La Repubblica revela como Assange e todos os que o visitaram terão sido espiados

Jornalistas, advogados, políticos, artistas e até os médicos que visitaram Julian Assange durante a sua estadia na Embaixada equatoriana em Londres terão sido alvo de espionagem sistemática. Revela investigação do jornal italiano.

Foto via Shifter

A revelação é feita por Stefania Maurizi, jornalista do periódico italiano La Repubblica. Jornalistas, advogados, políticos, artistas e até os médicos que visitaram Julian Assange durante a sua estadia na Embaixada equatoriana em Londres terão sido alvo de espionagem sistemática. Para além de gravação áudio e vídeo de conversas presenciais que foram tidas na embaixada, a reportagem da jornalista italiana (que alega ter tido acesso a material produzido pela empresa espanhola UC Global e enviadas para o serviço de inteligência dos Estados Unidos da América) avança que até as fezes de um bebé terão sido analisadas para, através de um teste de ADN, perceber se não se tratava de um filho secreto de Assange.

As suspeitas já vinham de trás mas começaram a ganhar contornos mais realistas quando José de la Mata, da Audiência Nacional Espanhola – um tribunal de alta instância do país vizinho – abriu uma investigação à empresa UC Global. Esta firma, sediada em Jerez de La Frontera, era responsável pela segurança da Embaixada do Equador em Londres e foi acusada de violar os direitos básicos de Julian Assange através de práticas sistemáticas de espionagem, o que levou até à detenção de David Morales, o seu director executivo, entretanto libertado mediante o pagamento de fiança. A empresa espanhola está, no entanto, sob investigação por alegadamente ter ordenado a intercepção de conversas privadas de Assange e por, para além, disso, ter passado toda a informação aos serviços secretos norte-americanos – sem que para isso tivesse qualquer legitimidade.

Jornal italiano diz ter tido acesso a evidências de espionagem

Agora é o jornal italiano, La Repubblica que garante ter tido acesso a imagens e vídeos desta empresa e revela mais pormenores sobre as tácticas utilizadas para espiar tudo e todos – até a própria Stefania Maurizi, que visitou Assange enquanto jornalista. Entre as imagens a que teve acesso, Stefania identificou uma fotografia do seu telemóvel a ser aberto, provavelmente para que fosse recolhido o IMEI – o número único de cada aparelho móvel e que, como alerta Snowden, permite a sua localização em qualquer parte do mundo.

Na extensa peça do La Repubblica, a jornalista traça uma cronologia da ascensão da UC Global, que, apesar de ser pouco conhecida, tem um papel preponderante no caso de Assange desde 2012. Foi nesse ano, que por ter concedido asilo a Assange, o Governo do Equador contratara a então pequena firma espanhola para suprir as lacunas de segurança da embaixada – nomeadamente através da instalação de câmaras de videovigilância. Segundo a peça, esse terá sido um dos primeiros contratos da empresa que tinha como objectivo a partir daí escalar para outros acordos que lhes pudessem ser vantajosos. Segundo antigos empregados da UC Global, ouvidos pela investigação jornalística e mencionados na reportagem, terá sido o alto perfil do caso de Assange que permitira a Morales pôr a sua empresa em determinados círculos, nomeadamente ao serviço da inteligência norte-americana – uma colaboração que terá subido de nível aquando da eleição de Donald Trump.

Firma espanhola terá vigiado tudo e todos

Reportando como evidência os depoimentos dos ex-colaboradores da empresa, e-mails trocados internamente, vídeos e fotografias, o La Repubblica explica como as tácticas de espionagem usadas pela empresa de Morales evoluíram no período da administração Trump. As câmaras de videovigilância foram substituídas por outras com a capacidade de gravar áudio e até se chegou a ponderar a instalação de microfones que fossem capazes de escutar pelas paredes – num dos e-mails citados pelo jornal, o director executivo da UC Global terá pedido aos seus colaboradores que investigassem a composição das paredes da embaixada. Até a estratégia usada por Assange de emitir um white noise para fintar a gravação dos microfones fora tacticamente contornada com instalação de microfones mais próximos do seu lugar nas salas de reuniões.

Quanto aos encontros visados, a reportagem da publicação italiana reitera que ninguém escapou ao crivo da videovigilância e da investigação sobre as suas vidas pessoais – desde o filósofo croata e defensor de Assange Srecko Horvat, até aos jornalistas que o visitaram, como Sarah Harrison, passando pela rapper M.I.A. Todos os encontros foram gravados e, em alguns dos casos, a “perseguição” não se ficou por aí. O jurista Baltasar Garzon terá mesmo sido fisicamente seguido, o jornalista Andy Müller-Maguhn teve o seu telemóvel comprometido e quase todos os convidados de Assange viram o seu perfil escrutinado. Como é revelado, entre as imagens guardadas há até uma de Assange a ser examinado pelo seu médico.

Uma situação sensível

O caso, que mediaticamente pode gerar controvérsia – uma vez que Assange revelou informações também elas confidenciais –, deve ser visto à luz do direito e sobretudo analisado sob o filtro da responsabilidade que pessoas, empresas ou países devem assumir em diferente grau. Em causa está uma violação grosseira do direito à privacidade de Assange, que estava alegadamente sob protecção por estar em regime de asilo, do trabalho dos jornalistas na protecção das suas fontes e, numa das violações mais graves, a vigilância dos encontros entre advogado e cliente.

A agravar tudo isto está a partilha deste material, obtido de modo obscuro, com os serviços de inteligência dos Estados Unidos, que o poderão utilizar para montar a acusação, o pedido de extradição e o consequente julgamento do homem que revelou ao mundo, entre outras coisas, os crimes de guerra praticados em solo afegão e iraquiano (e que, curiosamente, é acusado de ter ajudado na eleição de Trump).