A cerimónia do Web Summit em directo nacional

Snowden encheu a Altice Arena. Siza Vieira e Medina nem por isso. Mas apareceram às 20 no Telejornal.

O Web Summit no Telejornal da RTP (foto via Shifter)

O Ministro da Economia e o Presidente da Câmara de Lisboa entraram de rompante num Altice Arena ainda cheio – cerca de 20 mil pessoas –, mas só depois de Snowden ter falado. A sua chegada não passou despercebida, tal era a quantidade de pessoas que os acompanhavam e que depressa formaram uma massa escura à frente do palco (quase maior que a dos fotógrafos). Mas, quando foi a vez de Siza Vieira e Medina subirem ao palco para o habitual discurso de abertura, a arena já estava bem mais vazia.

Foi, aliás, no momento em que Paddy Cosgrave, mestre de cerimónias do Web Summit, entrou em palco com Pedro Siza Vieira e Fernando Medina que se começou a dar uma espécie de êxodo geral da sala. Os sectores superiores da arena já estavam praticamente vazios e mesmos cá em baixo, no piso térreo, eram visíveis várias cadeiras vazias – cenário que as câmaras não conseguiram esconder. As filas acumulavam-se junto às saídas, enquanto Siza Vieira, o Ministro, falava (uma vez mais) da velocidade com que a tecnologia muda para logo a seguir Medina, o Presidente da Câmara, repetir (mais uma vez) que Lisboa é uma cidade aberta e acolhedora.

Fernando Medina, Presidente da Câmara de Lisboa, e Pedro Siza Vieira, Ministro da Economia, no palco do Web Summit (foto de Web Summit via Flickr)

Será que as pessoas já não têm “pachorra” para este palavreado político? Ou será que foi o facto de ser já hora de jantar que pesou na decisão? Ou terá sido uma mistura dos dois? Certo é que os discursos políticos, bem como a “abertura oficial” do Web Summit – o momento em que Paddy, Siza Vieira, Medina e algumas start-ups estão em palco para pressionar um botão e soltar confetes – parecem coincidir, ano após ano, com a abertura dos noticiários das 20. Dos três canais, só a TVI preferiu puxar Sócrates e Tancos para a abertura do seu telejornal; poucos minutos depois das 20, RTP e SIC estavam em directo da arena, mesmo a tempo de ainda apanhar Medina a falar e todo o momento dos confetes.

Altice Arena já visivelmente mais vazio com várias pessoas a tentar sair (foto via Shifter)
O directo da SIC (foto via Shifter)

Em 2018, os noticiários puderam abrir com Guterres, Costa e Medina; e, no ano anterior, o Telejornal não abriu com o Web Summit mas foi em directo para o antigo Pavilhão Atlântico quando o Primeiro-Ministro entrou em palco. Apesar da instantaneidade das comunicações, as 20 horas ainda são um timing importante. Afinal, o Web Summit pode ser um evento que não interessa a todos mas interessa ao poder político que todos o vejam a aparecer num evento que custou trazer para Lisboa e a manter na capital portuguesa. Poucos são as oportunidades que os líderes têm para passar uma mensagem que consideram positiva e com um aparato capaz de impressionar qualquer um em directo nas televisões nacionais; o Web Summit servirá para isso e todo aquele ambiente de festa estabelece o tom dos discursos por muito repetitivos e sintéticos que estes sejam na realidade.

Só que a festa que se viu nos anos anteriores não foi igual à deste ano. Também nos telejornais foi possível reparar numa arena mais vazia que nos anos anteriores na “hora dos políticos”. Pode também ter sido o “cartaz” mais fraco.Todos os anos a estrutura costuma ser a mesma: Paddy Cosgrave a dar as boas-vindas, algumas keynotes com convidados especiais e geralmente uma celebridade. Este ano tivemos Snowden a esgotar o Altice Arena, duas mulheres empreendedoras à conversa com Filomena Cautela, um executivo da Huawei a falar do 5G (numa keynote que mais parecia um anúncio – a Huawei é uma das grandes patrocinadoras do Web Summit) e um painel com o actor e músico Jaden Smith a falar sobre água.

Foto de Web Summit via Flickr

Em 2018, o Web Summit abriu com o criador da WWW, Tim Berners-Lee, com Lisa Jackson, da Apple, com o realizador Darren Aronofsky e, por fim, com António Guterres, das Nações Unidas. Nesse ano, Costa e Medina assistiram à cerimónia desde o início. Este ano, 4ª edição do Web Summit em Lisboa, Medina e Siza Vieira (Costa estaria ocupado noutro evento) entraram só depois de Snowden acabar, mas não imediatamente a seguir – houve um breve compasso de espera que pode ter sido para camuflar a coisa. O Governo e a Câmara não terão estado em Snowden para evitar interferências diplomáticas num caso judicial e politicamente complexo.

Assim, restaram as palavras mais ou menos vãs, as promessas mais ou menos realistas, os sorrisos de circunstância, os confetes e pouco mais – afinal de contas, com tanto por onde pegar do ponto de vista política é sempre uma opção mais segura seguir a velha fórmula de esperar pelas 20, fazer o discurso velado e terminar com acenos que pouco comprometem.