7 notas rápidas sobre as legislativas

As eleições legislativas deste domingo definiram o rumo de Portugal para os próximos quatro anos.

 

As eleições legislativas deste domingo definiram o rumo de Portugal para os próximos quatro anos. A abstenção aumentou ainda que ligeiramente, há mais mulheres no Parlamento, três delas negras, e há também três novos partidos com assento parlamentar.

Estas são umas eleições importantes por diferentes motivos, e partilhamos de seguida algumas linhas de análise em que pensámos no Shifter:

1 – a abstenção

A abstenção aumentou ligeiramente em relação a 2015. Nestas legislativas votaram 54,5% dos 9,3 milhões de eleitores inscritos, enquanto que nas legislativas anteriores tinham votado 57,0% dos 9,4 milhões de eleitores inscritos. Feitas as contas aos números absolutos, foram votar menos 288 027 eleitores em relação às legislativas que fizeram nascer a “geringonça” e afastaram a coligação de Passos e Portas. Ainda assim, a abstenção foi inferior à registada nas europeias de Maio.

2 – diversidade

Há mais mulheres eleitas que em 2015. De acordo com as contas feitas pelo Público a Assembleia da República vai passar a contar com 89 mulheres em vez das 75 da anterior legislativa. Das 89 mulheres eleitas, 42 foram pelo PS, 26 pelo PSD, nove pelo BE, cinco pela coligação CDU (PCP + PEV), três pelo CDS, três pelo PAN e um pelo Livre. Este aumento de paridade de género segue uma tendência crescente que se tem verificado ao longo dos anos e que acelerou, em 2006, quando a Lei da Paridade passou a determinar que as listas políticas tenham pelo menos 33,3% de mulheres.

Todavia, não foi só em diversidade de género que o Parlamento português ganhou. Romualda Fernandes (PS), Beatriz Dias (BE) e Joacine Katar-Moreira (Livre) vão tornar a “casa da Democracia” mais negra, numa diversidade racial importante também para a tomada de decisões.

3 – novos partidos com assento

Há três novos partidos pequenos a entrar na Assembleia da República. Estas legislativas foram especialmente importantes – e inéditas – por terem dado voz a novas forças, em especial ao Livre e à Iniciativa Liberal, que conseguiram eleger um deputado cada. Representado no Parlamento passará também a estar o Chega, o partido de extrema-direita do comentador desportivo da CMTV André Ventura, com o próprio eleito como deputado.

Estes partidos procuravam sobretudo angariar eleitores indecisos/inexperientes (“és liberal e não sabias”), eleitores descontentes com o ‘rumo das país’ (“chega de corrupção”). O Livre e a Iniciativa Liberal são partidos relevantes principalmente nos grandes centros urbanos: foi nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto que estas vozes mais angariaram votos; enquanto que o Chega conquistou mais eleitores onde há menor poder de compra.

4 – novas formas de fazer política

São partidos novos e frescos; procuram fazer política de forma diferente, e podem agarrar uma nova geração de votantes que não se identifica com os “partidos de televisão” ou com a novela política que ocupa noticiários (partido A ataca e partido B defende-se, X disse Y sobre Z…). São partidos que estão na internet onde o novo eleitorado está, cada vez mais, e que, por vezes, seguem uma postura de guerrilha em relação às forças políticas pré-instaladas em Portugal. Não colam cartazes com mensagens vagas ou a com a cara do partido – apresentam propostas claras e têm uma mensagem mais evidente, a começar pelo seu próprio nome. Livre, Iniciativa Liberal e Chega são partidos que no seu nome não têm uma sigla, deixando mais claro o que representam e como se posicionam.

5 – lições para a comunicação social

A tendência de crescimento destas novas forças políticas era evidente, tanto na internet como na rua, e fez-se agora sentir nas urnas. Mas foi ignorada pela comunicação social. As televisões e jornais precisam de tirar algumas lições destes resultados eleitorais. A cobertura feita destas legislativas foi, como habitual, focada nos partidos e nas figuras do costume – interessou mais, por exemplo, a narrativa da maioria absoluta do PS que as ideias e campanhas dos pequenos partidos que poderiam vir a ganhar assento parlamentar e trazer propostas interessantes para o debate.

Com a eleição de um deputado cada, o Livre e a Iniciativa Liberal não ganharam apenas espaço na Assembleia da República mas igualmente tempo de antena nas televisões e jornais portugueses. São dois partidos que continuarão a ser considerados “pequenos partidos”, mas são agora “pequenos partidos com assento parlamentar” e a projecção mediática que vão ganhar irá permitir-lhes, previsivelmente, crescer. Nas próximas legislativas, já vão estar a debater na televisão com os “grandes”, direito que o PAN conquistou em 2015, quando elegeu um deputado e que em 2019 lhe valeu quatro.

6 – chegada da extrema-direita

Apesar de existir desde 2000 um partido de extrema-direita em Portugal, o PNR, o Chega – fundado só este ano, para as Europeias – demorou pouquíssimo tempo a chegar à Assembleia da República. O Parlamento português era dos poucos onde a extrema-direita ainda não tinha assento.

Ao contrário do PNR, o Chega não se afirma directamente como nacionalista mas, no nome, não esconde o seu propósito no meio da ambiguidade do que defende. No domingo, quem estava cansado da política de sempre, pôde literalmente dizer “chega” no boletim de voto, mesmo sem perceber o seu real significado – tal como o das outras promessas na base desta retórica agressiva. Estas eleições acabaram por mostrar como pode ser fácil o populismo ganhar votos, principalmente num país onde há poucas expressões do protesto e o mediatismo acaba por contar tanto. Sem contraditório lógico e racional, as frases agressivas da retórica deste partido (como “apenas 25 anos de prisão para monstros?” ou “100 deputados chegam e sobram”) – conjugadas com o mediatismo forjado pelo seu cabeça-de-lista – levaram-no a eleger um deputado nas primeiras legislativas a que se candidatam.

A subida do Chega não pode ser desprezada, mas também não deve ser demonizada. A Assembleia da República é um espaço com 230 cadeiras, apenas uma delas ocupada por uma força pendente para a extrema-direita. É, assim, preciso perceber que tipo de eleitorado optou por este voto de protesto e compreender, dentro do quadro português, rejeitando as tendências xenófoba e totalitária do partido, o que há a fazer junto deste eleitorado. Para análise é preciso não desconsiderar que André Ventura é comentador desportivo afecto ao Benfica nas noites da CM TV e se tornou numa figura de proa em casos mediáticos no âmbito desportivo, forjando assim a figura pública, a par do cargo de vereador pelo PSD em Loures.

7 – queda do CDS

Ao longo dos mais de quarenta anos de Democracia, o CDS centralizou a direita e impediu que determinadas pessoas se polarizassem em extremismos. O CDS terá de se renovar, quiçá com outro nome. Partidos como a Iniciativa Liberal ou o Chega são forças políticas renovadas, que nasceram numa era em que os jovens começam a desinteressar-se pela política e onde a informação circula cada vez mais online. O CDS é um partido da televisão. Com novas abordagens e formas de fazer política, forças como a Iniciativas Liberal, mais moderada, ou o Chega, mais extremista, parecem estar a roubar terreno ao CDS, que terá de decidir se volta ao centro democrático e social ou se continua na lógica de partido de direita liberal com uma mensagem difusa.

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