S. Pedro está de volta para provar que este não é só “Mais Um” álbum

A Avenida da Liberdade foi o local escolhido para entrevistarmos Pedro Pode, ex-membro da banda doismileoito e agora a solo, S. Pedro, com o seu mais recente álbum Mais Um.

Foto de Joana Matos/Shifter

“…é apenas “Mais Um” mas podes pensar que é mais um disco espetacular de S. Pedro, estás a perceber? Pode ser mais um disco altamente, sabes?”, e assim o diz S. Pedro acerca do seu mais recente álbum Mais Um, um álbum repleto de pequenas histórias cantadas, um repertório consistente e um pouco de ironia e humor para juntar aos ingredientes. Lançado a 13 de Setembro, o sucessor do álbum O Fim (trabalho que marcou o inicio da sua carreira a solo) conta com 11 músicas, leva-nos às suas origens, mais precisamente ao Norte, Maia. Ex-namoradas, família, amigos e até histórias com algum teor álcoolico no sangue são alguns dos temas que fazem parte desta panóplia de histórias. Sentados num modesto banco de jardim fomos saber mais sobre o novo álbum de Pedro Pode.

Perto da hora de almoço e em plena Avenida da Liberdade esperávamos a entrevista. O ponto de encontro era o Tivoli, mas devido a um engano comum, nós fomos ter ao Hotel Tivoli, enquanto que o nosso artista do Norte esperava no teatro Tivoli. Após o desencontro inicial e com tudo resolvido, o típico banco de jardim da Avenida da Liberdade foi palco da tão aguardada conversa.

Foto de Joana Matos/Shifter

Mais Um marca a viragem de S. Pedro da melancolia e solidão do último álbum. Num registo mais simples mas também mais consistente, o novo disco retrata a descomplicação de temas que são muito próximos do cantor e demonstram a simplicidade com que os trata — temas banais mas aos quais S. Pedro dá outro ar, mais belo, mais rico e acima de tudo, que comprovam que Pedro Pode não é apenas mais um. A notória presença de acordes de guitarras fica completa com um lirismo mais simples e concreto e a voz a que S. Pedro já nos habituou, libertadora e agradável à primeira instância. Ao ouvirmos a sua música, a nossa imaginação leva-nos a dois lugares: num momento estamos a apanhar sol numa praia deserta e distante, no outro saímos à rua, inspiramos aquilo que a natureza tem para nos dar e ouvimos “Passarinhos”, que já andavam a cantar antes do lançamento do trabalho e que dão também o nome à segunda música do álbum, lançada a 5 de Julho e que antecipava o segundo disco. Essa foi a primeira de muitas histórias que compõem o álbum, numa viagem às origens de Pedro Pode e à proximidade que lhes sente e que faz questão de convidar o ouvinte a sentir também. São estes pequenos detalhes que, mais notórios neste segundo álbum, consolidam e projectam a sua já vasta carreira.

 

Foi notável que no último álbum muitas das músicas retratavam assuntos sérios, mas eram cantadas de forma ligeira, com uma melodia calma e divertida. Neste novo álbum sentes que mantiveste essa estratégia em mente ou decidiste adotar uma nova?

Neste álbum preocupei-me mais, o primeiro disco eram só musicas antigas que tinha, e não tinha uma editora não tinha nada, nem sabia que aquilo ia acabar num disco, tinha um estúdio (tinha acabado de montar um estúdio), tinha algumas músicas e decidi ir gravando, músicas essas que ainda eram dos Doismileoito e ainda compunha nos Doismileoito e então precisava de música para gravar, fui gravando e acabou num disco, e tu quando tens um grupo de dez músicas pensas imediatamente num disco. Pus o disco — sei lá onde pus o disco — no Bandcamp ou assim, Facebook talvez, e depois o pessoal da editora viu, curtiu e disseram-me assim: “Epá muito fixe temos de re-editar o disco” e eu “Pronto, ’tá bem”. Lá saiu o disco e agora houve a possibilidade de sair mais um disco e este foi mais consciente

Já foi mais trabalhado.

Ya, já queria que fosse… Porque o outro disco não era para ter sido tocado ao vivo, este já foi mais desenhado para ser uma coisa mais de banda.

Em O Fim, uma das músicas que acabou por dar um ar mais pesado ao álbum foi a “Joaquim”, a história de um homem que aspirava ser piloto mas acabou por se conformar com o banal. Temeste acabar como o Joaquim? A música foi uma espécie de declaração de intenções?

