O baralho do Joker: violência, saúde mental e humor

Quebrou-se um tabu com o filme Joker: arriscar uma degeneração lenta de um homem para chegar a um rascunho do conhecido arquivilão. Até este momento, havia sempre algo de mágico, repentino, que quebrava um homem ou então simplesmente  desconhecia-se a origem da personagem.

“They’ve given many origins of the Joker, how he came to be. That doesn’t seem to matter—just how he is now. I never intended to give a reason for his appearance. …I never wanted to change it at that time. I thought that it takes away some of the essential mystery.” J. Robinson

Quebrou-se um tabu com o filme Joker: arriscar uma degeneração lenta de um homem para chegar a um rascunho do conhecido arquivilão. Até aqui, havia sempre algo de mágico, repentino, que o quebrava ou então simplesmente desconhecia-se a origem da personagem. O filme de 2019 não pega nessa opção mitológica. Pega na figura de um homem real e é mais perturbador e assustador por isso. A sua caminhada é também uma reflexão sobre interacção entre as mais diversas formas de violência, que estão longe de se esgotar na forma aguda e sobretudo física.

Pegando na literatura (Oxford Textbook of Violence Prevention: Epidemiology, Evidence and Policy), é sabido que os laços entre agressores e vítimas se estendem no passado nos factores de risco: abusos físico, emocional e sexual, conjugados com toxicodependência, abandono ou reclusão. Adicionam-se meios onde a educação – escolar, comunitária e doméstica – falha para com os jovens e, possivelmente, onde o sentido de pertença os puxa para actividades de risco e ilegais. É visível a espiral de exposição e resposta que torna os indivíduos presas fáceis de um ambiente de violência estrutural, que os envolve em vários componentes da sua vida.

A violência é multifacetada e relaciona-se entre vários níveis, desde o indivíduo, os seus contactos próximos, comunidade e contexto global. Este filme ilustra-o muito bem, decompondo-a a vários níveis. Primeiro, a violência aguda que irá merecer mais atenção; até mais importante, a violência crónica: a doença mental, o convívio com a doença mental, os estilhaços; a violência no local de trabalho; a violência social, a falta de oportunidades e a injustiça.

Figura 1. Uma tipologia de violência. Retirado de: World report on violence and health: summary. Geneva, World Health Organization, 2002.

Provavelmente, a maior ou menor apreciação de parte do filme dependerá da capacidade de assumir as dores de Arthur. Os primeiros minutos são muito familiares para quem teve problemas do foro depressivo. A lentidão dos planos e o castigo das cordas musicais fazem o maior serviço à problemática da saúde mental. A cena não é bonita, não é rápida. Tal como boa parte da doença é lenta, insidiosa, arrasta-se, torna tudo cinzento e lamacento. A marcha inicial de Arthur é pesada. Cada passo é uma epopeia. E a interpretação está no ponto, levando-nos a uma importante reflexão sobre o tempo. O tempo é tratado na filosofia como algo que não se restringe à sua passagem objectiva e utilitária. Bergson projecta o indíviduo no futuro por um élan vital e esta perspectiva diacrónica de uma existência dinâmica ofereceu à investigação em Saúde Mental (até por afinidade entre Psicopatologia e Fenomenologia) uma nota essencial relacionada com a vivência temporal. É intuitivo pensar num abrandamento do tempo vivido em estados melancólicos e numa aceleração, por vezes desenfreada, em momentos de euforia.

Neste particular brilha um dos actores secundários do filme: umas escadas. As escadas. O peso de cada degrau no regresso a casa, derrotado. Iluminado por uma fotografia muito bem conseguida. Uma recuperação do dia e o aconchego dos sonhos ao lado da mãe. A descida das escadas mais tarde marca também a libertação de Joker. Passos leves da transformação. Uma outra aplicação do célebre “Chaos is a ladder” de Game of Thrones. Ou ainda a alusão indirecta ao paradigmático “As you know, madness is like gravity…all it takes is a little push” do Dark Knight.

Navegamos em códigos sociais não escritos no tempo e espaço. A falha de leitura dos momentos e formas é muito frequente, mesmo para quem não tem patologia de relevo. Infelizmente, alguma doença mental dificulta ainda mais essa leitura. E aperta-nos o coração: oportunidades perdidas. Uma das frases de Arthur carrega na dificuldade de socialização: “The worst part of having a mental illness is people expect you to behave as if you don’t.

É evidente (porventura demasiado fácil) a mostra dos riscos de uma sociedade que não cuida dos mais vulneráveis e do quão perigoso é deixar as margens desprotegidas.

And why should we believe you?”

