As séries que vamos voltar a ver nos anos 20

As perguntas eram tantas que o Shifter decidiu não escolher o melhor da década. Procurámos antes seleccionar aquilo que, criado na década que agora acaba, vale a pena ser revisitado na próxima.

Escolher os melhores da década é uma actividade ingrata. Quem decide o que é melhor? Que critérios fazem de uma obra melhor que outra? A popularidade na crítica? Entre o público? E como lidar com as limitações da memória humana? Sim, com o facto de mais facilmente nos lembrarmos daquilo que ouvimos ontem do que do filme que há oito ou nove anos nos marcou?

As perguntas eram tantas que o Shifter decidiu não escolher o melhor da década. Procurámos antes seleccionar aquilo que, criado na década que agora acaba, vale a pena ser revisitado na próxima. Queremos que entres nos novos anos 20 com uma lista de bons discos, livros, filmes, docs e séries que merecem ser vistos e revistos e que achamos que continuarão a representar muito para o mundo nas décadas que se seguirão.


Fleabag

Por Duarte Cabral

Insegurança, irreverência, sexo, ser mulher. Os quatro pontos cardeais sobre os quais a obra-prima de Phoebe Waller-Bridge opera, uma série que tanto tem de drama como de comédia, e que ambos realiza com igual portento, graça e estilo. Muito, muito estilo.

Waller-Bridge, escritora e actriz de 34 anos, desenvolveu Fleabag a partir da sua one-woman play, sobre uma mulher (cujo verdadeiro nome nunca nos é revelado) que usa sexo, o seu sardónico sentido de humor e constantes quebras da “quarta parede” para nos distrair dos inúmeros esqueletos que guarda no seu armário. Com somente duas curtas temporadas de 6 episódios cada, é desenvolvida uma narrativa de trazer lágrimas ambivalentes aos olhos de qualquer um, em especial a imaculada segunda temporada que traz consigo o ator Andrew Scott (Moriarty na série Sherlock, da BBC), um padre com o qual a protagonista estabelece aquela que certamente será uma das mais intensas e marcantes relações de amor platónico da história da televisão.

Espero que não tenham nenhuma arma de fogo em casa, porque é bem provável que, após verem Fleabag, a usem para forçar família, amigos e conhecidos a ver também. Falo por experiência própria.

Twin Peaks: The Return

Por Duarte Cabral

Quem matou Laura Palmer?” Esta pergunta assolou as mentes de todo o mundo quando Twin Peaks foi lançado em 1990. O “bebé” de David Lynch e Mark Frost era um híbrido de investigação policial com toques sobrenaturais que também pretendia parodiar as soap operas da altura. Sofreu uma produção atribulada e, após somente duas temporadas, a série foi cancelada (uma prequela a esta em forma de filme foi lançada posteriormente em 1994).

Mas, 25 anos depois, Lynch e Frost trouxeram Dale Cooper e companhia de volta aos nossos ecrãs, numa conclusão altamente surrealista, hilariante, ecléctica e frequentemente aterrorizadora, que expande o universo da série para uma escala que, à falta de uma melhor palavra, só se poderá descrever como “épica”. Se Twin Peaks relatava os eventos e peripécias que decorriam na fictícia cidade homónima, The Return discursa em torno dum metatexto sobre a própria série, uma carta de amor tenebrosa ao que se precedeu, mas que nunca cai na armadilha do fan service vazio.

As 18 horas mais ambiciosas da história da televisão? É bem provável que sejam.

Atlanta

Por Pedro Caldeira

Atlanta é uma série de drama/comédia distribuída pelo canal FX criada por Donald Glover, mais conhecido por Childish Gambino. O enredo baseia-se numa realidade bastante actual, seguindo um grupo de amigos que tentam a sua sorte no mundo da música, mais concretamente no mundo do Trap. A série começou em 2016 e desde então já teve 3 temporadas, sendo que a quarta é provável sair no próximo ano.

Apesar de ter um enredo bastante simples, não há nada de simples em Atlanta. A série é utilizada como uma caixa de areia por Glover para experimentar todo o tipo de histórias e críticas sociais em curtos episódios com menos de meia hora, acompanhadas de visuais estonteantes e de um trabalho fenomenal pelo director mais frequente, Hiro Murai (os créditos de direcção não são sempre dele, mas a maioria é). Num episódio podemos ser confrontados com problemas derivados de pobreza e suicídio e no outro somos quase que transportados para uma realidade alternativa em que a única coisa que importa para as personagens é conseguir comprar um piano em segunda mão. Seja qual for a temática, Glover nunca desilude e consegue sempre captar a nossa atenção do início ao fim de cada episódio. É uma série que vale a pena ver, rever e acompanhar enquanto sai porque a minha ideia é que Glover vai ser um dos artistas da próxima década.

