Jesus Is King: nota 10 na produção, negativa na escrita e na mistura

O nome do novo álbum de Kayne West, bem como a tracklist, não deixam qualquer sombra de dúvidas: a temática anda à volta de Deus e do recente amor que West encontrou nos braços da fé.

Capa de Jesus is King
Jesus is King

Mais de um ano depois da suposta data de lançamento do nono álbum de estúdio de Kanye West, finalmente temos nas nossas mãos Jesus Is King, um álbum totalmente diferente de tudo o que West lançou até agora, com uma temática pouco comum em álbuns de rap. O álbum foi ainda acompanhado por uma curta-metragem que passou pelos cinemas com IMAX de Portugal.

O ano de 2018 será para sempre lembrado como um dos melhores anos para o músico. Em apenas um ano, produziu cerca de 5 álbuns, entre eles Daytona de Pusha T, Kids See Ghosts, juntamente com Kid Cudi e o álbum extremamente rico de Teyana Taylor, K.T.S.E. Com um ano tão preenchido e tão bem-sucedido, West prometeu ainda mais um álbum, Yandhi, que após ter sido adiado várias vezes, acabou por (aparentemente) ser descartado. Um leak acabou por surgir na internet, mas West nunca confirmou se era mesmo o seu álbum ou apenas uma compilação de músicas antigas.

Chegamos então a 2019 quando, em curtos vídeos no Twitter vemos West a tocar piano e a cantar com um coro religioso, algo que deixou os fãs a pedir mais. Em paralelo, no dia de Páscoa, o artista deu um concerto especial no Coachella com o Sunday Service Choir, o coro de gospel liderado pelo próprio, que se faz ouvir ao longo de 4 das 11 músicas que compõem o seu agora novo projeto. Apesar de ser necessário um convite para entrar no concerto, quem não constava na lista de convidados podia vislumbrar o que estava a acontecer no recinto através de um stream disponibilizado online. O que na altura foi alvo de muitas críticas foi o facto de o vídeo só poder ser visto num círculo pequeno no meio do ecrã, uma escolha escolha estética compreendida agora que estreou a curta-metragem — a maioria do filme é exibida também num círculo, possivelmente por ser considerado um símbolo de perfeição e de eternidade.

O nome do álbum, bem como a tracklist, não deixam qualquer sombra de dúvidas: a temática anda à volta de Deus e do recente amor que West encontrou nos braços da fé. Prova disso é a primeira faixa, que preenche os nossos ouvidos com os vozeirões do Sunday Service Choir, acompanhados apenas de um piano muito suave. É uma faixa uplifting, que nos deixa no mínimo curiosos para saber a direção que West pretende tomar com este álbum. As restantes colaborações do coro incluem “Selah”, uma faixa com um desenvolvimento progressivo cujo final é explosivo e energético, contando com vários gritos de West, “Everything We Need”, onde o coro contribui apenas com algumas vozes de fundo e “Water”, cuja melodia, apesar de ser de 2008, nos dá a sensação de ser mais uma das várias samples que Kanye West usa de álbuns antigos de Soul. Todas estas faixas são extremamente interessantes devido à sua produção genre-bending entre hip-hop e gospel.

A terceira faixa, “Follow God” é possivelmente a música mais Kanye do álbum. Se me dissessem que a mesma foi tirada de The College Dropout, eu não duvidava. Os elementos muito típicos da produção de West estão todos presentes: uma sample retirada de um álbum de gospel de 1969, uma bateria simples, mas muito bem programada e a cereja no topo do bolo, uma flow simplificada, mas extremamente bouncy e catchy.

Ainda falando dos pontos altos do álbum, temos a música “Use This Gospel”. O início é dado pela repetição de apenas um par de notas no que parece ser um órgão ou o alarme de um carro. Ouvimos então a voz de West a cantarolar a melodia principal e sentimos o crescimento de uma energia contagiante. A faixa conta com um verso de Pusha T (Presidente da label de Kanye West, GOOD Music) carregado do seu wordplay muito característico — como por exemplo em “In my bed, undercovers when undercovers raided” — e um do seu irmão No Malice, onde fala dos seus próprios pecados e de como encontrou salvação em Deus. Estas duas colaborações são muito importantes porque marcam o regresso do duo composto por ambos os irmãos, Clipse.