I’ve got nothing left to lose. Nothing can hurt me anymore. My life is nothing but a comedy

Subindo de nível, e mais perturbadora, surge a imagem da apoteose do anti-herói retirado do carro da polícia e levado em braços para o seio do caos. A aceitação social e o reconhecimento da visão niilista profética. Uma imagem bíblica, incomodativa e de adoração de um louco em tempos de loucura. Algum paralelo se poderá traçar para os tempos actuais, embora alguns possam considerar excessivo ou novamente demasiado fácil.

Podemos identificar à arte uma função escapista mas, no entanto – muitas vezes –, é nela que encontramos as formas mais organizadas de expressão da realidade (“The only difference between reality and fiction is that fiction needs to be credible”, atribuída a Mark Twain). Como acrescenta Bergson: “...a arte não tem outro objectivo senão afastar os símbolos praticamente úteis, as generalidades convencional e socialmente aceites, por fim tudo o que nos mascara a realidade, para nos pôr frente a frente com a própria realidade.

O acto de contar uma história – e o cinema fá-lo de forma mais ou menos conceptual – poderá, de certa forma, ser visto como uma ordenação de algo intrinsecamente desordenado. A própria biologia, que nos habituamos a classificar grosseiramente como previsível e intuitiva, pulsa por meio de equilíbrios em constante mutação, em múltiplas escalas e relações hierárquicas que se interceptam e se regulam. O conhecimento de que dispomos nos dias correntes coloca um selo de anacronismo à absoluta clivagem entre a herança genética (nature) e o meio (nurture), sobretudo com o surgimento da teoria unificadora da epigenética que, de um modo simplista, afirma que existe um vector contrário: a nossa mera existência, e – como tal – o próprio meio, é determinante para a expressão, ou não, genética. Embora se tenha esbatido a barreira entre a genética e meio, ou entre o intrínseco e o extrínseco, interessa, ainda assim, definir que o meio se inicia em ambiente uterino. Sem alarmismo, tudo conta a partir de então.

Admitindo que não nos chega sobreviver talvez valha a pena destacar a importância de como nos é apresentada a vida. Tendo por certa a ideia de que não existirão fórmulas perfeitas, esta tarefa – que, por motivos óbvios, delegamos a terceiros – representa porventura a mais árdua incumbência e, como tal, faz-se por caminhos acidentados e hesitações várias. John Bowlby, fabuloso denunciador de puzzles complexos por afirmação de que não nos podíamos negar ao recrutamento de teorias desenvolvidas pelas mais diversas disciplinas, prestou uma justa homenagem à dimensão etológica ao desenvolver conceitos como a vinculação e/ou base segura.

O filme concretiza bem a imagem do quão violentos podem ser circunstâncias e momentos que nada têm de óbvio da violência física. A leitura do processo clínico da mãe é um dos momentos mais violentos. Fecha-se o círculo do absurdo. A infância fica sublimada numa descrição de uma criança atada a um radiador – saltamos no tempo, imaginamos a dor e sofrimento, fazemos o arco de ligação causal contributivo entre passado e presente. Outro momento paradigmático é a simples procura de afecto numa brincadeira com uma criança que é rapidamente destruída por uma mãe zelosa. A expressão incomum de afecto em doentes psiquiátricos é, por vezes, difícil de reconhecer e a poda bruta dessas oportunidades de ligação é, por sua vez, comum.

Imaginando a infância de Arthur, não existe a sensação de segurança (na qual se inclui a disponibilidade e o afecto) que permite à criança se dispor sem receio à descoberta dos objectos que habitam o seu mundo. A descobrir os outros e os seus estados mentais. Esta capacidade de representar e projectar – no fundo, de transcender – é o que nos habilita a partilhar, por abstração, o sofrimento alheio e, por tal razão, a condicionar o comportamento por essa variável.

Uma base segura revela-se também, e no início da vida a segurança confunde-se compreensivelmente com dependência, pela brincadeira e é através do jogo que treinamos precocemente a aptidão para a integrar a dúvida e para o valor hipotético. Por outras palavras, treinamos a capacidade de atribuir previsibilidade ao que é por certo imprevisível. O filme ilustra bem os meandros de uma maturação patológica de dependência em seio familiar, coadjuvada por circunstâncias de abuso cuja extensão é difícil de determinar.

Por triunfo da insegurança e, como tal da arbitrariedade, tentaremos encontrar um modelo de resposta a um mundo ameaçador que, em regra, resulta em sofrimento para o próprio. Ao hostil tendemos a responder com hostilidade, mesmo que por meios subliminares à vista desarmada. A questão da ordem vs. caos, a ansiedade do controlo é parte importante da mitologia do Joker vs. Batman. A violência da adaptação às circunstâncias e a dissonância entre expressão e sentimento também ecoa na projecção da mensagem materna: “She always tells me to smile and put on a happy face. She says I was put here to spread joy and laughter.

