Joker: a piada é sobre os ricos no reencontro de Philips com a tradição de Taxi Driver

Joker é a história de origem de um dos vilões mais infames do universo da DC Comics e simultaneamente uma das personagens mais acarinhadas – e cativantes – da cultura pop.

Joker (foto via Warner Bros. Pictures)

Sinto que é importante começar por realçar o momento particular que vivi, aquando da visualização do recente filme de Todd Phillips. Senti testemunhar, apenas pela segunda vez nesta década, o nascer de um genuíno clássico de cinema moderno. Esta admiração ultrapassa as restrições do tempo presente, projetando, no imediato, o próprio filme para a ala magna da história contemporânea do cinema. Podemos decompor este produto (quase) perfeito de modos diferentes, para listar as razões que me motivam a afirmar o supracitado. As justificações, por sua vez, irão correr sempre ao encontros de dois pilares elementares: o argumento meticulosamente estruturado e a interpretação irrepreensível, vivida, de Joaquin Phoenix, no papel do protagonista.

Na perspetiva do argumento, co-escrito por Phillips, Joker é a história de origem de um dos vilões mais infames do universo da DC Comics e simultaneamente uma das personagens mais acarinhadas – e cativantes – da cultura pop. O que distingue aquilo que poderia ser mais uma introdução convencional de um personagem é o modo como o filme se debruça, com despudor e intimidade, sobre a própria condição humana: isto é, o modo como a lente nos permite testemunhar a transfiguração de Arthur Fleck. De dia, Fleck, habitante de Gotham City, sonha em deixar os trabalhos de palhaço-por-encomenda para se tornar-se um reputado stand-up comedian, enquanto cuida, de noite, da mãe debilitada, com quem vive. Contudo, com o seu sonho vem um “grande entrave”.

Arthur sofre de um conjunto de doenças que interferem com o seu humor, o modo como se expressa e que o impossibilitam de controlar o seu riso, quando fica nervoso ou ansioso. O problema, parece-me, não está em Arthur. O problema coloca-se do lado de quem o rodeia, que repudia o desvio da norma, acabando por o afastar. À marginalização social junta-se a pobreza e a precariedade que definem a classe a que pertence Arthur, que o acabam por esvaziar emocionalmente. É este individuo desesperançado que acaba ultimamente por encontrar na condição de palhaço o único modo de retaliar. Eis que, no seio da retaliação, Arthur, mascarado do seu alter-ego, ganha um controlo que nunca vivenciou e, mais importante ainda, o reconhecimento do mesmo estrato social que o renegou. E é aqui que o filme de Phillips se agiganta: por nos permitir compreender, com toda a lógica, de que modo é que os traumas internos e externos que habitam nesta personagem influenciam o seu sistema de convicções, conduzindo-o à criação do (anti)herói.

No prisma externo, o guião serve-se, ainda, de Gotham e das suas contrastantes fações sociais para fazer um statement político audaz, acerca do estado atual do sistema democrático. Os pobres estão oprimidos, o fosso com as elites é cada vez maior e os discursos de ódio espreitam por cada esquina, pontos para iniciar a chama de uma rebelião, à qual Joker dá a cara (fui só eu que reconheci laivos de uma América de Trump?).

Relativamente à total dedicação de Phoenix ao papel, vale a pena deixar uma nota comparativa: Phoenix é o herdeiro certo do legado construído por Jack Nicholson em 1989 e Heath Ledger em 2012. Enquanto Nicholson assume o papel de um Joker mais velho e completamente devoto às “palhaçadas” investidas contra o sistema vigente, Ledger e Phoenix partilham território comum, mais sombrio, mais carnal. Dizer que um é melhor que outro será injusto, até porque ambos gozaram de tempo de ecrã diferentes.

Adicionalmente, importa dizer que o filme só não atinge o estado de completa perfeição porque este estudo de reinvenção humana acaba por beber, em parte, da conhecida atmosfera criada por Scorcese e o seu Taxi Driver, bem como do mais recente First Reformed, de Paul Schrader (que escreveu, curiosamente, Taxi Driver). A esta réplica alia-se um subdesenvolvimento das personagens secundárias. De facto, porque o Joker assume o centro e a periferia do trama, fica connosco a sensação de sub-exploração do potencial artístico dos veteranos de Niro, Frances Conroy e, até de Zazie Beetz.

De resto, os restantes departamentos atingem, com facilidade, nota máxima: uma banda sonora eficaz e que amplifica as tensões, internas e externas, no timing certo. Uma fotografia sólida que capta com precisão o ambiente decomposto vivido em Gotham e uma realização rigorosa e simultaneamente humilde: Phillips cede, sem hesitação e desvio, a câmara a Phoenix, que aproveita todos os segundos de exposição para compor o seu Joker.

Assim, no fim, podemos afirmar que nos sobra tudo. Ficamos cheios. Pela riqueza humanística que é constatarmos que somos nós que criamos os nossos monstros e que só nós os podemos prevenir. No fundo, fica a inquietude que resulta do encontro da visão de Phillips e a tradição de Taxi Driver. E a conclusão de que, afinal, a piada final é sobre os ricos.

Texto de João Marques