Breaking Bad

Por Pedro Caldeira

Breaking Bad já foi mais do que falado ao longo da última década, mas ainda assim é digna de ser falada uma última vez. Tendo começado em 2008 e acabado em 2013, Breaking Bad é um drama que acompanha a vida de um professor de química muito dotado, que ao descobrir que tem cancro nos pulmões e ao aperceber-se da situação complicada em que possivelmente vai deixar a sua família, resolve começar a produzir metafetaminas (uma droga sintética que afecta o sistema nervoso) para amealhar o máximo de dinheiro possível.

O enredo é algo diferente do que estamos habituados a ouvir e por isto, muita gente acaba por descartar a possibilidade de tentar ver a série. No entanto, este é apenas o ponto de partida para Vince Gilligan, o criador e director da série, dar asas à sua imaginação e levar o conceito de character development ao limite. A magia da série reside precisamente nisto: se virmos o primeiro episódio e posteriormente virmos o último, as diferenças das personagens são notáveis ao ponto de podermos pensar que nem sequer da mesma pessoa se tratam. No entanto, a evolução é mais gradual do que possa parecer e é uma série que nos deixa agarrados ao ecrã até aos últimos momentos.

Bojack Horseman

Por Edgar Almeida

Uma série que se passa numa espécie de universo alternativo que é semelhante ao nosso mas é habitado tanto por humanos como por animais antropomórficos faz de Bojack Horseman uma espécie de Fábulas de La Fontaine em esteróides.

Seguindo a vida de uma estrela de televisão decadente, alcoólico, claramente a braços com problemas de saúde mental, que aliena todos os que se aproximam dele através dos seus comportamentos de risco, somos levados numa montanha-russa de emoções, podendo estar num momento a rir à gargalhada com as suas aventuras e de personagens secundárias como Todd Sanchéz, como de seguida a segurar uma lágrima ou angustiados por mais um comportamento execrável de Bojack ou de uma tentativa de se redimir de todas as suas falhas. Um retrato que com toda a sua linguagem surreal cómica, nos apanha desprevenidos sempre que mergulha numa viagem dolorosa de autodescobrimento e de busca por perdão num mundo em que num dia se está no topo e noutro se é excomungado e nada se esquece.

Ao abordar temas incontornáveis da actualidade como o #MeToo, as alterações climáticas e a diversidade de género, esta série que terminará mesmo no final da década ficará sempre como um bom registo para se rever por ser especialmente um produto do seu tempo.

Westworld

Por João Marques

Definir as séries que marcaram a década implica perceber quais aquelas que cruzaram fronteiras e abriram novas possibilidades, sem deixar de honrar o legado de prestige TV, construído por gigantes como Breaking Bad ou Mad Men. Westworld (HBO), é, possivelmente, o derradeiro herdeiro dessa fórmula vencedora: um épico que funde equilibradamente ficção científica com o género western, baseado no filme homónimo de 1973.

Westworld é, assim, um parque de diversões povoado por andróides (os anfitriões, impedidos de magoar humanos), que estão ao serviço de todas as fantasias e desejos de quem possa pagar o bilhete de ingresso (os ricos e poderosos, os inconsequentes). A série é isto, e muito mais. Jonathan Nolan e Lisa Joy tornaram-se obreiros de um setting profundamente futurista, que é palco de um debate rigoroso sobre o percurso que a humanidade percorreu até hoje, e o percurso que continuará a explorar. Somos confrontados por questões inerentemente filosóficas, como moralidade, intencionalidade, o comportamento na ausência de lei, mas também questões prementemente actuais, como os limites da Inteligência Artificial. Tudo isto que é conseguido é-nos apresentado através de valores de produção de excelência, de um elenco talentoso e de um guião que aborda grandes preocupações, sem nunca deixar de deslumbrar e entreter.

Westworld não nasceu para ser mais um produto televisivo, fechado em si mesmo. Nasceu para inquietar. E se, no final, ficarmos com a sensação de que há algo novo a (re)pensar, não terá então a série conquistado um lugar único, nos espectadores e no panorama televisivo da década?

Rick and Morty

Por João Gabriel Ribeiro

Para quem nasceu nos 1990, não era expectável que fosse a meio da segunda década do século XXI que fossem inventados os seus desenhos animados preferidos, um verdadeiro fenómeno de culto sobretudo para essa geração. Justin Rolland e Dan Harmon juntaram-se em 2013 e desde então que acumulam seguidores das aventuras do avô e do neto pelos multiversos. A par de outras séries como Bojack Horseman ou F is For Family, Rick e Morty aproveitaram a boleia das plataformas de streaming para dar um novo fôlego à categoria clássica de desenhos animados para adultos – onde até então dominavam The Simpsons, Family Guy, etc.

