Onde está o direito à privacidade no Web Summit?

Dá para passarmos despercebidos no Web Summit, mas não há forma de sermos anónimos.

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Foto de Tiago Ferreira/Shifter

Em 2016, no primeiro Web Summit em Lisboa, o “pai do Software Livre”, Richard Stallman, dizia qualquer coisa sobre ter tentado entrar no Web Summit com um bilhete em papel ou num qualquer outro formato que não o QR Code e a app obrigatória para todos os participantes. Não temos presentes as palavras exactas de Stallman – pois essa parte não está registado no YouTube –, mas terá sido algo do género.

Neste Web Summit vamos ouvindo falar, aqui e ali, sobre como existe uma via aberta para a recolha de dados de consumidores e cidadãos, da qual grandes empresas – e também governos – se aproveitam; sobre como existe regulação na União Europeia que visa proteger o armazenamento desses dados mas falha em restringir a sua recolha. O tema da protecção de dados, da privacidade online e da segurança na era digital é transversal à programação do Web Summit, e logo no arranque do certame Edward Snowden deu um “puxão de orelhas” num Altice Arena esgotado.

Contudo, numa conferência em que tanto se fala destas temáticas sensíveis, não deixamos de notar alguma ironia no facto de ser obrigatório ter registo numa app que tem um quê de rede social, de ter alguém a ler-nos um QR Code sempre que entramos ou saímos da sala de imprensa, por exemplo, ou de todos os participantes terem de ter o seu badge ao pescoço, indicando quem são e que entidade representam.

Passamos a explicar melhor. A primeira vez que entramos no Web Summit fazemos o chamado check-in, mostrando um QR Code na app do evento que previamente temos de instalar. Passamos, então, a ter um badge, onde está esse QR Code, que tem dois propósitos: por um lado, controlar entradas e saídas dos media e do staff das áreas reservadas; por outro, potenciar o networking. É que, se conhecermos alguém aqui no Web Summit e quisermos trocar contactos, basta abrir a app do evento e fazer scan do QR Code da outra pessoa. Contudo, este processo não é necessário para encontrar outros participantes (sejam eles jornalistas, oradores, empreendedores, investidores, membros do staff, voluntários…), pois toda a gente é pesquisável na aplicação pelo seu nome e dá para enviar mensagem a qualquer pessoa – mesmo a Snowden (apesar de ser improvável que ele alguma vez a veja ou responda).

Já os badges que nos dizem para manter o pescoço identificam-nos pelo nosso nome e profissão. Se somos media, temos um badge verde com a palavra “media”; se somos de uma start-up, o nosso badge irá dizer “alpha” ou “beta”, em referência ao estado de desenvolvimento do nosso projecto (“alpha” se for uma empresa muito jovem, “beta” se estiver mais avançada). Participantes, investidores, voluntários e staff também estão categorizados por aquilo que são, como seu nome e, sempre que aplicável, pela empresa ou projecto que estão a representar.

Foto de Tiago Ferreira/Shifter

Dá para passarmos despercebidos porque a velocidade com que o evento decorre é acelerada; está toda a gente a andar de um lado para o outro, talks a começar e a acabar, e as conversas são curtas. Mas não dá para sermos anónimos no Web Summit. É difícil não mandar aquele olhar cusco (para não dizer maroto) para saber quem é que está a passar por nós ou quem é a pessoa que nos está a ser apresentada; difícil é também não reparar que os outros fazem este mesmo “jogo” connosco, às vezes, porque só nos conhecem de vista ou então não se lembram exactamente do nosso nome porque antes só nos tínhamos cruzado uma vez.

O Web Summit é um evento estruturado para o chamado networking, isto é, para a troca de contactos, para conhecer novas pessoas e para, quem sabe, através daí surgirem oportunidades que no futuro vão dar frutos. Afinal de contas, o Web Summit é para start-ups que estão a começar a estruturar os seus negócios e a construir as suas listas de contactos. Mas e se não quisermos esse networking? Se estivermos só aqui a trabalhar ou se simplesmente quisermos passar despercebidos?

Entendo a frustração de Stallman em não poder fazer isso, em não poder ter um bilhete em papel, sem QR Code e sem app. E, como Snowden costuma dizer, o direito à privacidade não tem que ver com termos algo a esconder, mas antes com o direito à individualidade, a podermos somente existir, sendo nós próprios, diferentes, sem sermos julgados, nem observados.

Mais: apesar de a app do Web Summit usar algum código licenciado de forma aberta, não é open source nem software livre; é software proprietário, que pertence à organização do Web Summit, uma entidade privada, e que, de repente, só com esta edição ganha acesso a dados de 70 469 participantes de 163 países. Não sabemos como essa informação, que incluí nomes, endereços de e-mail, números de telefone e datas de nascimento, é armazenada nos servidores do Web Summit. Na política de privacidade do evento, disponível online, podemos ler que são recolhidas informações sobre o nosso smartphone e sistema operativo que usamos, ou o número de seguidores que temos no Twitter (porque associámos a conta). Os dados recolhidos são usados pelo Web Summit para melhorar os serviços durante o evento, para comunicar com os participantes e ainda para a venda de publicidade.

Apesar de nos termos e condições ser referido que o scan do QR Code do nosso badge ser opcional, a app não é o é – mas o Web Summit escreve que o preenchimento do nosso perfil é opcional. Ainda assim, a forma como a aplicação está desenhada incentiva ao fornecimento dos dados, facultando pelo menos três temáticas nas quais estamos interessados e fazendo a ligação com a nossa conta de Twitter. Uma vez feito o registo, não encontramos na app forma de o eliminar, de cancelar as comunicações do Web Summit connosco ou de activar uma espécie de “modo incógnito” que nos torne invisíveis.

O networking pode ser interessante, mas este artigo procura reforçar a importância do direito à privacidade, mesmo em eventos dinâmicos como o Web Summit. Se calhar o Web Summit poderia aprender com o CC Global Summit, evento que leva a questão da privacidade tão a sério que dá aos participantes a opção de colocarem um autocolante vermelho no peito para não serem fotografados. Afinal, onde está o nosso direito à privacidade no Web Summit e de que tanto se fala no Web Summit?