Simpósio sobre “resistência” traz Richard Stallman, Rafael Correa e muito mais a Lisboa

Simpósio terá entrada gratuita e estará integrado na programação do Lisbon & Sintra Film Festival, dirigido por Paulo Branco.

Integrado na programação do festival dirigido por Paulo Branco, Juan Branco, seu filho, vai organizar nos próximos dias 15, 16 e 17 de Novembro um simpósio internacional dedicado à temática da resistência. O encontro servirá de espaço de debate e reflexão, e contará com algumas figuras que personificam a resistência em diferentes campos sociais e temáticos – do ‘Pai do Software Livre’, Richard Stallman, ao activista português Miguel Duarte, sem esquecer o ex-Presidente do Equador Rafael Correa, o ex-ministro das Finanças grego Yanis Varoufakis (presença por confirmar), o activista chinês Chen Guangcheng, ou o jornalista e hacker Jacob Appelbaum.

O simpósio, que tem entrada gratuita, vai acontecer em quatro espaços distintos – Espaço Nimas, Centro Cultural Olga Cadaval, Universidade Lusófona e Teatro Tivoli – com os diferentes convidados de Juan Branco, um dos advogados de Assange e figura de proa nas críticas a Macron, a serem estruturados em painéis e acompanhados em alguns caso por filmes. Afinal de contas, o simpósio de Juan está integrado na programação do Lisbon & Sintra Film Festival, festival internacional de cinema organizado pelo produtor Paulo Branco.

“Entramos hoje numa fase de resistência. Estruturalmente. Num momento da história que fará surgir e multiplicar gestos que, num primeiro momento, surgirão isolados, mas que progressivamente se irão cruzar, se irão opor, até se integrarem completamente num todo”, lê-se no texto de apresentação do simpósio, assinado por Juan Branco e que podes ler na íntegra em baixo. “Resistir é antes de tudo agir para pensar. Agir porque pensamos. Agir para produzir um pensamento. Avançar em contramão perante uma ordem existente, opor-lhe uma força viva, e recusar a submissão que até então era exigida, inscrita em corpos vergados, em espíritos prostrados.“

A informação actualizada sobre o evento está aqui.

Programação

  • Sexta, 15 – 21h30 – Espaço Nimas – filme Passámos por Cá (2019), de Ken Loach + debate “Revolução e Sociedade: Como Lutar Sobre a Questão Social?”; com Juan Branco, Maxime Nicolle, Mehdi Belhaj Kacem e Salah Dabouz
  • Sábado, 16 – 12h00 – Centro Cultural Olga Cadaval (Auditório Acácio Barreiros) – filme Fome (2008), de Steve McQueen, apresentado por Juan Branco
  • Sábado, 16 – 14h00 – Centro Cultural Olga Cadaval (Auditório Acácio Barreiros) – abertura oficial do simpósio com o mote “Qual é o estado do Mundo?”; introdução de Juan Branco; e apresentações de Omar Barghouti, Dominique Beyreuther Minkov, Olivier Goudet, Maxime Nicolle, Salah Dabouz, Chen Guangcheng e Minna Salami
  • Sábado, 16 – 16h00 – Centro Cultural Olga Cadaval (Auditório Jorge Sampaio) – debate “Virtualidade da Resistência, Resistência na Virtualidade”; com Jacob Appelbaum e Juan Branco
  • Sábado, 16 – 17h30 – Centro Cultural Olga Cadaval (Auditório Jorge Sampaio) – filme Comportem-se Como Adultos (2019), de Costa-Gavras + debate “Quo Vadis Europa?”; com Costa-Gavras, Yanis Varoufakis, Luigi de Magistris, Omer Shatz, Maxime Nicolle e Miguel Duarte
  • Sábado, 16 – 21h00 – Universidade Lusófona (Sala Fernando Lopes) – Joker (2019), de Todd Philips + debate “Uma Revolução das Bases Ainda é Possível?”; com Maxime Nicolle, Salah Dabouz e Yvane Goua
  • Domingo, 17 – 14h00 – Teatro Tivoli BBVA – debate “Lutas Locais, Lutas Mundiais: Uma Nova Ecologia da Resistência”; com Minna Salami, Olivier Goudet, Ashish Kothari e Guilherme Serôdio
  • Domingo, 17 – 12h00 – Teatro Tivoli BBVA – debate “Resistir à Violência”; com Luigi de Magistris, Omar Barghouti, Mehdi Belhaj Kacem, Dominique Beyreuther Minkov e Yvanne Goua
  • Domingo, 17 – 15h00 – Teatro Tivoli BBVA – debate entre Paulo Branco e Francisco São Bento, Presidente do Sindicato Nacional dos Motoristas de Matérias Perigosas (SNMMP)
  • Domingo, 17 – 15h30 – Teatro Tivoli BBVA – palestra “Resistir contra Plataformas e Sistemas Informáticos Injustos”, com Richard Stallman
  • Domingo, 17 – 17h00 – Teatro Tivoli BBVA – debate “Reinventar o Mediterrâneo: Da Palestina aos Refugiados, passando pelo Magreb e Pelas Revoluções Árabes”; Salah Dabouz, Omar Barghouti, Omer Shatz, Mehdi Belhaj Kacem e Miguel Duarte
  • Domingo, 17 – 18h30 – Teatro Tivoli BBVA – palestra com Rafael Correa
  • Domingo, 17 – 20h00 – Teatro Tivoli BBVA – intervenção de Chen Guangcheng (vídeo-entrevista)
  • Domingo, 17 – 21h00 – Teatro Tivoli BBVA – filme Marighella (2019) , Wagner Moura (2019) + conversa com Wagner Moura

