Marina Abramović (re)apresenta-se a Belgrado com a alma limpa

Quarenta e quatro anos depois, Marina Abramović regressa ao ponto de partida de uma volta ao mundo que ainda não acabou.

Marina Abramović noEric Ericson Hall, 2017 (foto via Moderna Museet / Åsa Lundén)

A separação entre artista e obra não se aplica a Marina Abramović. A sua vida é a sua obra, a sua obra é a sua vida. Recentemente inaugurada em Belgrado, cidade natal de Marina, The Cleaner é uma retrospetiva dos quase cinquenta anos de performance a solo, em dupla e de total entrega ao público. Quarenta e quatro anos depois, Marina Abramović regressa ao ponto de partida de uma volta ao mundo que ainda não acabou.

Mergulhar no universo de Marina Abramović significa inevitavelmente mergulhar na Jugoslávia de Tito, na tentativa de fuga da opressão e no revisitar de um passado que não está resolvido, mas que se vai resolvendo performance atrás de performance. O regresso a Belgrado representa mais um passo tanto na vida como na obra de Marina Abramovic, não só porque de lá partem todas as memórias de uma infância, adolescência e começo de vida adulta envoltos no comunismo, mas também porque dessas memórias surgem performances que repescam os fantasmas do passado que continuam vivos.

A vida como obra para Marina Abramović

Marina estudou pintura e, apesar da infância triste e solitária que confessa ter vivido, sempre teve apoio familiar para ser artista. Para Danica, a sua mãe, ser artista era uma profissão nobre e digna, na qual devia investir. O que Danica não esperava era que o médio ideal para Marina se expressar não fosse o mais tradicional e, por oposição, rasgasse todos os cânones da história da arte que até então estava escrita em livros e era ensinada nas escolas.

Ainda que se tenha lançado ao circuito artístico quando se mudou para Amesterdão e conheceu Ulay, o seu parceiro de vida e obra durante 12 anos, o percurso de Abramović traçou-se na Sérvia. Foi quando conheceu o grupo esloveno OHO — que rejeitava a arte como atividade separada da vida — que começou a perceber que havia mais formas através das quais se podia expressar. Inspirada pelo coletivo, foi propondo ideias para performances ao grupo cultural a que esteve associada durante vários anos em Belgrado, o SKC — foram todas rejeitadas. Depois de uma temporada em Zagreb, regressou a Belgrado e encontrou um SKC renovado e com uma nova diretora, Dunja Blažević. Sob a alçada de Blažević, o SKC ganhou um novo rumo e em 1972 recebeu a visita do curador escocês Richard Demarco, que convidou os artistas do coletivo para integrarem o festival de Edimburgo no verão seguinte.

Edimburgo foi o pano de fundo para a primeira performance de Marina Abramović, Rhythm 10. Sob o olhar atento de Joseph Beuys no público, apresentou-se com uma peça que consistia num jogo preconizado por camponeses russos e jugoslavos, no qual pousam uma das suas mãos abertas numa mesa de madeira e vão percorrendo os espaços entre os dedos com uma faca afiada. Sempre que falham os espaços (e acertam nos dedos) têm de beber um copo de alguma bebida alcoólica. De acordo com a Marina na sua auto-biografia Walk Through Walls, “como uma roleta russa, este é um jogo de coragem e loucura e desespero e obscuridade — o jogo eslavo perfeito”.

Através de Rhythm 10 e da euforia que recebeu do lado de lá, Marina Abramović percebeu que só a performance lhe permitia expressar-se da melhor forma e viver de uma sinergia com o público.

Uma sensação muito estranha apoderouse de mim, algo com que nunca tinha sonhado: era como se tivesse eletricidade a correr pelo meu corpo, e o público e eu nos tivéssemos tornado um. Um único organismo. A sensação de perigo na sala tinhame unido aos onlookers naquele momento: o aqui e agora, e em mais lugar nenhum.” – Marina Abramović sobre a performance Rythm 10 em Edimburgo, Walk Through Walls (tradução livre)

Na Holanda, na Austrália ou em Nova Iorque – sempre com os balcãs na memória

O ritmo de performance de Marina Abramović aumentou quando conheceu Ulay, um fotógrafo e performer alemão que viria a ser o seu parceiro de vida e obra durante 12 anos. Juntos pensaram e apresentaram por galerias e museus pelo mundo fora performances que se tornaram icónicas — como Imponderabilia (1977), Expansion in Space (1977) e Rest Energy (1980) —, viveram durante seis meses com uma tribo de aborígenes na Austrália — experiência que resultou na performance Gold Found By the Artists (1981) — e caminharam pela muralha da China, começando em cada uma das pontas, até se encontrarem a meio para simbolizar o fim de doze anos de parceria.

Ulay/Marina Abramović, Rest Energy, 1980 (foto de Marina Abramović Archives)

Por muito que a obra de Abramović com Ulay se centrasse na sua relação, o passado de Marina continuava presente e era frequentemente evocado para o conceito das obras a dois. Foi através de Ulay que deu finalmente um passo mais largo para fora de Belgrado, opção que acabou por se tornar favorável para a longevidade da sua obra. Em Belgrado a obra de Marina não era aceite; nem pelos compatriotas nem pela família.

Marina Abramović, Rhythm 5, 1974 (foto via Marina Abramović Archives)

Regressar a Belgrado 44 anos depois e com uma vida de reflexão dedicada ao seu país de origem, que se materializou em peças como Rhythm 5 (1974), Thomas Lips (1975) ou Balkan Baroque (1997), significa regressar a casa com a alma limpa de mágoa — essa foi ficando em cada performance, em cada museu, na memória de cada membro do público.

Marina Abramović, Balkan Baroque, 1997 (foto de Marina Abramović Archives)

The Cleaner: uma retrospetiva não é um adeus

A retrospetiva que passa agora pelo Museu de Arte Contemporânea de Belgrado e se mantém patente até ao dia 20 de janeiro foi pensada em colaboração com a artista. Antes da Sérvia – que é, aliás, o último ponto de paragem —, a exposição já passou pelo Museu Moderno em Estocolmo (Suécia), pelo Museu de Arte Moderna de Louisiana em Humlebek (Dinamarca), pelo Henie Onstad Kunstsenter em Oslo (Noruega), pelo Bundeskunsthale em Bonn (Alemanha), pela Fundação Palazzo Strozzi em Florença (Itália) e pelo Centro de Arte Contemporânea de Torun (Polónia). 

Para receber The Cleaner, ou Čistač em servo-croata, o museu teve de fechar durante todo o verão. A retrospetiva inclui mais de 120 obras de Abramović, entre pinturas, desenhos, fotografias, obras sonoras, filmes, vídeos de performance, objetos e outros materiais de arquivo.

A exposição pode ter tudo para parecer uma despedida de carreira, numa ideia romântica de acabar onde tudo começou, mas quanto a isso Marina Abramović esclarece qualquer tipo de dúvida ou ideia que daí possa advir: continuará a trabalhar até morrer.

Texto de Carolina Franco