A música culmina com a entrada do solo de saxofone de Kenny G e no regresso repentino do cantarolar mas agora com a típica bateria simplificada de West.

Com tantos pontos fortes à primeira vista, facilmente podemos assumir que estamos perante um Instant Classic. No entanto, um dos maiores defeitos do álbum chega sob a forma da faixa 4, “Closed On Sunday.” Apesar de ouvirmos um instrumental um tanto assombroso e misterioso, os versos não são os melhores. West abre a faixa com um verso que ficará sem dúvida na mente dos ouvintes durante os próximos tempos e que até já deu origem a uma onda de memes web fora, “Closed on Sunday, you’re my chick-fil-a” — Chick-Fil-A é uma cadeia de fast food norte-americana que fecha aos Domingos e apesar de ser um verso divertido, acaba por quebrar um pouco a barreira entre um álbum sério e um álbum pateta. Além disto, os versos pouco desenvolvidos não acabam por aí: logo a seguir ouvimos West a dizer “Hold the selfies, put the ‘gram away” e mais tarde em “Everything We Need”: “What if Eve made Apple Juice?”. E ouvindo no geral os versos mais sérios, percebemos que West, apesar de amar Deus com todo o seu coração, não aprofunda muito sobre o tópico, acabando por parecer superficial e pouco fundamentado.

Além disto, e apesar de o lançamento do álbum ter sido adiado algumas horas devido a algumas falhas de mistura, no final trata-se de um disco que soa “feito em cima do joelho”, com problemas precisamente de mistura, transições demasiado abruptas e músicas aparentemente inacabadas.

Por outro lado, como seria de esperar, West adiciona mais um comentário polémico ao seu repertório (que já vai bastante grande), dizendo que rap é “música do diabo” e que para já não tem qualquer interesse em continuar a contribuir para a cultura do hip-hop. Para muitos fãs é um comentário algo hipócrita, visto que West muito dificilmente seria o titã da indústria da música e da moda que é atualmente sem o rap. Além disto, o artista é um dos principais responsáveis por trazer o hip-hop para as massas com o lançamento dos seus primeiros álbuns: antes de Kanye West, o hip-hop era maioritariamente dominado por “Gangster Rap” e foi ele quem alterou o estigma que rodeava o género e criou um estilo mais apelativo e, no geral, mais rico.

É um álbum muito longe de ser perfeito, com os seus pontos fortes à volta da produção e os pontos fracos à volta da escrita e da mistura. Mas no final das contas, o balanço é relativamente positivo e West deixa para trás um álbum fácil de digerir e que entretém o ouvinte durante os seus curtos 27 minutos de duração, sem que nos sintamos assim tão afetados pelos defeitos enumerados. Se West tivesse passado mais tempo a dissecar o álbum e a melhorá-lo, o resultado com certeza pareceria menos apressado e o conteúdo seria mais profundo.

Tive ainda a oportunidade de ver a curta metragem que acompanha o álbum e devo dizer que ambos se complementam bastante bem porque temos a possibilidade de visualizar o que West pretende com o álbum. A curta-metragem é uma experiência visual e sonora que contempla um número reduzido das faixas que constam no álbum, mas acrescenta-lhe uma faixa do seu álbum de 2016, The Life Of Pablo, e outros cânticos do Sunday Service Choir, que é o protagonista do filme. A curta passa-se inteiramente na Roden Crater, a obra mais conhecida do artista norte-americano James Turrell, que por si só já é um espaço mágico e único, dando a sensação de que é filmada num planeta longínquo do Sistema Solar ou, no limite, no Céu.

Pessoalmente estou curioso para o rumo que Kanye West vai dar à sua carreira porque das duas uma: ou esta re-invenção pessoal é permanente e a partir de agora só ouviremos álbuns de gospel (ou dentro do tópico Religião) ou West encontra algo que o inspira mais e muda totalmente de direção artística, tal como tem feito ao longo dos últimos anos. Ambos os caminhos são motivos de interesse porque West sempre foi insistente na sua arte e sempre mostrou às audiências aquilo que queriam ouvir, mesmo que numa aproximação inicial não pareça.

Texto de Pedro Caldeira