“Senso Comum” acima da média na estreia dos Men On The Couch

Com uma sónica muito suave e com influências desde o Indie Rock até ao Pop Rock, os Men On The Couch apresentam-se como uma banda repleta de potencial com “Senso Comum”, um álbum coeso de 42 minutos.

Originários da Madeira, os Men On The Couch são uma banda portuguesa composta por quatro amigos de infância: Guilherme Gomes (vocalista principal e guitarrista), João Rodrigues (baixista), Tiago Rodrigues (baterista) e Francisco Sousa (guitarrista). Começaram como qualquer banda costuma começar: a tocar em conjunto e a divertirem-se, mas a determinada altura tiveram a ideia de fazerem algo mais composto e atiraram-se à indústria da música. O caminho para a afirmação começou com uma campanha de Crowdfunding, criada pela banda com o intuito de conseguir editar e gravar o tão esperado álbum. O disco, gravado no BlackSheep Studios em Sintra, não tinha inicialmente qualquer apoio de editoras e assim a banda recorreu a um financiamento colaborativo pedindo aos fãs que ajudassem a tornar o sonho possível. Com mais de 3000 euros angariados à boleia de um vídeo promocional bastante original nasceu o álbum “Senso Comum”.

Os pontos altos deste projeto são muitos e alguns foram lançados bastante cedo. Há cerca de um ano e meio atrás lançaram a música “760”, a propósito do famoso número de cada programa televisivo em Portugal, onde todo e qualquer português já tentou a sua sorte para tentar ganhar o prémio que raramente se ganha e que tem o já conhecido custo de 60 cêntimos mais IVA. A “760” é assim uma das músicas mais criteriosas do álbum, porque aborda tudo o que está mal no panorama televisivo português, composto por telenovelas monótonas, reality shows fúteis e telejornais sensacionalistas.

“Senso Comum” é sobretudo um álbum que incita a mexer o corpo e a trabalhar com a mente, puxando por assuntos que como título indica, fazem parte do senso comum e são uma crítica à sociedade atual. De sensacionalismos e monotonia passamos para angústias e momentos finais com a música “Se eu morresse amanhã”. Uma faixa que retrata uma dúvida que já passou pela mente de todos nós: o que acontece se de repente morrermos amanhã? Num estilo indie pop os Men On the Couch respondem a todas as nossas dúvidas. “O mundo continua a girar” é a mensagem principal e comprova que independentemente do que acontece, a angústia vira alegria e a tristeza dá lugar à aceitação de que com o passar do tempo o ser humano é esquecido e a vida continua. Portanto a mensagem da banda madeirense manda desfrutar do momento e fazer tudo aquilo que se quer fazer antes que chegue o “amanhã”. Para os mais curiosos, este single teve direito a uma videoclipe extremamente original:

“Senso Comum” não é apenas um álbum de assuntos polémicos, também incita a momentos de puro romance e podemos comprovar isso quando chegamos à música “Areia”, também ela presenteada com uma videoclipe. Filmado em Porto Santo, o videoclipe reflete a história de um amor passado em que a ilha é o lugar paradisíaco onde o par romântico convive e intensifica o seu amor, através de “beijos salgados”, aventuras no mar e cervejas na areia. E é ainda nesta “onda” de músicas sobre amor que os Men On The Couch apresentam a “Sol”, uma música que fala sobre um amor interrompido e a saudade do mesmo. Aqui o sol é o principal catalisador neste amor perdido porque era figura central nos momentos de carícia que o par romântico tinha. O instrumental podia muito bem ter sido composto pelos Arctic Monkeys nos tempos do Humbug e apesar da letra ser bastante triste e melancólica, os acordes mais suaves são interrompidos com um refrão instrumental energético que deixa o ouvinte num completo transe musical. A guitarra, o baixo e a bateria estão todos numa sintonia espetacular e as back-up vocals fazem a música crescer espacialmente, tornando-a em algo muito mais especial do que uma simples faixa. É urgente ouvir esta música numa sala com as luzes desligadas e o som no máximo porque a experiência é inexplicável.

Nos momentos finais do álbum chegamos à música homónima do disco, “Senso Comum”, uma música que fala da ignorância inata de algumas pessoas, enquanto procura enganar o nosso ouvido com algumas cacofonias e trocadilhos inteligentes.

A música mantém-se num registo pouco explícito até chegar aos momentos finais em que a banda, depois de se esforçar tanto por não dizer algo de errado ou ofensivo, se desinibe e despeja nos nossos ouvidos uma frase que com certeza ressoará também nas nossas vidas e neste álbum:

“Às vezes sabe tão bem mandar alguém à merda”.

Antes de terminar oficialmente o álbum, temos a faixa “It’s Okay”, a única cantada em inglês e que fala de uma relação que infelizmente deu para o torto. É uma faixa extremamente pessoal que nos dá uma sensação de proximidade com a banda. O final da faixa é uma experiência puramente transcendente, com um back vocal a apoiar a voz do vocalista e uma bateria muito suave, fazendo uma transição perfeita para aquela que é a última faixa do álbum, “Conclusão”, que contrasta perfeitamente com a primeira faixa.

Chegando ao fim deste projeto e avaliando a qualidade do mesmo, ficamos satisfeitos mas com vontade de ouvir mais material do grupo. O caminho a percorrer ainda é longo mas o potencial está à vista de todos e com certeza que nos irão continuar a impressionar com futuros projetos. A nós resta-nos sentar no sofá e aproveitar enquanto podemos ver o crescimento deles, para um dia podermos dizer que acompanhámos esta evolução desde muito cedo.

Por agora vão voltar para a ilha e dar uns concertos por lá, mas tudo indica que concertos pelo resto do país não serão uma realidade tão distante, portanto para os restantes fãs resta esperar e continuar a ouvir “Senso Comum” nas várias plataformas digitais.

Texto de Bernardo Pereira e Pedro Caldeira