Os bastidores da criatividade de… Rug by GUR

A GUR nasceu no Porto quando Célia Esteves foi convidada para participar numa exposição na sua cidade natal. Quando deu por si já criava tapetes bonitos e simples, fazendo uso de materiais reciclados escolhidos aleatoriamente em fábricas de têxtil.

A GUR nasceu no Porto quando Célia Esteves foi convidada para participar numa exposição na sua cidade natal. O objetivo era criar uma ponte entre os artesãos do artesanato tradicional e jovens designers. Quando deu por si já criava tapetes bonitos e simples, fazendo uso de materiais reciclados escolhidos aleatoriamente em fábricas de têxtil.

Adorámos tanto quanto a Célia as suas peças artesanais, e decidimos entrevistá-la para saber mais sobre o seu local de trabalho trabalho e as suas processo criativo.

Quando é que descobriste que o processo criativo que envolve dar vida a um tapete era similar ao processo criativo de outros objetos?

É engraçado porque não foi logo desde o início, só me apercebi um pouco mais tarde. Eu estava a trabalhar na Faculdade de Belas Artes como técnica de impressão, onde fazia trabalhos de ilustração, até que fui convidada para participar numa exposição coletiva, em Viana do Castelo, com vários designers e artistas, para trabalhar em colaboração com artesãos locais. 

Escolhi trabalhar com tecelagem e foi aí que tive o meu primeiro contacto mais artístico com a técnica porque até então a minha mãe também tinha um tear em casa, e estava habituada às técnicas tradicionais de artesanato em Viana do Castelo. Logo aí, essa exposição atraiu-me nesse sentido porque eu sempre gostei muito mais dos processos manuais do que propriamente da parte técnica do processo criativo. 

Foi a primeira vez que trabalhei com a Claudia, que continua a ser a minha tecedeira até hoje, fizemos um tapete para a exposição e eu gostei imenso do resultado. Senti que era um formato com muito potencial, uma vez que dava para passar histórias e imagens para o tapete. 

Nesse momento, comecei a aperceber-me do fascínio desta vertente técnica, que também implica criatividade, assim como o processo de execução. Quando estava na Faculdade de Belas Artes, o que me dava maior prazer era trabalhar com artistas e ver de que forma é que poderia concretizar o que eles pretendiam ou até acrescentar alguma coisa, ir alterando a imagem final durante o processo. E eu gostava de trabalhar assim em gravura também, não seguia muito as regras e ia fazendo um bocado intuitivamente e depois via o resultado, que era sempre uma surpresa. 

No GUR, percebi ao longo do tempo que estava a utilizar o mesmo processo, aplicado à realidade do tear. Começamos a inventar técnicas para ver o que respondia melhor ao desenho dos artistas e foi nesse momento que me apercebi que realmente eu estava a fazer o que gostava, a parte técnica, do processo, acompanhar e trabalhar com outras pessoas. A mim não me atrai tanto começar uma peça do início ao fim, que seja só minha. Gosto mais de trabalhar com outra pessoa que faça parte “criativa”, e que depois eu consiga acrescentar alguma coisa, ou transferir essa imagem para outro objeto. 

É difícil para mim falar especificamente de criatividade. Creio que a minha criatividade está mais associada ao momento em que transformo um objeto tradicional em algo mais contemporâneo, tentando transcrever os desenhos dos artistas para esse objeto. A criatividade está em todos esses momentos. 

Desenvolveste várias colaborações com outras marcas e artistas como Atelier Bingo, Casa Mãe ou William Luz. Como é que começa o teu processo criativo? 

Eu dou liberdade total ao artista. Apesar de procurarmos adaptar-nos ao longo destes anos, a verdade é que a forma como eu trabalho com o tear tem muitas limitações. Existe uma Seleccção do trabalho que é possível produzir. A partir daí, eu dou liberdade total aos artistas de fazerem o que quiserem, não têm que seguir um registo de trabalho que eu já tenha visto. Há artistas que me apresentam propostas completamente novas, que nem têm nada a ver com o trabalho que eu vi, o que dificulta o mesmo trabalho e, ao mesmo tempo, me desafia. 

É normal que, durante o processo, tenham de existir alterações às propostas apresentadas pelos artistas. Nós trabalhamos com restos de algodão reciclado, por isso temos algumas limitações nesse sentido. E depois a mistura de todos estes factores acabam por fazer com que o resultado final seja sempre uma surpresa. Eu costumo dizer que um GUR nunca é uma cópia de um desenho, mas antes uma transferência desse desenho para uma técnica, com todas as limitações e surpresas que isso traz.

O “papel e caneta” são importantes para a criatividade no teu dia-a-dia? 

C: Uso-os todos os dias! Claro que quando estou no tear não uso tanto mas tirando isso estou sempre a usar o papel e a caneta, às vezes só para rabiscar qualquer coisa ou até para me concentrar ou tirar apontamentos. Agora passo muito mais tempo no computador do que no tear, e apesar de tudo sou uma pessoa muito desorganizada, então tenho de ter sempre um caderno ao meu lado para apontar as coisas que tenho de fazer durante o dia. 