Convidados

*Presença a confirmar

Texto de apresentação do simpósito

Resistência. Nesta palavra, um tremor, característico de uma radicalidade inerente àqueles que não se conformam perante as injustiças. Resistir significa, primeiramente, sair do quadro estabelecido, tomar por certo um perigo que obrigará a desfazermo-nos de constrangimentos pré-existentes, a empunhar, a partir do nosso corpo e do nosso espírito, uma força telúrica feita para velar, e que de repente é chamada a erguer-se.

Resistir é antes de tudo agir para pensar. Agir porque pensamos. Agir para produzir um pensamento. Avançar em contramão perante uma ordem existente, opor-lhe uma força viva, e recusar a submissão que até então era exigida, inscrita em corpos vergados, em espíritos prostrados.

Resistir é inscrever-se num colectivo, que, quando subitamente falha, apela ao sacrifício, a gestos que nunca deveriam ter existido. É inscrever-se numa longa história de gestos dissimulados. É inscrever-se numa estrutura que pensávamos não existir.

Entramos hoje numa fase de resistência. Estruturalmente. Num momento da história que fará surgir e multiplicar gestos que, num primeiro momento, surgirão isolados, mas que progressivamente se irão cruzar, se irão opor, até se integrarem completamente num todo. Até se tornarem um só nesse lugar onde o inimigo teria tentado rasurar a multiplicidade.

Mas além da polissemia dos significantes históricos, a resistência envolve, antes de tudo, a qualificação do ser. A explosão do político e dos edifícios simbólicos, das hierarquias e das estruturas pré-existentes, leva a um combate espectral, difícil de levar a cabo e sob o risco permanente de cair na insignificância: o inimigo já lá não está, porque é omnipresente.

Num continente condenado à inexistência que resulta da fragmentação do poder tradicional, inicia-se então um equilíbrio de forças cuja natureza é incerta, e que procura, em nome da afirmação de um ser, ultrapassar essa multiplicidade fugidia. As linhas de fuga começam a estreitar-se, e comunidades inesperadas a formar-se.

Será necessário, como antigamente, ingressar numa luta corpo a corpo? Voltar a correr riscos num lugar em que tudo conduz à ruína? Que matrizes adoptar num mundo pós-marxista e carente de ideologia própria? A quem nos podemos aliar? De quem nos devemos afastar?

E, perante o aparecimento de monstros distópicos que combinam poderes e forças, estruturas e fluxos, massas e corpos, que lutas devemos levar avante para que nos possamos impôr e não apenas resistir?

Juan Branco,
curador