Foi Rosa Grilo que matou o interesse público?

O caso é caricato e merece atenção, escrutínio, e um julgamento justo. Mas agora pergunto-me em que contribui a comunicação social para que isso aconteça? A minha aposta é: em nada.

Foi Rosa Grilo que matou o interesse público?
Foto de Shifter

Antes de passar ao ponto concreto deste artigo, deixem-me que faça uma ressalva: o caso, conhecido na praça pública como “A morte do Triatleta” ou “O caso de Rosa Grilo” merece, tal como qualquer outro caso de justiça, ser investigado até às últimas instâncias — os seus culpados devem ser descobertos e severamente punidos. Mas a pergunta que me coloco cada vez que ligo a televisão e me deparo com directos sucessivos à porta do tribunal onde decorre o julgamento é — perdoem-me a frontalidade a que estamos pouco habituados — o que é eu tenho a ver com isso?

É verdade que o caso tem contornos estranhos, até porque num país onde o crime passional é uma infeliz constante não é assim tão comum que a vítima seja o homem; é verdade que todo o enredo parece digno de uma série da Netflix que ainda não percebemos bem se é mais ao jeito de Making a Murderer ou True Detective; mas, ainda assim, sobra a questão sobre qual destas nuances torna este caso digno de interesse público. Eu ajudo: nenhuma.

O interesse público não é uma categoria simples de definir e portanto aceito que digam que “é subjectivo”. De facto é, mas tanto quanto qualquer outra opção no campo social — e nesse sentido merece o nosso escrutínio. Porque até essa subjectividade se deve reger por alguns critérios a bem da sanidade do espaço público. E este é mais um daqueles casos em que o interesse público foi absolutamente atropelado pela sua versão light, vulgarmente conhecida como interesse do público.

Se o primeiro — aquele porque se deviam reger os critérios editoriais — se define por fornecer informações que sejam, de algum modo, úteis à audiência a que se destinam, neste caso começa a ser difícil vislumbrar onde se pretende chegar com tamanho circo mediático. O caso, pelos seus contornos peculiares, não é comum e portanto não serve de lição social para os demais; os envolvidos não são pessoas de interesse público; e o que da acusação pode resultar não nos afecta NEM UM BOCADINHO enquanto sociedade.

Devo agora confessar que a escrita deste artigo surge como expressão da minha estupefação perante um caso concreto. É que uma das audiências de Rosa Grilo coincidiu na mesma semana de uma das audiências de Julian Assange e a diferença na quantidade de notícias, análises ou sequer referências nos principais orgãos de comunicação social é um espelho de uma sociedade que vive entretida com minudências embalada pelos reality shows. Para efeito de contagem, deixo em baixo a captura de imagem da pesquisa na plataforma de indexação Google News — refira-se por clareza que os artigos do Expresso e da SIC são iguais, ambos assinados pela agência Lusa.

Devo agora voltar à ressalva com que inicio este artigo para que o meu ponto não saia prejudicado pela acutilância do que aqui escrevo. O caso é caricato e merece atenção, escrutínio, e um julgamento justo. Mas agora pergunto-me em que contribui a comunicação social para que isso aconteça? A minha aposta é: em nada. Mais uma vez recupero a ideia de que este julgamento tem pouco interesse social ou tão pouco político, pelo que entre a defesa dos arguidos, a acusação do ministério público e a justiça portuguesa, a comunicação social só serve para promover a devassa de um assunto que devia ser resolvido no âmbito da justiça e, por respeito à vítima, sem servir de entretenimento a milhares de telespectadores e de chamariz de audiências (leia-se lucro) para canais televisivos sob jugo da informação.

Informar deve ter por base a ideia de que o cidadão se pode servir do conteúdo transmitido para tomar melhores decisões para a sua vida — seja a nível pessoal, seja a nível eleitoral — ou, por outro lado, servir para chamar à atenção para uma realidade camuflada, como um caso de corrupção por investigar, ou uma situação de injustiça, como um julgamento enviesado por leituras políticas. Assim, torna-se evidente que não estamos perante informação mas, se quisermos, pela nossa versão subvertida de infortainment. Por cá, em vez de decidirmos informar com entretenimento, decidimos entreter com pseudo-informação.

Concluo aludindo a possíveis pensamentos do género “mas há outros canais” ou “mas quem é que ainda vê televisão”: a mesma violência que leva gerações jovens a ficarem agarradas ao ecrã para acompanharem o desfecho de Steven Avery na série Making Murderer engaja milhares de pessoas de outras gerações em frente à televisão a acompanhar o desenrolar do caso. E se não as podemos culpar pelo suspense do desfecho adiado que as mantém presas ao ecrã, devemos criticar quem à margem do que se propõe a fazer explora os mais básicos instintos humanos para desfocar a nossa atenção e, pior, desvirtuar aquilo a que se deve chamar informação.