Nutrição… Precisamos de falar

Durante os quatro anos de licenciatura aprendi com os vários docentes a prestar vassalagem à Ciência, a filtrar evidência, e a saber aplicá-la nas muitas áreas em que poderia vir a trabalhar. Não duvidei que estava no sítio certo. Mas depois...

Em 2013 escolhi estudar Ciências da Nutrição, bastante consciente da quantidade de vezes que teria de explicar que o principal propósito da área não era emagrecer pessoas, que a aplicabilidade do trabalho do nutricionista não se resumia a consultórios, e de lidar com os olhares reprovadores de quem me tentava catequizar sobre o desperdício que era “uma aluna tão boa ir estudar maçãs, barrinhas e balanças”. Nunca me incomodei muito com a ignorância alheia, tive a sorte de perceber cedo o valor da área que quis escolher.

Entrei na Universidade do Porto, na FCNAUP, casa onde nasceu a Nutrição em Portugal, e que fecundou, gerou e educou as minhas referências profissionais e académicas. Nas habituais palestras de boas-vindas à faculdade, ouvi o Professor Pedro Moreira falar de relações sensoriais pré-natais, e de como a nossa saúde foi condicionada logo na barriga da nossa avó. Ouvi o Professor Vítor Hugo Teixeira explicar, com a maestria habitual, o que nos esperava enquanto estudantes universitários. Durante os quatro anos de licenciatura aprendi com os vários docentes a prestar vassalagem à Ciência, a filtrar evidência, e a saber aplicá-la nas muitas áreas em que poderia vir a trabalhar. Não duvidei que estava no sítio certo.

O caminho rumo à profissão não foi simples. Após quatros anos de licenciatura, estágio(s), a defesa do trabalho académico e profissional, tive finalmente a oportunidade de me inscrever na Ordem dos Nutricionistas. Seguiu-se o estágio profissional e seminários relativos ao nosso código deontológico, nos quais repeti e interiorizei cada capítulo, cada artigo, e os quatros princípios orientadores da conduta profissional: honestidade, autonomia, justiça e integridade. Após a defesa pública do estágio e do exame oral de ética e deontologia, chegou finalmente em 2018 a felicidade em me tornar nutricionista.

A experiência depois de obter a cédula profissional foi muito semelhante à de inúmeros colegas que me confessam frequentemente os seus dissabores: a precariedade é uma realidade para muitos dos recém-formados na área, e não a estamos a admitir. Talvez o facto de a nutrição ser indiscutivelmente um hot topic, e o interesse pelo tema ter crescido vertiginosamente nos últimos anos, tenha ajudado a mascarar a realidade que é a insatisfação de quem tenta começar a trabalhar na área.

É do conhecimento geral que, para a grande maioria de nós, a prática no Serviço Nacional de Saúde não passa de uma miragem. Importa também dizer que é necessário abandonar o molde tradicional de atuação do Nutricionista, e criar necessidade em áreas menos convencionais. Contudo, não é raro navegar em ofertas de emprego cuja remuneração não é aliciante nem suficiente. Exemplo disso são propostas de horário de trabalho completo, com realização de consultas, avaliação de ementas, e uma remuneração de 4 euros por hora que não são aceitáveis para um profissional que investiu tanto em saber e fazer melhor. Há também algum desconforto em já ter memorizada a coreografia de emitir faturas-recibos pintadas a verde, cor habitualmente associada à esperança, mas que de esperança nos trazem muito pouco.

É necessário que tenhamos confiança no nosso valor enquanto profissionais de Saúde, que o saibamos mostrar, e que as entidades empregadoras estejam dispostas a reconhecê-lo. Não é raro sentir que algumas entrevistas de emprego são semelhantes a um bailado a solo na fronteira entre a comédia e a tragédia. Um exemplo habitual é quando é proposto um horário laboral fixo de oito ou mais horas, no qual o profissional daria “aconselhamentos alimentares gratuitos e não remunerados”, e auferiria apenas uma percentagem das “consultas que conseguir vender após esses aconselhamentos”. A minha reação a este tipo de ofertas costuma envolver náusea, revolta, refluxo gastroesofágico, e um “Não, obrigada”.

Talvez disfarcemos este desconforto com mais uma palestra, mais uma receitinha, mais um anúncio a um novo local de consulta, mais qualquer coisa que não nos lembre muito da quantidade de colegas que estão novamente nos bancos da faculdade a tentar singrar numa outra área que lhes ofereça a estabilidade que a Nutrição não conseguiu.

A situação profissional frágil não nos coloca numa posição simpática. Porém, quero acreditar que pertenço a uma classe que sabe que a subserviência, o facilitismo, a “farmo-sem-ética”, não são (nem podem ser) o futuro da profissão que foi sonhada ainda em barracos no Hospital de São João, e que sempre resistiu com resiliência, caráter e elegância científica. Perdoem-me a banalidade, mas em qualquer conteúdo vulgar se ouve e lê que “o primeiro passo é reconhecer que há um problema”, e nessa vulgaridade encontramos alguma franqueza: não podemos resolver uma situação que não admitamos, não debatamos e não olhemos de frente.