Seremos os Mad Men do Século XXI?

Tabaco, tecnologia e críticas sociais numa série passada nos anos 1960 que nos fazem pensar nos dias de hoje.

Se há coisa que valorizo numa série televisiva são críticas sociais escondidas entre enredos simples e fáceis de acompanhar. E nos mês passado tive a magnífica ideia de começar a ver Mad Men. Ainda só estou na segunda temporada da série, mas já cheguei à conclusão de que nunca vi nenhuma série com tantas críticas sociais. Papéis de género, capitalismo americano, racismo, homofobia e poluição são apenas alguns dos muitos tópicos contemplados ao longo dos poucos episódios que tive oportunidade de ver.

Apesar de todas estas críticas (que ainda são muito atuais nos dias de hoje), a que me deixou mais impressionado foi a do tabaco. Não por ser a mais grave entre as que enumerei, mas por me ter feito pensar num paralelo muito semelhante na nossa sociedade atual.

Estava eu sossegado a ver um episódio e reparo que toda a gente fuma constantemente: estejam dentro de casa, no avião, ao pé de crianças, grávidas, enfim, a lista continua interminavelmente e dou por mim a perguntar-me, “mas estas pessoas não percebem o quão nocivo para a saúde é o tabaco?”. Pois bem, a realidade é que na altura em que a série se desenrola (anos 1960), pouco ou nada se sabia acerca dos efeitos a longo prazo do tabaco, na saúde das pessoas que fumam e das pessoas nas suas redondezas. Já se tinham feito alguns estudos e inclusive já tinham começado campanhas para sensibilizar a população dos perigos, mas grande parte simplesmente ignorava o que lhes era dito e esta conclusão levou-me a pensar em algo inquietante.

Nos tempos que correm, o uso de dispositivos eletrónicos nunca foi tão acentuado: levamos o nosso telemóvel para – literalmente – todo o lado, usamos o computador diariamente e muita gente já usa smartwatches e pulseiras para monitorizar os seus sinais vitais. Para além disto, as telecomunicações estão no seu ponto alto e já há várias empresas a anunciar que brevemente teremos dispositivos 5G na nossa mão, uma tecnologia que fará com que as comunicações se façam a uma velocidade muito superior à atual (independentemente de já terem sido feitos alguns estudos sobre as consequências para a nossa saúde). E na minha opinião, isto é apenas o início. No futuro vamos ter cidades inteiras minadas com antenas poderosíssimas, sensores e microprocessadores para nos monitorizar e (dizem eles) melhorar a nossa qualidade de vida. Mas com uma evolução tão exponencial e com uma alteração tão grande na quantidade de radiação a que somos expostos, custa-me acreditar que não exista qualquer consequência para a vida como a conhecemos.

A verdade é que ainda não passaram anos suficientes para sabermos se este uso é prejudicial ou não para os seres vivos a longo prazo. Não sabemos até que ponto é que os nossos filhos ou os nossos netos não terão problemas de visão, de coração ou até mesmo na geração de descendência. É verdade que a tecnologia nos traz avanços fantásticos na qualidade da nossa vida, mas será que é assim tão necessário termos constantemente o nosso bolso a receber e a enviar informação e os nossos olhos constantemente bombardeados por ecrãs? E será que precisamos mesmo da velocidade extra que o 5G nos proporciona?

Para concluir, deixo a seguinte pergunta: será que no futuro haverá séries televisivas que retratam o dia a dia nos anos 1920 do século XXI, e entre críticas sociais como a ascensão da direita política, a contínua diferença salarial entre géneros e o impacto de um mero like, estará o uso excessivo de tecnologia? Já consigo imaginar a cena: a Maria, influencer de Instagram, a escolher que foto há de pôr a seguir para continuar a manter os seus followers, com o computador no colo. De repente, recebe um telefonema no seu iPhone novinho em folha (talvez o 12 ou o 13, quem sabe?) e depois de o atender, coloca o telemóvel de volta dentro do bolso. E a audiência em choque porque em 2070 já se sabem exatamente as consequências destes pequenos grandes atos para a saúde humana.

Ou então é algo totalmente seguro e toda esta crónica torna-se irrelevante. De todas as formas e com tanta incerteza, uma coisa vos garanto: ando sempre com o telemóvel no bolso de trás ou nem sequer ando com ele para possivelmente mitigar qualquer problema futuro.