Uma segunda perspectiva sobre Parasite, o último filme de Bong Joon-ho

Parasite, do escritor e realizador Bong Joon-ho, não só é um dos arranjos cinemáticos mais impressionantes e arrojados do ano, como também a perfeita sintetização da alma e luta da Nova Vaga Coreana.

Foto via Neon/DR

(Nota prévia: já tínhamos publicado uma análise a Parasite, de Bong Joon-ho, que podes ler aqui. O presente artigo apresenta uma perspectiva diferente, que achámos pertinente partilhar.)

É seguro afirmar-se que a autodenominada “nova vaga” de cinema oriundo da Coreia do Sul durante o final dos anos 90 era, e certamente ainda é, uma das mais diversas e ecléticas conglomerações de ideias em celulóide a popular a paisagem cinematográfica mundial. Realizadores como Lee Chang-dong (Oasis, Peppermint Candy) visavam expôr uma audiência incauta a constantes conflitos morais com um formalismo extremamente naturalista, enquanto haviam autores como Park Chan-wook (Oldboy, A Criada) a compor narrativas bipartidas entre o realismo e o ​cartoon​, que irradiavam com sangue, vingança e uma constante e perversa ironia.

O elemento comum que compõe a totalidade deste movimento deriva da elevada ansiedade social que ferve sempre a lume brando no povo coreano. A sua longa história de injustiça social derivada da severa ditadura por que passou na segunda metade do século passado, a maré de paranóia que vai e vem com cada movimentação militar dos seus congéneres a norte, a frustração por uma falta de identidade própria consequente das várias invasões que sofreu ao longo dos anos… Duma forma ou doutra, todo o cinema coreano veio beber a este poço ao longo dos últimos 30 anos.

E é com isto em mente que não tenho a mínima hesitação em afirmar que Parasite, do escritor e realizador Bong Joon-ho, filme vencedor da Palma de Ouro da 72ª e mais recente edição do Festival de Cannes, não só é um dos arranjos cinemáticos mais impressionantes e arrojados do ano, como também a perfeita sintetização da alma e luta da Nova Vaga Coreana.

É praticamente impossível argumentar se é o melhor filme de todo o movimento (demasiadas obras-primas foram sendo exportadas pelo país ao longo dos anos para o dizermos com todas as certezas), mas é inegável que consegue criar uma ponte entre praticamente todos os estilos e ideias que o constituem, e fá-lo com uma coesão e foco absolutamente ímpares.

Mas então, de que se trata ao certo este filme? Pois bem, o filho da família Kim, extremamente pobre e até então totalmente desempregada, arranja emprego dando explicações de inglês à filha mais velha da abastada família Park na exuberante mansão destes. Embora isto possa soar demasiado vago, acho que explicar mais iria somente prejudicar o prazer que é ver esta trama desenrolar-se, simplesmente porque esta é daquelas narrativas que quanto menos se souber ​à priori​, melhor e mais intensa será a experiência, decorrendo numa sucessão de curvas e contracurvas, lombas e depressões, com uma ocasional espiral invertida metida ali pelo meio.

Foto via Neon/DR

Aquilo que poderei no entanto dizer é que Bong criou uma narrativa que, sem a mínima contenção, berra a plenos pulmões a injustiça social à qual a classe baixa da Coreia do Sul está sujeita. O realizador cospe no brilho estéril do mundo ​hightech​ do país e borra o ​gloss cor-de-rosa do seu movimento K-Pop, e mergulha-nos de cabeça na miséria a que certas pessoas têm de chamar casa, uma mistela de comida enlatada, caves húmidas, cheiro a urina, e um escárnio aberto por qualquer pessoa que seja mais afortunada que estes, escárnio este que os esvazia em meros pedaços de carne ambulantes, desprovidos de qualquer senso de empatia pelo próximo. Sem revelar muito, posso dizer que esta é possivelmente a manobra mais ousada de Bong, este retrato atípico duma família pobre, cujo infortúnio não resulta em generosidade, mas sim que busca subir na escada económica e social com uma absoluta ausência de escrúpulos. Um passo ou decisão em falso seriam suficientes para tombar esta delicada casa de cartas que Bong progressivamente monta ao longo de 130 minutos, mas a habilidade e inteligência da sua escrita nunca falha, e mostra-nos a totalidade do círculo vicioso de antagonização social que a disparidade entre classes pode gerar.

Por isso, é de louvar que, pelo meio deste caldo temático espesso, Parasite ainda consiga ser um filme extremamente divertido e cativante. Bong está constantemente a alternar entre mudanças, com cenas a transitarem suavemente de comédia ligeira para um poderoso melodrama, e ocasionalmente um molhar de pés no género de terror, funcionando tudo às mil-maravilhas porque o realizador sabe sempre como enquadrar e montar cada momento, quer seja no departamento de cinematografia como de edição. Os seus atores também são como peças totalmente afinadas dum carro desportivo, respondendo a cada input​ com um balanço tonal de total requinte. O ator Song Kang-ho em particular, colaborador frequente de Bong Joon-ho, é a figura perfeita para expressar todas as idiossincrasias do magnífico guião.

A coisa maravilhosa deste escritor e realizador está no facto de, ao longo de 25 anos de carreira, com filmes como Memories of Murder ou The Host, ter conseguido encapsular as mais diversas ideias da Nova Vaga Coreana num tipo de cinema extremamente acessível às massas. Parasite é o culminar de todo o seu longo esforço e o dos seus pares da indústria cinematográfica. Esperemos que este filme sirva como plataforma de lançamento para um futuro extremamente promissor para o cinema coreano. A ver se na próxima edição dos Óscares os coreanos finalmente levam uma estatueta dourada para casa. Já é mais que tempo.

Texto de Duarte Cabral