Sim, ainda agora penso nisso e acho que qualquer músico/compositor acaba por sentir um bocadinho isso que é, a música é tipo futebol. Se pensares no futebol, a carreira de qualquer futebolista é curta, chegas aos trinta e montaste dinheiro e conseguiste abrir uma pastelaria ou algo qualquer, ou estudas para ser treinador ou algo associado ao clube, ou senão és um gajo que vai vivendo daquilo que ganhaste durante os teus tempos de futebolista, e na música, se fores só músico/intérprete pode acontecer um bocadinho isso. No meu caso, eu tenho sempre a parte da composição, componho sempre para outros músicos, tenho um estúdio e também produzo para outros músicos, ou seja, aposto em tudo o que tenha a ver com música. É algo que eu gosto e que me foi apaixonando.

Sendo que o último disco se chama Fim e como explicaste à RTP, “foi o arrumar de uma série de coisas que tinhas para resolver”, o que significa para ti este Mais Um?

Essa interpretação normal que as pessoas fazem de que é apenas mais um, mas podes pensar que é mais um disco espetacular de S. Pedro, estás a perceber? Pode ser voz entusiasmada “mais um disco altamente”, sabes? Mas neste caso, o Mais Um foi mesmo um bocadinho isto, não vou estar a inventar que tive um filho e então apareceu mais um lá em casa e eu sou só mais um nisto de brincar às bandas e de dar concertos e de dar entrevistas de promoção. Eu sou mais um a fazer isto e na realidade é só mais um disco e para este disco estou um bocadinho desligado. Não quero dizer que estou desligado, também não quero dizer que estou com expectativas, também não quero dizer que me estou a “cagar” para este disco, mas não estou a pensar muito naquilo em que este disco se pode transformar, é só mais um disco, que na minha vida como músico é tipo o quinto ou sexto disco que eu faço, então é só mais um disco. E com os outros a pessoa alimenta muito a esperança e às vezes o plano sai furado e neste não tenho plano nenhum, apenas acho o disco do caraças e espero que ele ganhe vida própria e que as pessoas venham aos concertos e façam cliques nos YouTubes, nos Facebooks, porque essa é a única maneira ou é aquela primeira forma imediata das pessoas apoiarem as bandas que gostam, sabes? É dando esse retorno, esse amor através das redes sociais, e isso alimenta o ego do músico, a malta está a gostar e é um alento para o pessoal continuar, nem sempre é o dinheiro, sabes? Tem de vir de outro lado essa motivação, muitas vezes vem dos likes e vem do número de visualizações e as rádios comem com os olhos se tu tiveres muitos likes vais passar na rádio fixe e se tocares na rádio fixe vais ter mais concertos e se tiveres mais concertos, o teu cachet aumenta, pá, e de repente tu és uma banda que está instituída.

Foto de Joana Matos/Shifter

Recentemente afirmaste que o mais importante é a viagem e que de momento estás “…nessa viagem e está a ser fixe”. Ao ouvirmos este álbum por onde queres que viajemos?

Pá gostava que fossem até à minha casa, até à minha rua, até à Maia. Conhecer os meus amigos, os meus pais, o meu filho e o meu gato que morreu há duas semanas, falo dessas coisas muito próximas mas não estou a convidar-vos diretamente, estou a mostrar às pessoas que ouvem o disco que falo daquilo que me é próximo, não sou muito poético quando falo das coisas.

Estás preso a um cabo USB/Tens dedos só para comunicar, também és vítima do vício do telemóvel ou preferes, como o título da música, apanhar sol?

Também não apanho muito a vitamina D, devia apanhar mais, mas não, não tenho nenhuma relação com as redes sociais, aliás, nas redes sociais são eles, a malta da editora, que me anda a “chicotear” para eu pôr mais qualquer coisa, mas não tenho aquele perfil “Então malta tá tudo?”, não tenho Instagram e também tenho levado “porrada” por causa disso. Eu acredito piamente que daqui a uns anos o fixe vai ser não ter redes sociais, não quero alimentar isto de “Quem é o gajo” e parecer meio enigmático mas só não tenho esse perfil de partilhar aquilo que eu faço com as pessoas, aquilo que visto, que uso, a única coisa que quero partilhar é a minha música com as pessoas.

Defines-te como um “grande escritor”, o que motivou a tua escrita no novo álbum?

Pó c******, eu defino-me como grande escritor?!

Sim, apanhei essa frase numa entrevista.

Ó caraças, eu sou um grande escritor?! Estava assim com um tom irónico pa’ caraças, nunca na minha vida iria dizer isso sem ser num tom irónico. Mas, na realidade, sou um grande escritor, sou um grande compositor, agora que falas nisso. Mas sei lá, para a minha mãe sou um grande escritor. Nem para os meus amigos sou um grande escritor, mas o que me motivou foram sempre as mesmas coisas, ex-namoradas, a minha família, os meus amigos, as histórias que os meus amigos me contam que eu às vezes acho que são minhas porque estava toda a gente com os copos e já ninguém sabe se aquilo era verdade, mas tudo muito próximo, sempre. Tudo muito concreto, sabes? Pouco poético. Apenas relato as coisas que vão acontecendo, às vezes embelezo um bocadinho os finais e embelezo um bocadinho a história que não era assim tão bonita ou tão interessante na realidade e adornei-a um bocadinho, mas fora isso a base é sempre muito real e muito quotidiana, muito próxima.

