Uma selecção de filmes da A24: a produtora que ajudou o cinema indie a chegar às massas

Se há alguma companhia que actualmente comanda o leme do cinema independente internacional, certamente será a A24 Films.

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Se há alguma companhia que actualmente comanda o leme do cinema independente internacional, certamente será a A24 Films. Fundada em 2012 por David Fenkel, John Hodges e Daniel Katz, teve inícios modestos, inicialmente lançando filmes como Spring Breakers de Harmony Korine e The Bling Ring de Sofia Coppola, e tem desde então produzido e, principalmente, distribuído vários dos mais excitantes filmes que se têm infiltrado nas salas internacionais nesta última década, ajudando o cinema indie a ter um lugar ao sol às massas.

Os filmes abraçados pela A24 albergam os mais variados géneros e temáticas. Da comédia surrealista ao sci-fi cerebral, passando também pelo terror psicológico e o thriller criminal, não esquecendo também a beleza e luta do romance LGBT, o elo comum que liga todas estas produções são as vozes absolutamente únicas que as criam e que, numa indústria cada vez mais mecanizada e menos ambiciosa, muito dificilmente teriam chances e incentivos para ver as suas criações nos grandes ecrãs de todo o mundo.

É por isto que o Shifter decidiu criar uma lista com oito dos filmes mais impactantes que já saíram desta casa, que tanto já nos deu e nos dará daqui em diante. Para esta colectânea, tentámos principalmente reflectir o ecletismo da companhia nas produções seleccionadas, sabendo à partida que filmes também merecedores de menção acabariam por ser omitidos.

Under The Skin (2014)

Existem poucos filmes que possam ser descritos como sendo verdadeiramente alien em natureza. À mente surgem clássicos tão badalados como 2001: A Space Odyssey de Stanley Kubrick, e o Stalker de Andrei Tarkovsky. Um olhando para além dos limites exteriores do nosso conhecimento, o outro aprofundando-se na cova humana onde o consciente se escapa para inconsciente. Uma obra artística abordar um destes espectros conceptuais já é uma tarefa de rigor exigente, mais ainda se forem encarados em simultâneo, como parte dum todo. 

É por isso que Under The Skin é um dos filmes mais interessantes dos últimos 20 anos. Uma mulher extraterrestre a conduzir uma carrinha pelas húmidas ruas de Glasgow, seduzindo homens incautos e “assimilando-os” no interior da sua nave. O já considerado clássico de culto, realizado por Jonathan Glazer, é perfeita síntese moderna do sci-fi arthouse sob uma veia quasi-documental, uma exploração hipnotizante da condição humana através duma perspetiva totalmente alheia a esta, navegando-se através duma corrente de sexo, solidão, empatia e medo.

Ainda sendo um dos filmes distribuídos pela A24 na sua fase de crescimento, o filme foi considerado um falhanço na bilheteira, mas mesmo assim é uma das peças que melhor mostra o quão empenhada a companhia está em apostar num cinema de cariz mais arriscado.

The Lobster (2015)

The Lobster é o primeiro filme em inglês do realizador Yorgos Lanthimos, escrito em parceria com Efthimis Filippou, a mesma equipa do aclamado Kynodontas de 2009.

Com um elenco de renome com actores como Colin Farrel e Rachel Weisz como protagonistas, e Olivia Colman, John. C. Reilly e Léa Seydoux nos papéis secundários, este filme é uma comédia negra situada numa distopia totalitária onde ser celibatário é proibido, e a punição para todos os que estiverem solteiros mais de 45 dias é serem transformados num animal à sua escolha. O personagem principal encontra-se confinado a um hotel depois de a sua mulher o trocar por outro, onde terá de encontrar uma nova parceira com quem tenha visivelmente algo em comum, antes que o tempo se esgote, ou então poderá ganhar um dia extra por cada vez que capturar um dos dissidentes do regime que vivem na floresta perto do hotel. É com todo este cenário absurdo que num primeiro plano satiriza as dinâmicas das relações amorosas no mundo contemporâneo, que se esconde uma crítica aos sistemas de regras impostos e seguidos cegamente sem qualquer tipo de reflexão, e onde por vezes os revoltados acabam por implementar novos dogmas que impedem a liberdade individual plena.

Este filme acabaria por entrar no catálogo da A24 depois da falência da distribuidora Alchemy em 2015, que tinha previamente adquirido os direitos de distribuição norte-americana logo após a sua estreia em Cannes onde arrecadou o Prémio do Júri. Conseguiu a nomeação de melhor argumento nos Óscares e fazer dez milhões de dólares em bilheteira nos Estados Unidos da América.

