James Blake escreve ensaio emocionante sobre saúde mental

James Blake fala de uma situação específica e de uma posição de privilégio que não nega, algo que torna o seu texto ainda mais profundo e tocante.

James Blake (foto de Andreas Chudowski/PR)

Para quem acompanha a carreira de James Blake, os problemas mentais que o jovem músico foi atravessando não são novidade nenhuma. Sempre os abordou de forma metafórica nas suas músicas e no último álbum debruçou-se sobre o outro lado desta questão – a “cura” –, com uma abertura inédita no mundo da música.

O músico levou agora a sua confissão para outro nível, com um ensaio publicado no livro It’s Not OK to Feel Blue (And Other Lies) e intitulado “Como me posso queixar?”. No dia 9 de Outubro, véspera do Dia Mundial da Saúde Mental, a editora Penguin Books republicou o texto de Blake no seu sítio online.

Num longo e honesto texto, o artista britânico fala com uma abertura impressionante, partindo do preconceito vigente de que é especialmente fácil não considerarmos que um homem branco possa estar deprimido e de como esse preconceito moldou a sua abordagem à doença.

James Blake fala de uma situação específica e de uma posição de privilégio que não nega, algo que torna o seu texto ainda mais profundo e tocante. Recorda, por exemplo, uma resposta ao New York Times em que apontou como causa da sua toada mais depressiva a pressão das outras crianças e o bullying, a que o jornalista respondeu “uma infância normal, portanto”, numa sequência que o fizera sentir numa enorme fraude. Nesse momento, o sentimento de fraqueza ter-se-à adensado ainda mais, subjacente a esta ideia de que provavelmente haveria pessoas a passar por muito pior e que não se estariam a queixar.

No ensaio, James Blake fala dos seus hábitos nos tempos de escola, em que se isolava do mundo através dos seus headphones, ou retirando-se para a sala de ensaios onde chorava e tocava piano; do seu vício em videojogos, que o afastava da socialização e dos seus melhores amigos que diz, na verdade, nunca ter conhecido realmente bem; e da sua relação com as mulheres, que, venerava, mas de quem era apenas amigo.

Numa das passagens mais marcantes, o músico diz que fruto da pressão social e dos estereótipos de género que marcam a sociedade actual se sentia com a sensibilidade de uma mulher mas no corpo de um homem. Mas as revelações não se ficam por aqui. Blake fala abertamente sobre a sua intimidade e como só aos 22 anos perdeu a virgindade e sobre como se tornar famoso agudizou ainda mais os seus complexos, restando-lhe apenas uma ‘linguagem emocional’ – como lhe chama – a música.

Nessa linguagem, tornou-se um mestre, motivo por que agora aqui escrevemos isso, mas como diz o ‘jovem com a nova melhor música 8.0+’ nos tops da Pitchfork, aparentemente em controlo de tudo, era um jovem descontrolado, que não saía de casa, se recusava a colaborar e fumava erva 14 horas por dia sem cuidar de si, até ter caído num momento negro de depressão marcado por ataques de pânico diários, alucinações e uma severa crise existencial.

O músico, o típico “cis white male” (cisgénero, branco e homem), confessa ainda que não se sente totalmente no direito de se dizer deprimido ou triste porque, afinal de contas, faz parte do grupo mais privilegiado da sociedade. Simultaneamente expressa como essa sensação o fez sentir ainda mais envergonhado por se ter deixado ir a baixo. Nesta altura, foi a namorada quem o ‘esbofeteou’ com palavras, dizendo-lhe que não fazia sentido comparar a dor.

No seguimento, James Blake, indaga-se sobre se alguém quer saber do que escreve mas prossegue por acreditar que é preciso falar sobre o assunto, denunciar a masculinidade tóxica, que se traduz no “homens não choram” ou o medo homofóbrico da sensibilidade, deixando ainda nota de que acredita que é psicologicamente nocivo o sucesso se ter tornado uma parte tão importante das nossas vidas.

Numa curiosa analogia compara-se mesmo a Donald Trump, como se tivesse começado com 413 milhões de dólares e tivesse acabado na falência e a mentir sobre os seus impostos – aludindo levemente a que pode ser esta trajectória ilusória que leva tantos a identificar com o actual Presidente dos Estados Unidos da América.

James Blake termina o seu ensaio sublinhando a importância de falar sobre o assunto porque “se não falarmos sobre a dor, vamos acabar com mais homens cis-género egomaníacos a espalhar as suas merdas por todo o mundo (e alguns a escrever álbuns sobre isso)”.