“They” como pronome singular neutro é a Palavra do Ano 2019

Em causa está o novo significado atribuído à palavra, relacionada com o debate sobre Género.

Todos os anos, a conhecida editora norte-americana fundada em 1828, Merriam-Webster, elege a chamada “Palavra do Ano”. A escolhida é aquela que, segundo os números de buscas no seu dicionário online, foi a mais procurada pelos utilizadores. Na passada segunda-feira dia 9, a Merriam-Webster anunciou que a palavra de 2019 foi “they”, o pronome da terceira pessoa do plural (“eles”), não só pela elevada procura pelo seu significado como pela variação na quantidade de vezes que a palavra foi procurada no corrente ano, em comparação com períodos anteriores.

Na lista das 10 palavras ou expressões destacadas pela editora estão, por exemplo, “impeach”, “quid pro quo”, “clemency” ou “camp”, palavras que, para quem acompanha a realidade norte-americana através das notícias mais recentes que nos chegam do país, não são estranhas. Mas foi a palavra “they” que surpreendeu pelo aumento das pesquisas online, que subiram 313% em 2019. Mas porquê, se “they” é um pronome pessoal, um termo básico, de entre os mais comuns na língua inglesa?

Existe uma explicação bastante actual que explica a ascensão das buscas pela palavra, associada a um debate público que está cada vez mais na ordem do dia. De acordo com a editora, apesar de, tradicionalmente, “they” ser utilizado para se referir à terceira pessoa do plural,  mais recentemente, o pronome vem sendo usado com um novo sentido, como um pronome singular neutro, algo que não existia na língua inglesa. É uma alternativa a “he” (ele) e “she” (ela), para todos aqueles que se identificam como não-binários, ou seja, nem com o género feminino, nem com o masculino. “Esse sentido é cada vez mais comum em textos publicados e editados, e também nas redes sociais e nas interações pessoais entre falantes de inglês”, diz a nota que acompanhou o anúncio oficial.

A Merriam-Webster menciona ainda alguns acontecimentos recentes para justificar sua escolha. Como quando a congressista democrata Pramila Jaypal disse numa audiência sobre igualdade de género que um de seus filhos não se conforma aos padrões socialmente construídos e usa o pronome “they”. Ou o facto de o cantor Sam Smith ter assumido em setembro uma identidade não-binária e ter anunciado que iria passara a adoptar para si mesmo os pronomes “they” e “them”. Além disso, o blog da Sociedade Americana de Psicologia recomendou, oficialmente, o emprego de “they” ao invés de “he” ou “she” quando não se sabe o género da pessoa em questão.

“O eles [‘they’] não binário usa um termo plural, apesar de se referir a uma pessoa, o que pode deixar conservadores em gramática desconfortáveis. Ajuda lembrar que o pronome ‘você’ [‘you’] era inicialmente plural, e é por isso que também carrega o verbo plural [‘are’], mesmo quando se refere a uma única pessoa”, destaca também a nota.

Em 2018, a palavra do ano para o dicionário Merriam-Webster foi “Justiça” e, em 2017, “Feminismo”. Em 2016, foi “Surreal”. Já para o Dicionário Oxford, a “Palavra do ano” de 2019 é, na verdade, uma expressão: “emergência climática”. A escolha foi divulgada em novembro e, de acordo com o dicionário britânico, o uso do termo aumentou mais de 100 vezes desde setembro de 2018.