The Witch (2016)

O movimento Folk Horror teve o seu auge nas décadas de 60 e 70, tendo depois estado praticamente inerte durante três décadas. As obras que mais marcaram o sub-género, como por exemplo o famoso The Wicker Man ou Blood On Satan’s Claw, abordavam conceitos como o tabu e ansiedade social, com a denominação “folk” a derivar precisamente daí, dos medos prevalentes que poderiam “quebrar” uma sociedade aos olhos de si mesma.

Foi nesta década que o movimento teve finalmente um ressurgimento, e as rédeas deste foram tomadas pelo The Witch de Robert Eggers. Apropriando-se duma atenção ao detalhe totalmente obsessiva, desde os detalhes de guarda-roupa e das localizações, passando também pelos diálogos fidedignos ao dialeto usado por famílias puritanas em Nova Inglaterra do Séc. XVII, o filme desconstrói os perigos do fanatismo religioso e orgulho desmesurado, para de seguida se erguer céu acima como um forte hino à emancipação feminina. 

Após ter levantado sobrancelhas na edição de 2015 do Festival de Sundance, a A24 sentiu-se confiante o suficiente para lhe dar um lançamento sem restrições nos cinemas mundiais, e foi esta um dos principais acontecimentos que pôs a distribuidora americana nas bocas do mundo.

Good Time (2017)

Se filmes como The Rover e The Lost City of Z já nos tinham indicado que Robert Pattinson tinha mais para oferecer ao mundo além da saga Twilight, foi com o quinto filme de Josh e Benny Safdie que tal anúncio foi devidamente proclamado às massas.

Dizer que Good Time é um autêntico ataque de ansiedade movido a toneladas de ácidos seria somente um eufemismo para descrever o quão verdadeiramente intenso o filme consegue ser. Uma narrativa intrépida sobre um homem que, após uma tentativa falhada de assalto a um banco, tem de impedir o seu irmão mais novo, que por sua vez padece duma doença mental, de ir para a prisão. Um guião extremamente afinado que, com o soberbo trabalho de todos os atores envolvidos (especialmente por parte de Pattinson e Benny Safdie, o par fraterno no centro de todo o conflito), transborda com tal autenticidade suburbana que quase nos vem o cheiro a lixo às narinas. Digna dum especial realce é a banda sonora composta por Oneothrix Point Never, uma vibrante jornada de sintetizadores trazida duma dimensão alheia à nossa, pronta a derreter-nos a cara e os ouvidos.

Este foi um projeto que muito cedo captou a atenção da A24, tendo esta adquirido os direitos de distribuição em Outubro de 2016 sete meses antes da estreia do filme no Festival de Cannes de 2017, confiança que saiu devidamente recompensada com uma nomeação à Palma de Ouro, e que transitou para o iminente novo projeto dos irmãos Safdie, Uncut Gems, protagonizado por Adam Sandler.

Moonlight (2017)

Moonlight foi uma das grandes surpresas dos Óscares 2017. Indicado para seis prémios, esteve no centro de um engano que vai ficar para sempre na história da cerimónia das estatuetas douradas: foi considerado o Melhor Filme, anunciado de forma atabalhoada depois de Warren Beatty ter lido primeiro La La Land como o grande vencedor da noite. Além do principal galardão da noite, levou para casa a distinção de Melhor Ator Secundário para Mahershala Ali e a de Melhor Argumento Adaptado, prémios aos quais se juntam outras tantas distinções importantes de cinema.

O filme foi a segunda longa-metragem do norte-americano Brian Jenkins e narra a vida de um jovem negro desde a infância até à idade adulta, que luta para encontrar seu lugar no mundo num bairro duro de Miami. A cinematografia bonita e a história melancólica permitem uma reflexão consciente sobre tolerância e respeito pelo outro. Enquanto criança embalado na água, o primeiro beijo enquanto adolescente, a introspecção enquanto adulto – dá-nos ainda algumas pérolas como: “Podes ser gay, mas nunca deixes que te chamem paneleiro.”

Estreou no Telluride Film Festival e fez o tradicional roteiro pelos festivais da 7ª arte, mas tornou-se um sucesso comercial e popular a todos os níveis — no ano de estreia, quatro dos personagens foram protagonistas de uma campanha de roupa interior da Calvin Klein. A A24 foi responsável pela produção (a meias com a Plan B Entertainment e a Pastel Productions) e pela distribuição e tem, ainda hoje, o sucesso de Moonlight estampado no seu cartão de visita.