A construção do caos do filme, que acaba por o penalizar enquanto obra cinematográfica, acaba por ser uma homenagem provavelmente involuntária à arbitrariedade e ao Joker enquanto personagem maquiavélica, que, afinal, se orgulharia, em outras iterações, de levar tantos a percorrer os passos do seu trajecto. Como a terrível cena do hospital do Dark Knight demonstra: “Y’know they’re schemers. Schemers trying to control their little worlds. I try to show the schemers how pathetic their attempts to control things really are.

Num exercício simplista de divisão entre estrutura e contexto, é legítimo afirmar que as experiências precoces encerram maior potencial de infundir na dimensão estrutural. No entanto, a expressão anglo-saxónica womb-to-tomb é autoridade. Bowlby talvez acrescentasse a dimensão etológica e, por inerência, a herança filogenética (every individual life is at the same time the eternal life of the species, Carl Jung). Ao isolar e desnudar uma personagem que integra um universo mitológico, opta-se por lhe conferir uma dimensão humana por clivagem da sua história e das suas vivências. Perde a dimensão transcendental, infinita e é nessa nova finitude interpretativa que encontramos correlações com a nossa própria biografia. A tangibilidade e empatia afasta-nos de um juízo maniqueísta porque, afinal, podemos ser vistos de uma determinada perspectiva como vítimas das nossas circunstâncias. O tema da inimputabilidade e da responsabilidade individual também são inerentes ao julgamento de várias acções de Arthur. Não estando, à partida, em causa a dimensão reflexiva da consciência, torna-se difícil – sendo nós alumiados por regras morais claras relativamente a manifestações de violência explícita e objectiva – chegar ao ponto de legitimação do padrão de comportamento. Mas somos arrastados através dos antecedentes que o alimentam.

Por efeito colateral – por ser duvidoso que à arte seja pedida qualquer responsabilidade nesse foro –, é pela identificação e familiaridade que o tema da saúde mental aflora. O filme é uma ode de fragmentos que poderão ser usados como desmistificadores da doença mental em aulas de psiquiatria e psicologia por esse mundo fora, com bons e maus exemplos. Um dos seus grandes feitos é mesmo fazer da verdade uma vítima, como tantas vezes é o caso das doenças mentais graves e dos relatos produzidos.

O filme peca na alusão a perigosidade num ser desorganizado. O brilhantismo maquiavélico do Joker original nunca seria compatível com patologia tão grave como é sugerida. Mais problemática do que todo o filme, apenas uma citação no Dark Knight: “His name’s Shiff, Thomas. He’s a paranoid schizophrenic, a former patient at Arkham. The kind of man the Joker attracts”. Estigma desnecessário, como explicado aqui.

A doença mental é muitas vezes exposta, na cultura popular, de forma fantasiada, romantizada ou mitificada. O afastamento de um rigor clínico que permita a desejável adesão à realidade apresenta um potencial pernicioso, mesmo que das melhores intenções se revista. É essa confusão que acaba por determinar a utilização de entidades clínicas como adjectivos, em regra carregados de valor injurioso.

Talvez seja pouco interessante ensaiar concepções diagnósticas, até porque obrigaria, por prudência ética, a adendas várias alusivas a critérios nosológicos e – especialmente relevante para o objecto em análise – aos valores dimensional e categorial em saúde. Todos estes tópicos se cruzam com o conceito de normalidade que está longe de ser um mero aspecto estatístico. Destacamos apenas uma das marcas escolhidas para a desconexão de Arthur – o afecto pseudobulbar. Decorrente de lesões traumáticas ou patologias neurodegenerativas, é caracterizada por expressão emocional, como choro ou riso, incongruente com o plano ideativo e contexto.

Em Joker, é rebatível que o balanço global para a saúde mental seja positivo, nomeadamente na relação que se estabelece entre patologia mental e violência. A existir, além de apresentar correlação bastante intrincada, passa predominantemente por actos que colocam próprio indivíduo em risco, dor que obviamente afecta família e amigos. Caberá também a quem pode esclarecer, tomar a oportunidade de o fazer e desmontar estigmas. A questão da organização dos cuidados na comunidade é actual e urgente — a debatida reforma dos cuidados de saúde mental, com destaque para o acompanhamento das doenças no seio da comunidade e integração da cadeia de prevenção e cuidados. A importância da estabilidade do seguimento de patologias complicadas e, também, do compliance terapêutico são evocados de forma clara por Arthur: “You don’t listen, do you? I don’t think you ever really listened to me. You just ask the same questions every week. ‘How’s your job? Are you having any negative thoughts?’ All I have are negative thoughts.

