacidade de voar para longe de qualquer tipo de limites também define a literatura. É a multiplicidade que Calvino descreve.

A variedade infinita do mundo deve ser multiplicada pelos escritores. É aí que nos apercebemos do labiríntico da humanidade, tal como também é aí que o podemos saborear e aprender.

Calvino não se esquece da importância das regras. Acredita que a criação de um sistema pode ajudar um autor a criar os limites do seu universo, fazendo uma advertência para o quanto é complicado acabar uma obra se ela se passa num sítio tão infinito como pretende demonstrar ser. Estes limites artificiais são o framework de uma obra – e não são só estrutura, são a estrutura central, arquitectura de cenas e capítulos e a aplicação do seu conceito.

VI – Consistência

“A literatura só se mantém viva se lhe dermos objectivos impossíveis de atingir, bem para lá da esperança de os alcançar… O grande desafio da literatura é ser capaz de entrançar diferentes tipos de conhecimento, assim como os seus “códigos” distantes, numa visão multifacetada do mundo.”

Infelizmente, Calvino faleceu antes de escrever o sexto ponto dos seus memorados – a consistência. Ainda assim, podemos tentar imaginar do que estaria a falar.

Tal como a multiplicidade é o que cabe numa obra, talvez a consistência se resuma ao que devesse lá estar. Pode falar da voz, do tom ou dos mecanismos literários. Talvez fale sobre como a prosa pode ser uma continuação do conceito de onde nasce. Nunca vamos saber. Mas vale a pena passar um bocadinho a pensar nas possibilidades. Resta-nos reflectir. A consistência de que Calvino fala também podia tratar o quanto uma obra é redonda, soando a ela própria onde quer que esteja. As possibilidades ficam por descobrir.

Na minha mente, tenho a sugestão de que consistência é um sinónimo para coesão – garantir que a obra faz aquilo que se pressupõe, revê-la o que for preciso para que as personagens, o enredo e a descrição estejam adequadas a esta promessa interna.

Ainda assim, estas são apenas percepções minhas no fim da leitura dos outros pontos. Se tiveres alguma que gostasses de partilhar, não te esqueças de o fazer aqui no Shifter. Gostávamos de continuar este debate e, ainda mais, de levar estes princípios para as nossas obras pessoais. Talvez seja a melhor forma de garantirmos que sobrevivem a este século.

Conclusão

Temos a certeza que a leveza, rapidez, exactidão, visibilidade, multiplicidade e consistência, são pontos positivos em que qualquer escritor vai querer deixar bem patentes nos seus textos. Também ficámos com dicas que nos deixam, à partida, mais próximos do que precisamos para seguirmos as pisadas dos heróis literários que nos inspiram.

Talvez a nossa grande tarefa seja agora aprender a utilizá-los, assim perceberemos a relação entre estas ideias e a sua aplicabilidade prática. Há uma grande hipótese que em busca destes ideais, acabemos por encontrar outros, ainda mais importantes para nós, para o que escrevemos e quem sabe para o escritores do próximo milénio.