A mancha de petróleo no Brasil que quer duplicar a sua produção

Apesar de o óleo só ter dado à costa no final de Agosto, a investigação sobre as causas deste desastre revela que os seus primeiros indícios terão surgido no meio do oceano pelo menos um mês antes. E é aqui que começa uma intricada história de inoperância, culpas e desculpas que até hoje marcam a agenda no Brasil.

Foto do Governo de Sergipe/DR

Em mais de 280 praias do nordeste brasileiro uma maré negra assustou populares e levou até à superfície as notícias de um desastre ambiental ao largo da costa, numa escala sem precedentes. O negro dos mares invadiu os areais a 30 de Agosto e, desde então, decorre uma investigação para saber quem são os eventuais culpados pelo derrame e ensaiam-se estratégias de mitigação do flagelo ambiental. Pelo meio ressaltam alguns insólitos políticos e a incapacidade generalizada de lidar com uma crise, que, sem querermos estabelecer paralelos directos, se pode comparar aos incêndios na Amazónia ou a qualquer desastre de larga escala – tanto pelo impacto ambiental como a incapacidade do homem para lidar ou sequer explicar o que realmente se passa.

Apesar de o óleo só ter dado à costa no final de Agosto, a investigação sobre as causas deste desastre revela que os seus primeiros indícios terão surgido no meio do oceano pelo menos um mês antes. E é aqui que começa uma intricada história de inoperância, culpas e desculpas que até hoje marcam a agenda no Brasil. As primeiras críticas a surgir foram desde logo para o Governo Brasileiro; segundo o jornal Estradão,  o Ministro do Ambiente brasileiro, Ricardo Salles, só decretou o plano de contingência 41 dias depois do surgimento das primeiras manchas surgirem nas praias.

As primeiras acusações do Governo de Bolsonaro

Entre críticas, ao estilo de Bolsonaro e Trump, Ricardo Salles escolheu a insinuação como forma de fuga para a frente. Primeiro o Governo brasileiro começou por pressionar a Venezuela – Ricardo Salles terá mesmo pedido à Organização dos Estados Americanos que notificasse Maduro para que explicasse de onde vinha o óleo –; depois, antes das suspeitas, começaram as insinuações. No seu Twitter, a 24 de Outubro, o Ministro brasileiro insinuou que teria sido o navio da Greenpeace – a quem jocosamente chama Greenpixe – o responsável pelo derramamento do petróleo, algo rapidamente refutado pelo facto da quantidade de petróleo detectado ser muito superior à capacidade do navio e ainda criticável perante o auxílio prestado por voluntários desta organização na limpeza das praias. Este era o segundo capítulo de críticas dirigidas à ONG, uma vez que dias antes Salles havia publicado um outro vídeo truncado, originalmente publicado pela facção brasileira da Greenpeace.

 

Dias depois, e fora do escopo da argumentação política, foi a Polícia Federal a revelar as suas suspeitas – primeiro, apresentou um leque de cinco embarcações suspeitas, todas elas de bandeira grega. E a 26 de Outubro, o órgão de investigação apontou como principal suspeito do derrame o Navio Boubolina, de bandeira grega, pertencente à empresa Delta Tankers e que na rota entre a Venezuela – onde abstecera – e a Singapura – onde se destinara – havia derramado o óleo. Análises a 30 amostras de petróleo recolhidas nas praias brasileiras, levadas a cabo pela Universidade Federal da Bahia e pela petrolífera Petrobras (maioritariamente detida pelo Governo brasileiro), apontavam três campos venezuelanos como local de proveniência do composto, corroborando o apontado pela Marinha brasileira, e sustentando a narrativa que indiciava o navio grego como responsável pelo vazamento.

Contudo, em reação à suspeita, a empresa responsável pelo navio garantiu que chegou sem problemas ao destino, com toda a carga nos seus depósitos e sem qualquer registo de perdas, e assim a investigação voltou ao limbo da incerteza, reforçada pelas notícias dos últimos dias.

Um apuramento complicado

Por esta altura, ressaltavam as críticas, quer pela necessidade de recorrer à empresa Petrobras por incapacidade técnica do estado para recolher amostras, quer pela forma descoordenada como o trabalho de limpeza estava a ser feito.

Entretanto, o Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (LAPIS) da Universidade Federal de Alagoas efectuaram uma análise a imagens do satélite Sentinel 1A e detectaram aquilo que se pensa ser o princípio do derrame a 24 de Julho, perto de dois navios, sendo que nenhum deles é o Boubolina apontado como culpado, uma vez que este só passara naquele local dois dias depois. Assim, adensa-se a dúvida e surgem duas linhas de investigação: uma delas aponta para a responsabilidade de um navio fantasma, a navegar com o sistema de localização desligado e que estará presente nas imagens analisadas pelo LAPIS; a outra é ainda mais preocupante e aponta a origem do derrame para o fundo do mar.

Foi o mesmo laboratório de análise, o LAPIS, que num comunicado apontou a possibilidade de o derrame estar a ocorrer debaixo da superfície do mar, perto das minas de petróleo ou, como se lê no comunicado, na região do Pré-Sal. A informação foi prontamente criticada pela Marinha brasileira, mas nem por isso deixa de merecer atenção, até pelo momento que paralelamente decorre.

Área de produção de petróleo na Bahia (foto de Saulo Cruz/MME via Flickr)

Brasil reforça petróleo

A 6 de Novembro começaram as negociações para concessionar explorações de petróleo ao largo da costa brasileira, que visam duplicar a produção de petróleo no Brasil até 2030 e diluir a relevância da Petrobras no negócio. A falta de capacidade de coordenação e acção perante um desastre deste tipo na mesma altura em que o Brasil se esforça por aumentar os seus níveis de produção de petróleo podem, por um lado, afastar investidores – os leilões não estão a correr como previsto – e, por outro, dar um alarmante sinal de alerta para a população brasileira.

Um dos momentos mais caricatos de toda esta história é, de resto, reveladora do nível de preparação dos quadros que têm como missão lidar com este problema. Numa conferência de imprensa ao lado de Bolsonaro e tratando-o por ‘Capitão’, o secretário de Aquicultura e Pesca – que é simultaneamente empresário no sector das pescas –, Jorge Seif Júnior, afirmou que o povo do nordeste brasileiro pode continuar a consumir peixe, porque “o peixe é um bicho inteligente. Quando vê óleo, foge” e “então, obviamente que você pode consumir seu peixinho sem problema nenhum. Lagosta, camarão, tudo perfeitamente sano”, declarações prontamente refutadas por biólogos das principais universidades brasileiras, que aconselharam cautela no consumo. Em causa, não está o facto de o peixe ser ou não atingido pela mancha de óleo mas a contaminação provocada em todo o meio aquático nas redondezas do poluente.