A sujidade é boa: um conselho para a vida

Calendários não gostam de sujidade. Gostam de controlo. E em algumas situações, importa ter controlo. Mas, tal como há um momento certo para o controlo, há um momento certo para a sujidade.

Foto de Curtis MacNewton via Unsplash

Apesar de sempre me ter considerado uma pessoa de mente aberta, por vezes ainda tendo a ver as coisas a preto e branco. O meu mundo é de extremos. Salto de caos total a (tentativa de) ordem total. Ou tudo acontece ao acaso, ou nada.

Às vezes, até brinco que gerir calendários é como um jogo. E se pensarmos bem, são mesmo isso: um jogo de politica e produtividade. Porque é que levamos os calendários tão a sério? Porque criam uma sensação de controlo. Há um ano, após pensar que poderia ser uma boa ideia preencher o meu calendário com tudo o que eu precisava de fazer, achei que as coisas estavam sob controlo. Eu estava bem. Estava seguro.

Mas eu não estava seguro. Não estava bem. As coisas não estavam sob controlo.

Porque estava preso nesta versão a preto e branco das coisas, onde ou tudo estava organizado, previsível, com as pré-definições todas certinhas, porque caso contrário estava tudo caótico, desorganizado, errado. Como acontece frequentemente, a literatura veio ao resgate. Então, consideremos as palavras de Anne Lamott, através de um artigo (traduzido) do Brain Pickings:

“Quase todas as pessoas estão lixadas, partidas, carentes, com medo, e no entanto feitas para sentir alegria. Até (ou especialmente) as pessoas que parecem ter tudo mais ou menos em ordem são mais parecidas connosco do que pensamos. Eu tento não comparar o meu interior com o exterior delas, porque isto faz-me muito pior do que já sou, e se eu chegar a conhecê-las, elas acabam por também ter uma dose suficiente de irritabilidade e sombras. Além disso, essas poucas pessoas que não são um desastre são provavelmente boas para uns vinte minutos de conversa.”

Isto é o que nos fazemos. Comparamos interiores com exteriores. Criamos barreiras que separam preto e branco, mas deixam-nos num sítio em que há muito poucos tons de cinzento, porque o cinzento é confuso. Até… sujo. Mas a sujidade, como aqueles anúncios da Persil bem nos dizem, é boa.

A sujidade é outra palavra para o processo criativo. Nunca é um assunto linear. É sempre ambíguo e, quanto mais difícil o desafio, mais ambíguo se torna. E mais precisamos de uma base sólida que nos ajuda a perceber o que está a acontecer. Uma filosofia pessoal que nos ajuda a navegar a situação, em vez de apenas reagirmos a ela.

Atravessar a sujidade normalmente deixa tudo imundo, mas continua a ser a nossa melhor hipótese de encontrar ouro. Isto é ambiguidade e criatividade no seu melhor, e precisamos desesperadamente mais de ambos nas nossas vidas.

Calendários não gostam de sujidade. Gostam de controlo. E em algumas situações, importa ter controlo. Mas, tal como há um momento certo para o controlo, há um momento certo para a sujidade. E quando esse momento chega, a nossa tarefa não é minimizá-lo o mais rapidamente possível. A nossa tarefa é enfrentar a sua bela confusão, e ver o que emerge desse exercício.

Nem sempre precisamos de organizar o mundo, mas podemos largar tudo por um momento e deixar a clareza dar-nos um murro na cara, como normalmente gosta de fazer. Os calendários são bons para muitas coisas, mas este é um jogo que normalmente não sabem jogar. Isto, claro, assumindo que estamos interessados em pensar nas partes lixadas, partidas e carentes que nos dão mais do que vinte minutos de conversa.


O Roberto Estreitinho é senior strategist na VCCP, em Londres. Escreve uma newsletter semanal sobre filosofia chamada Salmon Theory, com mais de 2 000 subscritores em todo o mundo, que trabalham na Ogilvy, BBDO, Google, Genius Steals e outros. Podes subscrever aqui.