No processo criativo também tiro partido destas ferramentas, até porque vou tirando apontamentos, apesar de fazer o desenho técnico em digital. Posteriormente, quando sai a impressão do desenho, e antes de ir para o tear, eu vou fazendo apontamentos sobre o desenho por isso diria que são ferramentas que estão sempre na base de tudo. 

Tens alguma espécie de truque ou técnica, para garantir que o teu ambiente de trabalho destaca a tua criatividade? 

Eu sempre quis ter um espaço colaborativo porque, apesar de trabalhar com muita gente no GUR, é tudo digital, são poucas as vezes em que tenho oportunidade de ter os artistas cá a trabalharem comigo. É uma realidade na qual eu já estava habituada nas Belas Artes, já que eu estava sempre rodeada de pessoas, um ambiente muito movimentado em colaboração, conversas, partilha de experiências, técnicas e conhecimentos com outras pessoas. Aqui somos uma mistura de trabalho, criatividade e fontes porque acabamos por desenvolver projetos e ideias para a galeria – e é esta partilha de conhecimento que me atrai.

Considerando que trabalhas com artesãos, qual é o processo que envolve o desenvolvimento de produtos e como é que geres os inputs dos diferentes artesãos?

Os artesãos acrescentam muito a cada trabalho. Eu aprendi tudo o que sei no tear através da minha tecedeira. Ela continua a saber muito mais do que eu e aconselha-me sempre. Quando vê um desenho em que eu sugiro usar certas técnicas, ela acaba sempre por me ajudar no melhor caminho a seguir, por isso a opinião dos artesãos é sempre valorizada, até pela experiência que eles têm de muitos anos. A minha tecedeira principal começou a trabalhar no tear com 15 anos, há que respeitar esse conhecimento e aproveitar também essa sabedoria que ela tem. É muito importante no processo partilhar ideias com ela. 

O teu pensamento criativo envolve juntar a tradição e a modernidade. Como é que geres esta ligação na criação de uma nova peça? 

Com a modernidade não diria. Trazer uma técnica que estava um pouco parada no tempo e atualizá-la para os gostos mais contemporâneos, mais jovens, diria até. 

Eu não me identifico tanto com a palavra modernidade mas antes contemporâneo, porque continuamos a usar as mesmas técnicas e materiais que se usavam antes, por isso o processo não mudou em si, e é nesse sentido que associo mais à palavra modernidade.

Que técnicas de produção e com que materiais gostaste mais de trabalhar? E quais é que gostarias de explorar mais a fundo? 

Gostava de explorar ainda mais a tecelagem, ir procurando novos materiais, novas técnicas porque depois de estares alguns anos a fazer quase sempre a mesma coisa, dentro das mesmas técnicas, queres explorar mais a área a outros níveis. 

Ao mesmo tempo, tenho saudades das técnicas de impressão mas não sei se vai muito por aí… Gostava de poder ter uma oficina pequenina, mais pela gravura, até. 

Recentemente comecei um projeto novo em prata, chama-se FAVA, e gostava de explorar mais essa parte da ourivesaria. É uma vontade que tenho, tenho que arranjar tempo mas gostava de explorar mais.

Como – e até que ponto – é que outras áreas criativas influenciam o teu trabalho? 

Creio que a ilustração é uma das áreas criativas que mais me influencia, até porque estou muito rodeada disso aqui no espaço colaborativo, mas também o design gráfico, outras técnicas de tecelagem e, mais recentemente, a ourivesaria. No dia a dia procuro conhecer outros artistas e diferentes projetos de tecelagem por inspiração e curiosidade de perceber o que se anda a fazer dentro do mesmo patamar que eu em termos de colaborações, mantendo-me atualizada nesse sentido.

Quanta liberdade acreditas que o facto de seres criativa te dá? 

Já não me vejo a fazer outra coisa, sinceramente. Estive 5 anos na Faculdade de Belas Artes, uma altura em que tinha um horário fixo, e aí soube que não queria mesmo estar enfiada num escritório o dia todo. 

Depois encontrei mais conforto quando fui para as técnicas de impressão, era muito mais manual, o processo era mais físico e eu não me aborrecia com tanta facilidade como quando estava no computador o dia todo. 

Ainda assim, hoje em dia passo boa parte do tempo no computador mas estou num ambiente super relaxado, trabalho para mim própria, por isso isso existe uma grande diferença, consigo ter estabilidade financeira, e não tenho que procurar fazer coisas que não me realizam. 

 

Mishmash Creatives é uma série criada entre o Shifter e a marca de material de escritório minimalista Mishmash que procura perceber como é o trabalho de designers e de criativos portugueses ou residentes em Portugal, e como eles usam os produtos da Mishmash.