Marriage Story não é um simples relato sobre o divórcio

Sentimental mas nunca lamechas, triste mas nunca niilista, pura magia cinematográfica sem artifícios fáceis.

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“Enquanto mediamos a vossa separação e eventual divórcio, as coisas podem ficar conflituosas. Gosto de começar num tom mais positivo, para que as pessoas com quem trabalho se lembrem do motivo por que se casaram. Para que, agora que se separaram, se lembrem de que esta é uma pessoa de que que gostavam muito e talvez ainda gostem de várias maneiras.” 

É através desta fala que o escritor e realizador Noah Baumbach, usando a voz do mediador de divórcio de Charlie e Nicole Barber, consegue sucintamente encapsular todo o propósito que move Marriage Story. É um drama de extremo peso emocional e relevância, mas que nunca se deixa arrastar por cinismos vácuos, conseguindo com frequência arrancar os mais genuínos sorrisos da cara mais taciturna. Isto porque Marriage Story não é tanto um simples relato sobre o divórcio, mas sim uma história de amor que, sob a lente duma separação, mostra a futilidade desalmada do ódio e escárnio face ao poder que empatia e compreensão carregam.

Foi durante a pós-produção de The Meyerowitz Stories que o escritor e realizador desenvolveu a ideia por detrás deste filme. Usando a sua própria experiência com o divórcio (os seus pais divorciaram-se quando este era adolescente, e viu o seu casamento com a atriz Jennifer Jason Leigh romper-se em 2010) Baumbach trouxe um elevado grau de realismo, tanto do ponto de vista procedimental como emocional, aos acontecimentos do filme — ainda que refute qualquer afirmação sobre o filme ser de alguma forma autobiográfico.

Com uma narrativa de teor mais dramático do que aquela tipicamente vista nos seus outros filmes, como por exemplo Frances Ha e o já referido The Meyerowitz Stories, a realização de Baumbach aqui toma uma posição mais introspectiva do que é costume, com close-ups frequentes a transportarem-nos para dentro da mente e alma dos protagonistas, motivos visuais “Bergmanescos” que quase nos levam a respirar o mesmo ar que as personagens habitam. Mas isto não quer dizer que Baumbach tenha subitamente deixado de ser Baumbach. Todos os seus típicos maneirismos cinemáticos encontram-se aqui presentes de alguma forma ou feitio. As cenas de diálogo multitonais e multitemáticas, as homenagens à velha Hollywood e ao cinema mudo, a atenção obsessiva aos microcomportamentos humanos no dia-a-dia, as personagens perdidas em situações e cenários fora do seu controlo, tudo isto nos relembra que estamos diante de mais uma das suas ecléticas obras, embora com uma dose reforçada de nuance e maturidade que só a auto-reflexão trazida pela experiência de vida pode oferecer, resultando naquele que possivelmente será o melhor e mais equilibrado guião do ano, perfeitamente afinado e sem uma ponta de gordura em excesso.

Adam Driver (Charlie) e Scarlett Johansson (Nicole) são os perfeitos catalisadores para fazer explodir no ecrã a riqueza do texto sobre o qual operam, encarnando duas personagens que transbordam com ideias e tiques próprios, e que se complementam e antagonizam em igual medida em redor do seu filho Henry. São também acompanhados por um cast secundário excecional (com destaque para Laura Dern e Ray Liotta nos papéis dos advogados de divórcio, animais de caça prontos derrubar tudo e mais alguma coisa que lhes ameace o respetivo cliente) que externaliza toda a injustiça e ironia de uma batalha na qual o bem-estar duma criança inocente é muitas vezes negligenciado em favor dum concurso de egos, uma luta pelo tão cobiçado “quem tem razão sou eu.” Contudo, acaba sempre por ser o pequeno Henry aquele que traz ao de cima o melhor de ambos os pais, relembrando-lhes o carinho irrompível que sentem um pelo outro.

É nisto que o filme mais brilha, na caracterização das personagens, fortemente assente em princípios inspirados pelo teatro pós-moderno e musical. Ignorando a metatextualidade deste tópico (Charlie é um dramaturgo de teatro avantgarde), existe um forte foco em cenários de várias camadas que conseguem dividr e afunilar as personagens de forma a estas se encurralarem a elas mesmas, fazendo com que Baumbach possa sacar uns quantos gloriosos monólogos, ou gerar momentos de conflito que atingem proporções emocionalmente apocalípticas. Estas dinâmicas de personagem-personagem e personagem-cenário são constantemente exímias devido ao talento portentoso de Jennifer Lame, editora de longa data de Baumbach, que sabe sempre como usar cortes para maximizar uma gargalhada, e quando deve manter um plano até este nos arrancar o coração do peito, tudo isto pontuado por uma banda sonora de Randy Newman que dá asas a cada emoção, e a ajuda a voar do ecrã para fora.

Se há prova máxima da sinceridade sobre a qual o filme assenta, é a forte influência que a obra teatral de Stephen Sondheim tem na narrativa, em particular o seu musical de 1970, Company, peça que nos conta a história dum solteirão nova-iorquino de 35 anos cujos amigos já se encontram todos em relações de diversas fases. Baumbach, que cresceu com produções da Broadway devido à influência dos seus pais, redige em Marriage Story uma carta de amor a Sondheim, onde consegue simultaneamente subverter e homenagear o seu trabalho. Naquela que é uma das cenas mais maravilhosas do filme, a personagem de Adam Driver parte numa belíssima interpretação a solo de Being Alive, canção que em Company revela os medos do protagonista face a relações íntimas, e que ao longo de 5 minutos, lentamente se desabrocha num desejo profundo por exatamente isso, independentemente de qualquer prejuízo que tal possa trazer:

“Make me confused, mock me with praise

Let me be used, vary my days

But alone is alone, not alive!”

Mas neste filme, Baumbach recontextualiza a canção de forma propositada sob a lente do divórcio, denotando todas frustrações fúteis e vazias que podem deteriorar uma relação, mas que depois acabam por ser incorporadas numa total celebração de todos os tempos felizes, infelizes e caricatos que duas pessoas partilharam no íntimo das suas almas. Esta termina assinalando a separação, não como um fim, mas sim como um novo ponto de partida para uma vida que tudo tem para ainda ser vivida com ânimo, sem nunca descartar por completo a outra pessoa que, melhor que ninguém, compreende o que o outro sente:

I’ll always be there

As frightened as you

To help us survive

Being alive, being alive, being alive, being alive

São estes laivos de beleza pura que tornam Marriage Story numa das mais imponentes amostras de cinema do ano e, atrevo-me a dizer, da década. Sentimental mas nunca lamechas, triste mas nunca niilista, pura magia cinematográfica sem artifícios fáceis. Uma história de amor como mais nenhuma hoje em dia, e à qual toda a gente deveria dar uma oportunidade.

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