A Ghost Story (2017)

A Ghost Story é um filme de drama norte-americano escrito e dirigido pelo conceituado David Lowery, numa exploração singular do que é o legado, a perda e a procura tão humana por significado e conexão. Recentemente falecido, um fantasma de lençol branco (Casey Affleck) retorna à sua casa para consolar a sua esposa abandonada (Rooney Mara), apenas para descobrir que neste seu novo estado espectral, invisível para os mortais, o tempo não passa por si, e fica condenado a ser um mero espectador passivo da vida que antes lhe pertencia e da mulher que amava à medida que, ela sim, envelhece. O fantasma inicia assim uma viagem pelas suas histórias e memórias, enfrentando questões eternas sobre a vida – o argumento sobrenatural é compensado pelo confronto com questões tão reais como o amor, a tristeza ou a enormidade da existência.

Em seu estado espectral ele se soltou com o tempo, forçado a assistir passivamente como a vida que ele conhecia e a mulher que ele ama lentamente desaparecem. Cada vez mais despreocupado, o fantasma embarca em uma jornada cósmica pela memória e pela história, confrontando as questões inefáveis ​​da vida e a enormidade da existência. Uma meditação inesquecível sobre amor e tristeza, A Ghost Story surge em êxtase e surreal – uma experiência totalmente única que permanece por muito tempo depois que os créditos rolam.

O filme estreou no Festival Sundance de Cinema em janeiro de 2017 e chegou aos cinemas norte-americanos distribuido pela A24 em julho do mesmo ano.

First Reformed (2018)

Há filmes de alto perfil, de que toda a gente fala e nos fartamos de ouvir falar, e filmes de baixo perfil que sem muita conversa nos deixam a pensar semanas a fio; First Reformed é do segundo tipo. Escrito e realizado por Paul Schrader, protagonizado por Ethan Hawke, produzido Killer Films, a Orneira Studio Partners, a Fibonacci Films, a Arclight Films e a Big Indie Productions, e distribuído pela A24, é um filme discreto mas marcante.

Ethan Hawke faz de Ernst Toller, o reverendo de uma igreja protestante nos arredores de Nova Iorque que serve de epicentro a toda a narrativa e onde se cruzam, essencialmente, duas histórias – a do sofrimento de Ernst depois da perda do filho e a de Mary (Amanda Seyfried), uma paroquiana que pede ajuda para lidar com o seu marido, um ambientalista convicto e desesperançado.

O argumento do filme, que até esteve nomeado para o Oscar de melhor argumento original, é simples e descreve-se nas poucas linhas acima, mas é a forma como a história progride e o seu desfecho final que tornam este filme tão poderoso. A relação entre um tema secular como a fé e um tema tão actual como a crise climática dão ao filme o lado reflexivo que o torna tão especial.

Eighth Grade (2018)

Eighth Grade é o filme de estreia de Bo Burnham, comediante multi-facetado que se deu a conhecer ao mundo com apenas 16 anos, através dos vídeos caseiros que colocava no Youtube onde tocava músicas compostas e escritas por si, onde abordava de forma humorística temas como religião, género, sexualidade e raça.

Depois de múltiplas aparições em séries de televisão e filmes, 5 espetáculos de stand-up e 3 álbuns de música, com a sua primeira longa-metragem, Burnham procurou cristalizar a ansiedade com que vive uma geração que nunca viveu sem Internet e agora começa a lidar com as dificuldades do descobrimento da sua própria identidade. Utilizando o seu passado como estrela da Internet, cria uma história onde seguimos a última semana de aulas de uma jovem adolescente, interpretada por uma bastante elogiada Elsie Fisher, que partilha vídeos motivacionais no Youtube a dar conselhos sobre confiança, enquanto na sua vida pessoal tem bastante dificuldades em criar ligações de amizade com os seus colegas, para além do crescente distanciamento da única figura familiar presente no filme, o seu pai, que pertence a uma geração que tem alguma dificuldade em perceber a dinâmica de um adolescente da era da Internet.

Com a classificação do filme como para maiores de 18, as crianças da idade retratada no filme estavam impedidas de ver o filme no cinema. Para contornar a regulação, a A24, produtora e distribuidora em simultâneo, permitiu exibições de graça do filme por todos os estados da América, pois em exibições gratuitas não há aplicação dos limites de idade, possibilitando assim a geração “eighth grade” de ver um filme que lidava com o seu quotidiano e problemas com a sensibilidade de quem verdadeiramente os pretende entender.

Texto de Duarte Cabral, Edgar Almeida, Rita Pinto e João Gabriel Ribeiro

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