Relativizando a força dos eventuais estereótipos passados pelo filme e, sobretudo, suavizando a cadeia causal que possa ser especialmente controversa, há quem reveja exactamente o mesmo contexto de camadas e determinantes que contribuem para a abordagem da doença mental, violência e criminologia.

Apesar dos riscos, o filme presta um bom serviço global à saúde mental. Arthur arrasta-nos na sua viagem. Pesada, lenta. Estranha-se? Ainda bem, é assim que a patologia mental muitas vezes é. A relação por vezes difícil com a medicação que dá a mínima sustentabilidade a vidas difíceis. A prisão a que alguns aludem e que condicionam os prazeres que antes tinham. E um ponto essencial do filme: afinal, o que é real? O filme deixa-nos a adivinhar no início, durante e fim essa questão. O que também corresponde ao peso da verdade e dúvida na vivência quotidiana da doença mental.

I used to think that my life was a tragedy. But now I realize, it’s a comedy.

O riso descontextualizado de Arthur faz recordar Bergson no seu ensaio sob o riso: “só onde a pessoa de outrem deixa de nos comover pode começar a comédia. E começa com aquilo a que poderíamos chamar a crispação contra a vida social”. De forma síncrona ao filme, a TSF fez uma peça sobre o “síndrome do palhaço triste”. Robin Williams é o exemplo-mor do raciocínio, juntamente com outros comediantes e o clássico dos Watchmen:

Man goes to doctor. Says he’s depressed. Says life seems harsh and cruel. Says he feels all alone in a threatening world. Doctor says, ‘Treatment is simple. Great clown, Pagliacci, is in town tonight. Go and see him. That should pick you up.’ Man bursts into tears. Says, ‘But doctor, I am Pagliacci.

Nietzche alude ao papel catártico do riso e da possível ligação entre sofrimento(de forma geral, inconformidade) e o humor: “O homem sofre tão terrivelmente no mundo que se viu obrigado a inventar o riso.” Há espaço para filosofia que baste no filme, com destaque para o niilismo.

Não existindo uma base para assumir como entidade nosológica o “palhaço triste” nem existindo uma relação causal simples entre a doença mental, sobretudo a depressão, e a capacidade humorística, a figura de Joker também alude à capacidade de sublimação da comédia. Após um homicídio brutal, encontramos espaço para uma gargalhada com um anão aos saltos para abrir uma porta e consequente pedido ao homicida para lhe dar uma ajuda. O jogo de humor e violência encontrou também no Dark Knight momentos de especial brilhantismo:

Monty Python democratizou o acesso ao absurdo. Joker pode tê-lo feito do ponto de vista do trio do absurdo existencial, da doença mental e humor. Bergson acrescenta: “a comédia situa-se a meio caminho entre a arte e a vida. Não é desinteressada como a arte pura” — viajamos entre as linhas do humor e verificamos a brutalidade da mensagem moralista nas piadas forjadas no desespero da vida de Arthur.

O humor é uma ferramenta social. Por vezes cruel, muitas vezes redentora. No jogo de contrastes das circunstâncias terríveis de um palhaço, temos um espelho das incongruências e inconformidades entre expectativas e agruras da vida. Levados ao absurdo, transportados pela violência numa obra de arte que, embora tenha as suas falhas evidentes, certamente inspirou e continuará a inspirar diálogos apaixonados sobre as suas múltiplas camadas de interesse.

Esperamos que o trabalho de Joaquin seja reconhecido. Noutras circunstâncias, o responsável pelo gémeo demoníaco de origem incerta, Heath Ledger, estaria lá para o aplaudir. São os dois responsáveis por figuras que nos deixarão sempre a pensar.

Imagem de @YannDalon

Texto Escrito por:

Bernardo Gomes, Médico de Saúde Pública @BLMG

Gulherme Bastos Martins, Médico Psiquiatra @g_bastosmartins

Links para outros artigos sobre o filme:

https://www.publico.pt/2019/10/26/opiniao/cronica/moda-merda-1891233

https://www.publico.pt/2019/10/20/mundo/opiniao/fenomeno-joker-loucura-mundo-1890683

https://www.smh.com.au/culture/movies/as-a-psychiatrist-i-was-blown-away-by-the-latest-joker-20191024-p5340p.html

https://expresso.pt/podcasts/pbx/2019-10-31-PBX-Joker-um-filme-que-e-apenas-um-sucesso-comercial-ou-tambem-um-tratado-sobre-doencas-mentais-

Agradecimentos:

@CyrilPedia, @camandro, @mao_insivel, @jdiogospbarbosa, pelos contributos

@GaianBrito, @dianaportela e ao @Anibaleter pelo incentivo à escrita.

@tspascoal pela persistente alusão ao tema.