Libra, a prometida moeda do Facebook, está em lençóis dúbios

Revelada em Junho passado e com lançamento previsto para 2020, a moeda do Facebook – chamada Libra – parece estar a dar demasiadas dores de cabeça a Mark Zuckerberg.

Imagem via Facebook

Revelada em Junho passado e com lançamento previsto para 2020, a moeda do Facebook – chamada Libra – parece estar a dar demasiadas dores de cabeça a Mark Zuckerberg. Primeiro, a recusa de França e Alemanha em aceitar a divisa nos respectivos países; depois, a saída de alguns parceiros da chamada Libra Association; e, a somar a tudo isso, um processo judicial relacionado com a marca visual da carteira que o Facebook anunciou para a criptomoeda Libra.

Em Agosto, a Comissão Europeia começou a escrutinar a Libra do ponto de vista do seu enquadramento legal e anti-concorrencial, num processo que ainda se prolonga. Já no início de Setembro, França e Alemanha acordaram bloquear a criptomoeda Libra, lançada pelo Facebook e por uma associação de outras organizações. Num comunicado conjunto,citado pela Reuters, os dois Governos referem que “nenhuma entidade pode reivindicar poder monetário, que é inerente à soberania das nações”. Bruno Le Maire, o Ministro das Finanças francês, disse recentemente, à margem de uma conferência da OCDE, que as preocupações em relação à Libra são sérias e que, enquanto os riscos não forem devidamente avaliados, a divisa não deverá ser permitida na Europa.

Infográficos via Libra Association

Enquanto o Facebook lida com estes e outros problemas regulatórios e políticos, pelo caminho, também perde apoiantes. A Libra Association, formada para dar suporte à moeda homónima, perdeu alguns membros importantes. Depois do PayPal, Visa e Mastercard, o gigante do ecommerce eBay e os serviços de pagamentos Stripe e Mercado Pago decidiram abandonar a aliança formada por Mark Zuckerberg, abalando os planos deste para lançar uma criptomoeda global. Sobre a “portuguesa” Farfetch, membro integrante do grupo, permanece a dúvida assente no silêncio da empresa liderada por José Neves, como adianta o jornal ECO.

Citado pelo The Verge, um porta-voz da Visa disse que “decidiu não se juntar à Libra Association neste momento”, garantindo que vai continuar a avaliar o tema e que “a decisão final será determinada por vários factores, incluindo a capacidade da Associação de satisfazer plenamente todas as expectativas regulatórias necessárias”. Uma posição idêntica tomou o PayPal quando, uma semana antes, anunciou a sua saída: “Continuamos a apoiar as aspirações de Libra e esperamos continuar em diálogo quanto a formas de trabalhar juntos no futuro.”

As saídas da Libra Association ocorreram na véspera da reunião do conselho dessa associação (Libra Association Council), que decorreu esta segunda-feira, 14 de Outubro, em Geneva. O encontro contou, ainda assim, com 21 dos membros fundadores da associação –registando a saída de última hora da Booking Holding, a empresa por detrás das plataformas de viagens Booking.com, Kayak e Priceline, que disse que se tratou de “uma correcção, não um voltar atrás”. Nesse encontro foi eleito um conselho directivo de cinco pessoas da Libra Association, bem como uma equipa executiva. Entre os directores da associação, está David Marcus, do Facebook, antigo responsável pela aplicação de mensagens Messenger e com experiência em blockchain da Coinbase.

Em resposta aos abandonos, David Marcus comentou que “não são boas notícias a curto prazo, mas de certa forma é libertador”. “Uma mudança desta magnitude é difícil”, acrescentou, referindo-se ao lançamento de uma criptomoeda global como a Libra, que é um processo que acumula “muita pressão”. “Respeitos as suas decisões de esperar até que haja clareza regulatória sobre a Libra”, referiu também o executivo.

Entretanto, o Facebook está também a braços com outro problema. A Calibra, a carteira na forma de app que a empresa irá lançar para permitir aos utilizadores gerir a sua ‘conta bancária’ da Libra, tem um logotipo parecido com o de uma start-up financeira chamada Current. Esta empresa está agora a processar não só a Calibra, a subsidiária do Facebook que detém a sua propriedade intelectual, como a Character, a agência de design que desenvolveu o logo da Calibra. De acordo com a acção judicial, citada pela publicação CoinDesk, as marcas da Calibra e da Current foram desenhadas pela mesma empresa, a Character.

Imagem via Current/Twitter

Revelada em Junho, a Libra pode – se se concretizar o seu lançamento e se este for bem sucedido – vir a ser uma boa fonte de receita para a Facebook Inc, agora que o crescimento da empresa e da rede social está a abrandar. Entusiastas das criptomoedas acreditam que a entrada do Facebook neste mundo pode ser um incentivo para a sua democratização, depois dos esforços que duram há uma dezena de anos, desde a criação da Bitcoin.

Para além de tudo isto, há quem aponte que na realidade a Libra não é uma criptomoeda na verdadeira assunção do termo que se tornou popular; a sua estrutura centralizada em torno de uma associação composta por algumas das maiores empresas do mundo é um dos argumentos que sustenta esta leitura.