Rick and Morty combina ficção cientifica, a mais pura acção e aventura e comédia – da mais refinada à mais simples – de um modo único. As aventuras do avô e do neto dão quase sempre lugar a reflexões existenciais embrulhadas num humor básico e suscitadas por histórias absolutamente mirabolantes. É na mistura delicada de todos estes ingredientes que a série se torna especialmente interessante e divertida. Por de trás de cada episódio e dos gimmicks mais cómicos escondem-se questões humanas, tecnológicas e até mesmo políticas, capazes de incentivar uma reflexão de modo quase inconsciente.

Black Mirror

Por João Gabriel Ribeiro

Black Mirror não é uma série convencional – não tem uma história com princípio, meio e fim, nem personagens que se relacionem no desenrolar da trama. Em vez disso, os seus episódios dispersos são unidos pela problemática comum e a tendência dos seus desfechos.

À semelhança das narrativas do dia-a-dia, quase tudo começa como uma ilusória promessa tecnológica e quase tudo termina num problema de difícil resolução ou em dilemas éticos. O título da série e a imagem de capa – um monitor quebrado – são a síntese perfeita do que trata esta série: uma reflexão sobre os momentos em que a tecnologia destrói a barreira dos ecrãs e invade a vida real colocando-nos a braços com problemas dos mais variados tipos – desde a eleição de um boneco animado à obsessão pelos rankings sociais.

Pela sua heterogeniedade – nem os realizadores se repetem muito frequentemente – tem alguns altos e baixos mas no geral é uma série de ficção cientifica – a curto-prazo – capaz de nos entreter e de simultaneamente nos alertar para o perigo da aceitação tácita de tudo o que a tecnologia oferece de mão beijada. Não cai em devaneios conspirativos nem faz com que tenhamos vontade de atirar o telemóvel pela janela e de fugir para as montanhas, mas instala em nós uma voz crítica do que parecem ser as maravilhas tecnológicas e impele-nos a tapar tudo o que sejam webcams viradas para a nossa cara.

Teorias da Conspiração

Por Mário Rui André

Podíamos atirar para esta lista séries como Bedrag, uma produção dinamarquesa de altíssima qualidade que elucida como o dinheiro se move entre as empresas e os políticos. Ou, então, House Of Cards, um registo ficcionado sobre a política norte-americana e que mostra também como esse mundo funciona. Mas preferimos uma produção portuguesa. Teorias da Conspiração passou na RTP1 no início deste 2019 e está agora disponível em streaming no RTP Play.

Seguindo a história de uma jornalista e um inspector da política judiciária contra o poder político instalado, a série de 18 episódios trata através de uma narrativa de ficção, os bastidores de um país real como Portugal, podendo a ajudar a descodificar o que se passa atrás das cortinas do mundo político, algo que no dia-a-dia e através da comunicação social não é claro. Teorias da Conspiração é uma produção que, se calhar, passou despercebida a muitos de nós. Um House Of Cards à portuguesa. Afinal, a ficção televisiva pode também ter um papel no sentido de nos tornar mais despertos e conscientes.

Sara

Por Mário Rui André

Marco Martins realizou uma série que podia ser um filme. Juntou a equipa com a qual já tinha trabalhado em São Jorge, incluindo Nuno Lopes, José Raposo e Beatriz Batarda, e assinou uma das melhores séries portuguesas de 2018 – quiçá desta década. Sara é protagonizada por Beatriz Batarda, casada com Bruno Nogueira, autor da ideia da série – depois de um O Último A Sair a criticar o universo dos reality-shows, Bruno virou-se para a novela e concebeu mais uma vez uma crítica a um formato televisivo. Beatriz Batarda dá corpo e alma a Sara Moreno, uma actriz que se vê forçada a fazer novelas porque só com o cinema não consegue pagar as contas.

Tem oito episódios com entre 30 e 40 minutos cada; vistos de seguida, dão um belíssimo filme de quatro horas. Depois de ter passado na RTP2, a Sara está agora em streaming no RTP Play.

Silicon Valley

Por Mário Rui André

Podíamos puxar Mr. Robot para esta lista e se calhar, cinematograficamente falando, seria um destaque mais certeiro: os planos, os diálogos, a narrativa… Mr. Robot é uma série de culto e tem determinadas características que, do ponto de vista estético, reforçam esse estatuto. Silicon Valley é uma série mais “normal”. Com o budget que uma série norte-americana costuma ter, Silicon Valley teve dinheiro suficiente para ao longo de seis temporadas nos apresentar cenários de fazer chorar uma hipotética produção portuguesa equivalente e que nos transportavam para o universo da Pied Piper. Uma start-up com pedaços da história da Apple, Google e Facebook que surgiu, cresceu e se sumiu ao ritmo da actualidade que, nos anos de produção da série, ia marcando o panorama tecnológico a nível global.

Silicon Valley pode também ser considerada uma série de culto na medida em que fala para um nicho e tem piadas que se calhar só geeks irão perceber. Mas é uma boa série, com bom humor e um bom enredo, que acaba por servir de documento ficcionado sobre uma década em que gigantes tecnológicos ganharam controlo sobre a internet e sobre nós.

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