Foto de Joana Matos/Shifter

Em O Fim tens uma visão um tanto negativa sobre o mundo que te rodeia, no teu novo álbum é sentida uma nova descoberta de felicidade, é um exercício de mudança de perspectiva?

Sou um gajo muito otimista, mas n’O Fim há uma crítica. Há o primeiro que é assim mais down, não é? Porque o primeiro disco do S. Pedro gravei sozinho e é mesmo muito melancólico e deprimente gravar um disco sozinho, porque simulas às vezes um coro que não existe, foste tu que fizeste uma voz fininha, depois fizeste uma voz estranha para parecer que há muita gente e isso às vezes é muito triste; às vezes convidava para irem lá ao estúdio: “Pá façam só aqui uma vozinha para parecer outros timbres”, e neste disco é um disco mais de banda, o Cláudio, na bateria, o Sérgio nas teclas, o Tó Barbot no baixo, a Andreia e a Marta a fazer coros agora ao vivo, e eu, claro. E, opá, este sexteto é o que está a apresentar este novo disco, eu precisei de muita gente para apresentar este disco, que é um disco que tem muitos elementos e então não quis ir em “power trio” apresentar uma coisa que ia ficar um bocadinho aquém do que o disco é, para dar um bocadinho de justiça à textura que tem o disco.

Foto de Joana Matos/Shifter

Os doismileoito foram uma banda que te catapultou para o mundo e abriu portas para todo o tipo de sucesso, hoje em dia ainda existem fãs curiosos com o porquê do fim do projeto. Será que esses fãs podem esperar um regresso da banda ou foi uma fase sem retorno?

Não tenho uma resposta muito concreta, basicamente os doismileoito, – mais uma vez é tipo namoradas – há aquelas namoradas com quem manténs uma relação fixe e há aquelas que não podes ver à frente e neste caso foi uma coisa muito bem resolvida, imagina, os doismileoito existiram entre os vintes e os trintas, e então é uma altura em que tu enquanto pessoa estás a passar de rapaz para homem e acontece muita coisa na tua cabeça e então foi uma coisa mágica que aconteceu e de facto tocámos muito, tocámos na China, tocámos em quase todas as ilhas dos Açores, tocámos em Marrocos, tocámos em quase todos pontos de Portugal que poderia conhecer e como podes imaginar, seis amigos na estrada foi uma diversão do caraças, mas chegou aquela altura em que tivemos de decidir caminhos e nem toda a gente estava na mesma página e não andávamos a bater no ceguinho, foi cada um para o seu lado. Agora somos muito amigos mas musicalmente não há um interesse ou achamos que não temos nada a ganhar em tocarmos uns com os outros e uns nem continuaram como músicos portanto… Mas é uma coisa muito amigável e a banda na realidade não acabou, percebes? Não é uma coisa estranhíssima, não houve um último concerto e na altura falou-se nisso, “Temos de dar um último concerto para oficializar este fim”, pá, ficou em aberto, um dia se calhar voltamos a tocar, não sei, mas já surgiram convites.

O que tem S. Pedro que não tem o Pedro Pode?

Sabes que eu não me chamo mesmo Pedro Pode, o meu avô chamava-se António Pode, mas não saltou para a minha mãe. Eu chamo-me Pedro Pereira, mas na altura achei Pode e fiquei muito triste por não me terem passado esse nome- É uma espécie de nome artístico que na realidade é o nome da minha família ao qual não tive direito. Eu ainda estou a pensar mudar para Pedro Pode, porque depois sinto-me mal porque “-Ah, então chamas-te Pedro Pode? -Não é bem Pedro Pode, é Pedro Pereira”, mas pronto, nome artístico é Pode. Portanto o Pedro também é uma coisa que não é muito real, agora o que separa o Pedro Pereira do Pedro Pode/S. Pedro não é rigorosamente nada, é exatamente o mesmo gajo. Há pessoas, há bandas que fazem com que o palco seja uma coisa espetacular e que seja uma coisa inatingível em que se for preciso vão pôr o casaco de cabedal e põem-se em cima do monitor e tal: “Pá vocês estão em baixo, eu estou aqui, luzes fumo e tal” e eu vejo as coisas de outra forma. Eu estou aqui a falar contigo mas se calhar se o palco estivesse aqui montado, eu a seguir ia dar um concerto e gosto que as pessoas pensem que o gajo que está em cima do palco é o mesmo que está aqui (a falar contigo). É desmistificar isto do palco, portanto se S. Pedro faz isso, se faz com que o Pedro vá para o palco, não há diferença nenhuma, é uma extensão do Pedro Pereira do Pedro Pode.

Fotos de Joana Matos/Shifter