Os sacos de pano são melhores que os de plástico?

Não é linear que os sacos de plástico sejam piores para o ambiente que os de pano... ou que os de papel.

Foto de Mel Poole via Unsplash

Armou-se uma espécie de guerra ao plástico. A UE legislou o fim do chamado ‘plástico de utilização única’, supermercados e outras empresas estão a eliminá-lo da sua oferta, e existe agora uma consciencialização colectiva pela adopção de alternativas de papel ou de pano, que podem ser reutilizáveis. Sim, o ‘plástico de utilização única’ é mau, mas não pelo plástico em si – é precisamente pela parte do “utilização única”. No fundo, a regra de ouro a seguir é a seguinte: usar menos coisas mas usar essas coisas mais vezes, e comprar menos coisas novas.

Agora, são os sacos de plástico piores que os de papel ou os de pano? A resposta não é tão imediata quanto parece. No fundo, depende das variáveis para as quais olhamos. Os sacos de plástico que provavelmente encontras nos supermercados (ou encontravas) têm o nome técnico de LDPE – isto é, de “Low-Density Polyethylene” (em português, “Polietileno de Baixa Densidade”). Esses sacos, mais finos e com pouco polietileno, como o próprio nome indica, não são biodegradáveis e podem ir parar aos oceanos, o que é mau para o ambiente; todavia, ignorando o factor lixo e olhando somente para a forma como são produzidos, pode dizer-se que são uma opção mais ecológica que os sacos de papel ou os de pano.

Imagem via Governo da Dinamarca

É que o impacto da produção desses sacos LDPE nas alterações climáticas são reduzidos, tendo em conta a libertação de ozono, o uso de água, a poluição atmosférica, etc. De acordo com um estudo promovido pelo Governo da Dinamarca em 2018 de avaliação dos ciclo de vida dos produtos, um saco de algodão orgânico tem de ser reutilizado 20 mil vezes para ter um impacto ambiental igual a um saco LDPE (analisando todo o impacto ambiental associado à produção de ambos os sacos); já um saco de algodão convencional tem de ser reutilizado 7,1 mil vezes – o estudo tem como base o pressuposto de que o algodão orgânico tem uma taxa de rendimento 30% mais baixa que o algodão convencional e, por isso, supõe—se que exija 30% mais recursos, como a água, para crescer na mesma quantidade. Mesmo ajustando a produção de algodão orgânico para usar menos fertilizante e pesticida, o algodão convencional sobressai. O relatório dinamarquês assume também que o algodão não pode ser reciclado, dado existir pouca infra-estrutura para reciclagem de têxteis.

Tipo de saco Reutilizações necessárias para ter os mesmos impactos para as alterações climáticas que um saco plástico clássico Reutilizações necessárias para ter o mesmo impacto ambiental cumulativo (uso de água, uso de energia etc.) que um saco plástico clássico
Plástico clássico (LDPE), reutilizado como saco do lixo 1
Plástico clássico (LDPE) com uma pega rígida, reutilizado como saco do lixo
Plástico reciclado 1 2
Polipropileno não tecido 6 52
Polipropileno tecido 5 45
Tereftalato de polietileno reciclado (PET) 8 84
Poliéster 2 35
Papel não branqueado 43
Papel branqueado 1 43
Algodão orgânico 149 20 000
Algodão não orgânico 52 7 100

Segundo este estudo e o Quartz, os sacos de plástico LDPE apenas precisam de ser reutilizados uma vez para o seu impacto ambiental ser mitigado, o que geralmente acontece quando esses sacos são usados como sacos de lixo; o relatório diz que a incineração, processo ao qual o lixo é muitas vezes submetido, é a melhor solução possível para esses sacos de plástico. Além dos sacos de pano, o Governo dinamarquês também olhou para os sacos de papel, que devem ser reutilizados 43 vezes para terem o mesmo impacto no meio ambiente que as alternativas LDPE.

Numa altura em que em várias parte do mundo (não só na UE), os sacos de plástico de utilização única começam a ser banidos, este estudo dá-nos outra perspectiva em relação ao tema da ecologia. O plástico não é necessariamente mau; e o papel e o pano não são necessariamente melhores. O melhor, como dizíamos no início, é a reutilização dos materiais, como sacos do lixo, por exemplo. Comer menos carne e equilibrar com outras opções alimentares, ir de bicicleta ou a pé ao supermercado em vez de ir de carro, e comprar mais produtos localmente pode ter um impacto mais positivo no ambiente que deixar de usar plástico. Mais importante que o saco que usas, é aquilo que colocas nele e a forma como o transportas de um lado para o outro. E não esquecer que os sacos de papel também têm efeitos negativos, como a desflorestação, por exemplo.